Já li – O Menino de Cabul

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PORQUE LI?

Assim que terminei “O Curso do Amor” (que consegui deixar a meio durante três semana enquanto viajei pelo Irão) senti a necessidade urgente de me perder num romance que me enlevasse, uma história que eu não conseguisse largar. Recuei nas leituras feitas em 2016: dos vinte e um livros lidos até então (tenho lido menos este ano, muito menos…), dez eram de ficção e apenas três me tinham enchido as medidas — “A Vida Inútil de José Homem”, “Flores” e “A Resistência”.

Ainda sob a influência das experiências recentes vividas no Médio Oriente, lembrei-me d’ “O Menino de Cabul”, que estava há muito na minha lista de leituras desejadas. Acabei por comprá-lo. E ainda bem.

O QUE ACHEI?

Sabia que o livro me levaria até ao Afeganistão, à sua história, às suas cidades e à sua cultura, com tudo o que se isso implica: conhecer mais sobre a composição étnica do país, sobre o idioma predominante, a literatura, a música, a gastronomia ou a religião. O que eu não sabia é que “O Menino de Cabul” me levaria também de regresso aos azulejos de Isfahan, ao comércio de Teerão, aos cheiro e sabores da culinária persa, ao Pársi e às lendas narradas nessa língua, que grande parte da população afegã partilha com o povo iraniano. A primeira grande surpresa que o romance de Khaled Hosseini me proporcionou foi, assim, um certo prolongar da minha viagem ao Irão de onde tinha regressado havia pouco tempo.

Confirmei, desta forma, a convicção de que viajar é das melhores formas de aprender: todos estes detalhes enriquecedores e tão importantes na narrativa ter-me-iam passado completamente ao lado se eu tivesse lido este livro antes de visitar a antiga Pérsia. Sei hoje mais sobre o Afeganistão não só graças ao livro de Khaled Hosseini, mas também graças à viagem que fiz entre Setembro e Outubro ao seu país vizinho.

E confirmei, sobretudo, que se ler uma boa história, como a que é contada em “O Menino de Cabul”, já é uma excelente experiência, associarmos a informação que recebemos ao ler com a que temos no nosso pensamento é galvanizante. Isto porque ler é um processo delicioso de recordação e reconstrução, em que os nossos conhecimentos prévios dão significado aos estímulos recebidos através da leitura. (Teresa Silveira em “Cérebro e Leitura”). No meu entender é este o cerne do prazer de ler e é por aqui que o vício se instala.

Pondo agora as considerações biblioterapêuticas de parte, “O Menino de Cabul” foi totalmente ao encontro das minhas necessidades: a história e a sua moral subjacente, os vários cenários onde a acção decorre, os personagens robustamente construídos e os seus traços psicológicos por vezes desconcertantes levaram-me a terminar o livro em poucas horas, ainda que por duas vezes me tivesse forçado a pausas porque houve episódios que me indignaram e me deram a volta às entranhas…

Duas notas, porém, para aspectos quiçá menos positivos: muito cedo, na leitura, percebi o mistério que justifica algumas das atitudes (conscientes e inconscientes) mais intrigantes dos personagens principais — pai e filho —, mistério que só muito mais tarde é revelado na narrativa. Talvez isso possa estragar a leitura a alguns. Ou talvez a intenção do autor fosse mesmo essa, que nós pudéssemos ver a verdade antes dos principais implicados nela. Afinal na vida real, não são quase sempre os outros que vêem claramente o que se passa sob o nosso nariz, quando nós teimamos em cegar perante o óbvio?

Por último, ao ler “O Menino de Cabul” apercebi-me que me tornei uma leitora mais exigente. A história é excelente e está bem contada, mas a qualidade da escrita fica aquém. Senti falta de uma certa poesia e sofisticação que julgo advir, quase sempre, das palavras que se escolhem, da forma como são colocadas nas frases e das figuras de estilo. Talvez isto exista no texto original e se tenha perdido na tradução. Ou talvez a Marlene Ferraz, o Julián Fuks, o Afonso Cruz, o Ian McEwan e o Alain de Botton me tenham, tão só, deixado mal habituada.

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One thought on “Já li – O Menino de Cabul

  1. Olá,
    Gostei desse prolongar de viagem e gostaria de lhe pedir recomendações, se possível, para outros do mesmo tipo mas em que se passem no sul da China ou da Argentina ou do Chile visto que as minhas viagens têm sido por essas paragens 🙂

    De qualquer maneira é sempre um gosto ler o seu blog! 🙂
    Muito obrigado pela partilha.

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