Abdussamed, na Suleimania

“O sol vai mergulhar por detrás da Suleimania; (…) Como todos os dias o meu jasmineiro roubar-me-á uma vez mais a última luz, a mais fulva. Avisto apenas, na ponta do Topkapi, os telhados brancos do Harém e, sob as árvores obscurecidas, os clarões das primeiras tochas. Mal se distinguem, ao longe, no Bósforo, as lanternas daquela embarcação tardia que se faz ao mar.” (A Senhora, de Catherine Clément, Edições ASA, Pág. 13)

Em Maio de 2007, cerca de um mês depois do meu regresso da Patagónia argentina — que visitei muito por causa do livro “Na Patagónia”, de Bruce Chatwin —, li o romance histórico “A Senhora” (atualmente esgotado em Portugal) e fiquei determinada a visitar Istambul. Os livros que leio estão há muito na origem de grande parte das viagens que vou fazendo.

O romance de Catherine Clément, baseia-se na vida real de uma mulher fascinante, injustamente esquecida durante muitos séculos, mas cuja história tem vindo a ser recuperada pela comunidade judaica, nomeadamente a sefardita, e partilhada com o resto do mundo através de obras de ficção e biografias. Grácia Nasi, filha de judeus fugidos de Espanha e radicados em Portugal após a ordem de expulsão decretada pelos Reis Católicos em 1492, nasceu em Lisboa em 1510 no seio de uma família humilde e foi batizada como cristã, embora todos continuassem a professar a religião judaica clandestinamente. Casa-se aos dezoito anos com Francisco Mendes, seu tio, também ele cristão-novo, banqueiro, dono de um império comercial e detentor de uma fortuna incalculável. Quando este morre subitamente, Grácia, então com vinte e cinco anos, herda parte da fortuna e reinventa-se na pele de uma mulher de negócios tenaz, corajosa e determinada, algo insólito na sociedade do Séc. XVI. Ao fechar-se o cerco da Inquisição à comunidade de cristãos-novos, nomeadamente por suspeitas de continuarem a professar o judaísmo em privado, Grácia decide abandonar Portugal para proteger-se a si, à sua família e aos seus negócios. Inicia um périplo que vai levá-la a viver em Londres, Antuérpia, Veneza, Ferrara, Ragusa e Salónica. Pelo caminho, nunca deixa de providenciar proteção e apoio aos seus irmãos judeus em fuga e torna-se uma grande mecenas, patrocinando a publicação de obras religiosas e a construção de sinagogas e escolas. Estabelece-se, por fim, em Istambul, no então Império Otomano que tinha aberto as portas do seu território a todos os judeus sefarditas, numa época em que aumentavam as perseguições na Europa cristã. Grácia Nasi pôde finalmente assumir-se como judia e praticar livremente a sua fé. É em Istambul que morre, aos cinquenta e nove anos, em 1569, deixando por concretizar um sonho: o de transformar a cidade de Tiberíades, na Galileia, atual Israel, num lugar de refúgio para todos os judeus expulsos de outras terras.

De forma algo inconsciente, andei nos últimos anos a mimetizar parte do percurso desta mulher portentosa. Tal como ela visitei e revisitei Londres, passeei por território belga, explorei Veneza, em Florença visitei uma sinagoga que lhe faz referência e pisei, dez anos depois de ter lido “A Senhora”, a fulva Istambul. Finalmente! Parti sem guia turístico, sem mapa, sem ter feito o esforço de aprender a dizer “sim” ou “não” em turco. Levei apenas meia dúzia de pontos de referência roubados a roteiros partilhados online e estava quase a zeros no tocante à história mais recente da cidade. Sabia algo de Bizâncio e de Constantinopla, mas muito pouco sobre a Istambul moderna. Aterrei num voo noturno. Na manhã seguinte, não sei de onde me veio o conforto, a familiaridade sentida assim que pus os pés na rua.

Não sei se veio de descrições como a que abre este texto, que eu tinha esquecido por completo, mas que talvez tenha contaminado os abismos mais profundos da minha mente. Não sei se veio dos relatos breves de conhecidos que já lá tinham estado, se do amigo que me recebeu, um português dos quatro costados que se sente em casa na Turquia como já não acontece em Portugal. Não sei se veio das viagens à Tunísia, a Marrocos e ao Irão. Não sei se veio da fusão entre o Ocidente onde vivo e o Oriente que conheço melhor a cada ano que passa e que me atrai cada vez mais. Não sei sequer se veio da propalada semelhança com Lisboa — quem pode negá-la? — mas que eu achei (e ainda acho) uma explicação superficial.

