Três, a conta que Deus fez

Às vezes dou por mim a pensar nas árvores que colocaria no meu jardim, caso um dia tivesse um jardim. A hipótese é remota, mas sei exatamente o que plantaria e sei, com toda a certeza, que uma oliveira faria parte do meu conjunto de sonho.  A par de uma magnólia, uma figueira, uma laranjeira, um limoeiro, uma cerejeira, um pinheiro manso, um sobreiro e um salgueiro chorão. Já que é para sonhar, sonho com um jardim grande.

Curioso é que, sendo a oliveira árvore da minha predileção e estando a génese do Acordo Fotográfico intrinsecamente ligada a um jardim de oliveiras, eu nunca tivesse, até agora, tomado consciência do profundo simbolismo desta árvore e do seu fruto, nem tivesse parado para pensar na coincidência que foi ter-me sentido inspirada naquele lugar em particular, e não noutro qualquer.

Numa perspetiva secular, a oliveira surge associada a conceitos como a resiliência (não faltam em Portugal oliveiras com mais de dois mil anos, por exemplo), a resistência (porque as suas raízes podem penetrar até seis metros no solo e porque suporta as secas mais severas) e a regeneração, sendo capaz de renascer literalmente das cinzas e perseverar. A fisiologia da oliveira faz dela uma árvore quase inextinguível e talvez por estar associada à característica que é dos deuses — a imortalidade —, a árvore passou a simbolizar a presença de Deus nas religiões da zona geográfica onde prevalece: o Mediterrâneo.

Para os antigos egípcios a oliveira foi uma criação de Ísis, deusa da fertilidade e da maternidade, que os ensinou a cultivar a árvore e a produzir o azeite a partir dos seus frutos. Para os gregos, a oliveira foi uma dádiva de Atena, deusa da sabedoria e das artes, que numa disputa territorial com Poseidon seduziu os mortais cidadãos ofertando-lhes uma árvore que providencia lenha, alimento e azeite (usado também para fins medicinais, cosméticos e iluminação). Os cidadãos viriam a dar o nome da deusa ao seu território — Atenas — e a oliveira passou a significar vitória, força, fidelidade, esperança e longevidade.

Já para os judeus, cristãos e muçulmanos a simbologia da oliveira e do azeite é vastíssima. Recordemos, por exemplo, que o ramo de oliveira ostentado no bico de uma pomba pôs fim aos quarenta dias de deriva de Noé e da sua família sobre as águas do dilúvio, um sinal de que Deus perdoara os homens e lhes dava uma segunda oportunidade numa terra de novo habitável. Mais uma vez, a oliveira significa regeneração, esperança, fertilidade, mas também perdão, paz e reconciliação. Era, também, num jardim de oliveiras que Jesus se isolava para meditar (e foi nesse mesmo jardim de oliveiras que acabou por ser traído e detido…). E no Corão, as referências às oliveiras, ao seu fruto e ao azeite são constantes. O profeta Maomé considerava a oliveira uma árvore sagrada e os muçulmanos acreditam que ao incluí-la, assim como ao azeite, nos seus rituais religiosos invocam as palavras de Alá. É por isso que usam, há séculos, caroços de azeitonas para fazer rosários e alguns tapetes de orações são decorados com oliveiras de cujos ramos pendem lanternas alumiadas com azeite, numa representação do paraíso.

Tenho contado muitas vezes a história do momento em que me ocorreu a ideia para o que viria a chamar-se Acordo Fotográfico. Foi em Agosto de 2010, no jardim das oliveiras do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, quando fotografei ao longe uma senhora a ler encostada ao tronco de uma daquelas árvores, sob a sombra da sua copa. E tenho contado inúmeras vezes o quanto o Acordo Fotográfico mudou a minha vida para melhor, inaugurando uma das fases mais ricas da minha existência. Caio hoje na tentação de atribuir um significado místico a tudo isto, agora que sei que a oliveira, entre muitas outras coisas sempre profundamente positivas, significa regeneração, resiliência e resistência. Com o Acordo Fotográfico lancei à terra novas raízes e reinventei-me. Foi há seis anos. Tenciono resistir muitos mais.

