Afonso Cruz / Parte 3: O leitor adulto

Parte 3

Este é o terceiro post composto à volta da conversa que tive com Afonso Cruz acerca do seu percurso de leitor e dos livros da sua vida. Quem não teve oportunidade de ler os posts anteriores pode fazê-lo aqui:

Afonso Cruz / Parte 1: Nasce o leitor

Afonso Cruz /parte 2: O leitor adolescente

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Flatland – O país plano”, de Edwin A. Abbott, foi lido com vinte e poucos anos. Publicado em 1884, “Flatland” é uma aventura matemática passada numa sociedade hierárquica, que tem figuras geométricas como protagonistas. Diz Afonso que este livro o marcou por ter levantado algumas interrogações, ao mesmo que tempo que o punha a olhar para o mundo de uma maneira diferente. Realça o subtítulo da edição inglesa, “Um romance com muitas dimensões”, e explica: “É um livro que pode ser incluído numa colecção de geometria, de filosofia do tempo, mas também podia ser um livro religioso. Enfim, tem imensas camadas, muitas interpretações e dá-nos uma perspectiva do tempo muito diferente, que de certa maneira foi a proto-ideia da física de Einstein, essa ligação do tempo e do espaço, que formam uma entidade coesa.”

Outro autor que recorreu à geometria para expressar o seu pensamento filosófico foi Nicolau de Cusa, um cardeal alemão que viveu no século XV. Afonso menciona duas das suas obras — “A Paz de Deus” e “Visão de Deus” — como muito importantes no seu percurso de leitor. Contudo, o que mais o fascinou foi a forma como Nicolau de Cusa explorou um conceito dos tempos de Heraclito. “Do que eu gostava realmente no Nicolau de Cusa era do conceito de coincidência oppositorum”, explica. “A ideia da união de opostos, em que duas coisas que são aparentemente inconciliáveis se podem unir no mesmo conceito. Ele diz, por exemplo, que uma circunferência infinita é uma recta, então ele consegue conciliar os opostos no infinito e com uma demonstração geométrica simples. Na verdade, ele acaba por demonstrar que qualquer sólido inscrito numa circunferência infinita coincide com a recta. E então coloca imensos problemas teológicos em relação a isto.”

Com Raymond Chandler, Dashiel Hammett e Ross MacDonald, Afonso descobre os encantos dos policiais, mais pela forma desses romances — que agarram o leitor até à última página na ânsia de descobrir o que aconteceu —, do que pelo conteúdo. Porém, em Raymond Chandler identifica momentos de grande beleza, como quando descreve beijos que ficam pendurados nos lábios: “São momentos de pura poesia, frases lindíssimas, imagens muito bonitas que a maior parte das pessoas não identifica com o mundo do policial negro em que há um detective que passa a vida em bares clandestinos, ou num escritório de persianas fechadas, com ventoinha e fumo de cigarros, onde entra uma loira a quem mataram o marido milionário.”

Na poesia, a referência apontada por Afonso surpreendeu-me — Rumi, o poeta persa da Idade Média. E explica: “Quando li ‘Masnavi’, o seu livro mais importante, chamado o Al Corão Persa, apercebi-me de ideias que para mim foram únicas e que me espantaram muito por virem de um poeta medieval com uma capacidade ecuménica, eclética, universalista, cosmopolita. Era uma pessoa altamente tolerante mesmo para os padrões de hoje em dia. Estamos a falar de alguém que viveu do século XII ao século XIII e, portanto, é impressionante.”

Por fim, Afonso refere pintores que lhe influenciaram a literatura: “Césanne, Gauguin, Van Gogh, Matisse, Picasso, pelas conquistas graduais que foram fazendo até ao expressionismo abstracto, influenciaram a minha maneira de pensar. Ainda hoje eu acho que há uma ligação umbilical entre a física da época e a noção de observador na pintura, que se alterou muito. De repente, o objecto que está a ser retratado pelo pintor deixou de ser visto de apenas um ângulo e passa a ter várias perspectivas. Relativiza-se a perspectiva única, estática, que era a perspectiva iluminista. Ou seja, já é a mesma ideia de Einstein que, não por acaso, aparece na mesma altura.”

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Haverá um quarto e último post. Segue dentro de momentos. 🙂

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