  

Sim, Istambul tem sete colinas, como Lisboa. E tem ruas estreitas, que serpenteiam por essas colinas acima a partir das margens do Bósforo. Vielas nos bairros de Gálata, Karakoy, Besiktas, Eminönü ou Sultanahmet, que nas primeiras horas da manhã se mantêm na penumbra, mas revelam lá em baixo, ao fundo, as águas do mar prateado onde o sol já se reflete. Tal como o Tejo reflete a luz especial que envolve Lisboa. Sim, há elétricos, pontes e pescadores de tempos livres; ferries, docas, portos e gaivotas; cheiro a peixe assado e a maresia. E há as mesquitas nos topos das colinas, com os seus minaretes esguios e cúpulas luzentes, que poderiam ser as da Basílica da Estrela ou do Panteão Nacional. Mas tudo isto não chegou para explicar como foi possível que, impreparada para o absolutamente novo, nada me tenha perturbado, apesar do deslumbre da primeira vez, e tudo tenha feito sentido. O que observei e experienciei assentou-me com naturalidade, como se já fizesse parte de mim, um pedaço da minha história, da minha herança, que andasse a flutuar em meu redor e que na hora e lugar certos reintegrou o meu corpo e a minha alma. Ou poderei dizer, o meu código genético?

Os meus dias começavam a norte da centralíssima Praça Taksim, em Bomonti, um bairro residencial distinto e tranquilo, feito de prédios de arquitetura remotamente parisiense, onde se instalou há pouco tempo o luxuoso Hilton e cuja antiga fábrica de cerveja que lhe dá nome — inaugurada em 1902 pelos irmãos suíços Bomonti — foi reconvertida, também há pouco tempo, num enorme espaço cultural, que alberga restauração e áreas de diversão noturna. Já com o pequeno-almoço tomado, percorria os poucos metros que me separavam das grandes artérias da cidade, pejadas de carros, de gentes e pontuadas por acessos ao metro, transporte que evitei quase sempre por preferir conhecer qualquer lugar a pé, nem que isso tenha implicado caminhar cerca de vinte quilómetros por dia. Dirigia-me para sul, atravessava a Praça Taksim e entrava na Istiklal, uma das avenidas mais famosas de Istambul, com quase três quilómetros de comprimento, totalmente pedonal e votada ao comércio e à restauração, que se expandem pelas ruas adjacentes. Embora de manhã a encontrasse ainda transitável, dizem as estatísticas que em certos dias da semana cerca de três milhões de pessoas cruzam a Istiklal. Não duvido, tal foi a dificuldade que tive em caminhar por ela numa sexta-feira à noite. Ao fim de cada dia, no regresso a casa, habituei-me a refugiar-me uns minutos na Igreja de Santo António, no extremo norte da avenida, um oásis elegante, silencioso, imune à turba. Na penumbra, agradecia o privilégio de mais um dia vivido a viajar, respirava fundo e encarava os derradeiros quarenta minutos de caminhada.

 

A partir da Istiklal deambulei pelo bairro Gálata, onde explorei o comércio, almocei e lanchei, fiz as primeiras fotografias dos muitos gatos com que me fui cruzando durante os cinco dias de visita — haverá mais de um milhão em Istambul — e subi à incontornável torre Gálata. Do cimo dos seus mais de cinquenta metros de altura e dos seus quase seiscentos e setenta anos de história, desfrutei pela primeira vez de uma vista de 360º sobre Istambul. Impressionada que estava com a estranha sensação de familiaridade, e embora testemunhasse em primeira mão a esmagadora dimensão da cidade, não sabia que observava um dos lugres mais populosos que alguma vez visitei. Istambul tem hoje mais habitantes que Tóquio, Teerão ou São Paulo. Passou a ocupar o quarto lugar na lista das “minhas” cidades mais populosas depois das idas a Xangai, Pequim e Bombaim — são catorze milhões de habitantes.

Sempre em direção a sul, atravessei o bairro Gálata quase todos os dias e a ponte com o mesmo nome. Nas faixas centrais circula, frenética, parte dos quatro milhões de veículos que contribuem para o smog que paira perene sobre a cidade, uma mácula no céu profundamente azul a que tive direito. Nos passeios laterais, pescadores oscilam com vagar as suas canas, para baixo e para cima, na esperança que alguma anchova ou cavala morda o isco lançado ao Bósforo. Chegada a Eminonu, no outro extremo da ponte, segui várias vezes para a esquerda e caminhei em sentido ascendente pela primeira colina de Istambul até chegar a Sultanahmet, a zona da cidade que concentra o maior número de atrações turísticas por metro quadrado, logo o maior número de turistas também. Percorrendo curtas distâncias a pé é possível visitar o Museu de Arqueologia, o Parque Gulhane, a Basílica Cisterna, o Grande Bazar, o Palácio Topkapi, a Mesquita Santa Sofia (Ayasofya em turco, outrora uma basílica católica) e a Mesquita Azul — estes três últimos monumentos classificados Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, em 1985.