O Porto tem também, desde há uns anos esta parte, um lindo jardim de oliveiras. Fica no coração do centro histórico, junto à Torre dos Clérigos, serve de cobertura ao Passeio dos Clérigos (uma nova artéria comercial da cidade) e conta com 50 magníficas árvores. Foi inaugurado em Novembro de 2013 e eu sabia que assim que chegasse o bom tempo o relvado acabaria por atrair leitores e livros. Mas nunca tinha feito um esforço para fotografar naquele lugar. Até ao final do passado mês de Setembro, numa tarde em que saí do voluntariado no Hospital de Santo António e me dirigi ao jardim apenas com esse objetivo. Mais de sete anos volvidos, estava na altura de alimentar de novo o Acordo Fotográfico com as energias positiva de um pequeno olival.

Tinha acabado de subir o último degrau de acesso à cobertura quando vi a Inês, a Margarida e o Daniel à minha frente. O Daniel e a Inês são namorados. A Margarida é amiga de ambos. Conheceram-se na faculdade. São todos leitores de longa data e esse hábito sedimentou a relação entre os três. Afirmam com convicção que foi por causa dos livros que se tornaram amigos e que à medida que se aproximavam uns dos outros, os hábitos de leitura foram mudando em função da partilha de livros entre eles. Diferencia-os o facto de elas conseguirem ler vários livros ao mesmo tempo, enquanto ele não.

Embora a Margarida já tivesse lido toda a saga de Harry Potter em português, naquela tarde entrou na Livraria Lello e comprou por impulso o primeiro volume em inglês — “Harry Potter and the Goblet of Fire”. Era o livro que lia quando fiz a fotografia. Porém, aquele não era o único livro que tinha consigo. Dentro da mochila trazia “1984”, de George Orwell. Explicou-me: “Ler é uma forma de escapar à vida chata e de aprender. Já tinha lido ‘O Triunfo dos Porcos’ e gostei. Por isso decidi ler ‘1984’, que voltou à baila por causa das circunstâncias que vivemos, das ameaças dos totalitarismos. Precisamos abrir os olhos e não nos calarmos”.

Já a Inês, namorada do Daniel, anda a alimentar um carinho especial por Tolstói e apanhei-a em flagrante leitura de “Anna Karénina“. “Li ‘A Morte de Ivan Ilitch’ e queria ler ‘Guerra e Paz’, mas o livro é muito caro. Então, decidi ler este, que já tinha em casa. Vi o filme há uns anos, mas não me recordava da história, por isso parti para a leitura a zero, parti para algo desconhecido. Durante as férias de Verão li bastante e entrei a fundo no livro. Não se trata apenas da história da Anna, mas de duas formas de relatar o amor: o carnal e o platónico. Para além da sociedade russa da época, o que mais me cativa é a complexidade das personagens e a fragilidade de todas as relações”.

O Daniel, por seu turno, estava rendido aos encantos de Neil Gaiman e os seus “Deuses Americanos”, outro bestseller: “Vi comentários num canal do Youtube e saiu uma série de televisão baseada no livro. Fiquei curioso e decidi pegar nele. Estou muito no início, mas a adorar! Gosto muito de fantasia e neste livro o autor pega numa série de figuras mitológicas de outros tempos e trá-las para os nossos dias”.

No post anterior, desejei que o exemplo da Mariana fosse prova de que, afinal, os mais jovens não andam nem a ler pouco, nem mal. Hoje trago-vos um novo post com jovens leitores. Não um, não dois, mas três. A conta que Deus fez. Num modesto jardim de oliveiras, claro está, porque cada vez mais me parece que é por lá que Ele habita.

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