Elisabete, a leitora que é minha mãe

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A escola foi importante, não posso negá-lo. Porém, se hoje sou leitora devo-o ao facto de ter crescido no seio de uma família que lê, cujas casas sempre tiveram livros e que é frequentadora habitual de livrarias. Isso foi determinante.

Embora o meu pai também seja leitor, é da minha mãe que mais tenho memórias de ver a ler. Talvez isso se deva ao facto de não ter trabalhado fora de casa nos anos da minha primeira infância, quando vivíamos em França, e ter tido mais disponibilidade para os livros. Ou então, mais recentemente, à imagem que guardo, de cada vez que vou ao Algarve e a vejo, com todo o tempo que a reforma permite, a ler numa das poltronas da sala ou estendida no areal da praia da Rocha nos meses de Verão.

A história do seu percurso de leitora não é novidade para mim, mas é com prazer que a partilho convosco. Até porque vai ao encontro a uma eterna discussão: o que importa é ler independentemente da qualidade do que se lê? É possível progredir-se na qualidade da literatura que se consome? É sim. Acredito nisso piamente. Nestes mais de quatro anos a fotografar e conversar com leitores de todo o mundo, foram muitas as pessoas que me contaram que começaram por ler livros de pouca qualidade, mas que foram evoluindo. E nesse caminho, como verão no caso da minha mãe, os bons conselhos, as orientações de profissionais — livreiros, bibliotecários ou biblioterapeutas — são preciosas.

Comecei a ler muito cedo, embora durante a infância e a adolescência não tivesse acesso a bons livros. Lia a “Capricho” e romances cor de rosa. Mas a partir dos vinte anos, quando descobri Erico Veríssimo e Eça de Queirós passei a ter consciência do que era um bom livro”, explicou-me. “Quando casei e fui para França, ainda sem filhos, tinha muito tempo livre. Comecei a ler mais. Nas férias vinha a Portimão e levava muitos livros no regresso a França. Ia à livraria da Casa Inglesa e o Sr. Rosado, que era lá livreiro, influenciou-me muito porque era ele que me aconselhava os livros. Eu levava os do Érico Veríssimo e o papá (o meu pai) levava os do Jorge Amado. Mais tarde comecei a ler também em francês. Muitos livros foram comprados por causa das recomendações que o Bernard Pivot fazia no seu programa de televisão ‘Apostrophes’, que seguíamos religiosamente.”

A minha mãe é das pessoas com quem mais falo de livros. Gosto de lhos oferecer e de lhos recomendar. Ouço os seus conselhos também, alguns resultantes das idas ao Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Portimão. Recordamos leituras que temos em comum e é frequente falarmos dos personagens e das suas histórias como se fossem amigos, vizinhos ou conhecidos que partilharam connosco alegrias e infortúnios. Temos ambas saudades dessa gente, que vive numa espécie de universo paralelo que revisitamos volta e meia. A esse propósito a minha mãe comenta: “Não consigo imaginar a vida sem livros. Sem livros e sem música a vida não teria cor. É uma companhia. Quando te embrenhas no livro e entras na história é como se fizesses parte da vida dos personagens, parece que fazes amigos. Não dás pelo tempo passar e depois até tens saudades deles. E há o conhecimento que adquires, claro.

Por ocasião do crowdfunding para comprar a nova câmara fotográfica, decidi que quem contribuísse com 40€ ou mais seria recompensado com a publicação de uma foto no Acordo Fotográfico a ler o livro da sua vida. Os meus pais, como podem imaginar, foram dos contribuintes mais generosos. Ainda não consegui que o meu pai se decidisse a fazer a sua foto, embora já tenha eleito o livro da sua vida — “Os Capitães da Areia”, de Jorge Amado. A minha mãe foi mais fácil de convencer. Fotografei-a no Café da Ria, em Alvor, quando relia “Mil Sóis Resplandecentes”, de Khaled Hosseini.

“Quando o li pela primeira vez, mexeu muito comigo. Fiquei muito sensibilizada com a história destas duas mulheres, que começam por odiar-se mas que mais tarde se unem por causa do muito sofrimento a que são submetidas. A mais velha acaba por se sacrificar em nome da mais nova. Foi a lição que retive deste livro: a capacidade de sacrifício. É uma história tão forte, no meio de uma guerra e num país onde a mulher não vale nada… Ficou-me muito marcado na memória. Aconselho-o a muitas pessoas e todas me vêm dizer, depois, que é excelente. É claro que há outros livros que me marcaram, mas este é especial.

E vocês, leitores, a quem ou a que se deve o vosso gosto pelos livros? Gostava muito de saber dos vossos percursos, também.

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