Não me embrenhei demasiado no Grande Bazar, que achei luminoso, organizado e asséptico, sem o charme penumbroso e caótico dos bazares iranianos. Em contrapartida, o Palácio Topkapi, residência de sultões e sede do Império Otomano por quatrocentos anos, arrebatou-me. A sua localização, na vertente norte da colina, proporciona vistas belíssimas sobre o Bósforo e Istambul. Mas mais do que o sítio onde se encontra e a arquitetura das múltiplas estruturas que se espraiam pela vasta área que ocupa, foi a sumptuosa decoração dos seus interiores que me deixou horas de boca aberta: há uma explosão de cores e padrões impressos em azulejos que cobrem tudo — paredes, tetos, cúpulas —, combinados de forma sábia e harmoniosa com candelabros e espelhos de grandes dimensões, madeiras trabalhadas com madrepérola, vitrais de cores quentes, otomanas de brocados vermelhos e apontamentos de talha dourada um pouco por toda a parte. Só um elevado grau de sofisticação e apurado sentido estético permite tanto arrojo sem cair no mau gosto. Também me demorei na Mesquita Azul, claro, mas a grande experiência espiritual foi vivida na Ayasofya, um edifício com mil e quinhentos anos de história, de dimensões colossais, famoso pela sua cúpula, onde a iconografia católica bizantina expressa em mosaicos delicados coexiste pacificamente com símbolos islâmicos umas centenas de anos mais recentes. Emocionaram-me o espírito ecuménico, a elegância, a sobriedade e a energia límpida que o monumento emana.

Também a partir da praça de Eminönü, segui um dia para a direita, ao início da tarde, e subi aquela que é designada por terceira colina de Istambul. O trajeto que escolhi implicou atravessar boa parte do bazar de rua de Eminönü, a abarrotar de mercadorias que atravancam o caminho já de si estreito para acomodar os milhares de clientes. Tudo se pode vender e comprar nestes locais fascinantes onde os sentidos — sobretudo o olfato e a audição —  são forçados a reajustar-se e a apurar-se. Posso passar horas a observar e a tentar captar o ambiente com a lente de uma câmara. Porém, o tamanho da riqueza torna o meu esforço inglório. Que possam os turcos nunca cair no erro de preferir shoppings insípidos. À medida que chego ao topo da colina, começam a revelar-se os minaretes e as cúpulas da Suleimania ou Mesquita de Solimão, o edifício mencionado na abertura do romance “A Senhora”. Transponho um arco e entro no recinto. O jardim fronteiro ao monumento, relvado e com árvores de copa ampla, é um extenso miradouro virado a norte. Tenho Istambul e o Bósforo de novo aos meus pés.

A Mesquita de Solimão leva o nome do soberano que mandou erguê-la: Solimão I, Sultão do Império Otomano e chefe supremo do mundo islâmico — isto é, Califa — entre 1520 e 1566. A Ocidente atribuíram-lhe o cognome “o Magnífico”, não só porque durante o seu reinado o Império Otomano atingiu o apogeu militar, político e económico, mas também devido ao esplendor da corte instalada no Palácio Topkapi, cuja ampliação ordenou. A Oriente, chamaram-no “o Legislador” devido às reformas que implementou na justiça e na administração pública, promulgando leis inovadoras e polémicas. No ano da sua morte o império Otomano abrangia vastos territórios no Médio Oriente (como o atual Iraque, conquistado ao Império Persa), no Norte de África e também na Europa — Solimão anexou Belgrado, grande parte da Hungria, a Transilvânia e a ilha de Rodes. Adicionalmente, a sua marinha controlava o Mediterrâneo, o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico. A ser erguido um templo por sua ordem, este teria necessariamente de espelhar todo o poder e fulgor do magnífico Solimão I. O projeto ficou a cargo de Sinan, o principal arquiteto e engenheiro civil do Império Otomano durante os reinados de três sultões. Considerado um génio, Sinan inspirou-se em edifícios como a Ayasofya e a Cúpula da Rocha (em Jerusalém) para conceber a Mesquita de Solimão, misturando estilos arquitetónicos bizantinos e islâmicos. As obras começaram em 1550 e terminaram em 1557.

Grácia Nasi, que entrou triunfalmente em Istambul em 1553, morreu doze anos após o fim da construção da Suleimania. Quero acreditar que teve a oportunidade de visitá-la. Imagino-a a prestar homenagem a Solimão I — falecido três anos antes de si e enterrado no recinto da mesquita —, o homem de quem foi banqueira, com quem fez inúmeros negócios e que lhe concedeu a exploração de Tiberíades. Imagino-a descalça, de cabeça coberta e rosto erguido para o interior da cúpula, como eu. Talvez esmagada pela beleza do templo, como eu. Com certeza, a confirmar o que ela tão bem sabia por experiência própria: movido pela fé, o Homem é capaz de superar-se uma e outra vez. A Suleimania conquistou no meu coração e na minha memória um lugar que a Mesquita Azul não soube ocupar, até porque à sombra de uma das suas árvores esperava por mim um leitor: Abdussamed.

As mesquitas são o centro da minha vida e de todas esta é a mais especial. Aqui sinto-me muito em paz”, explicou-me quando lhe perguntei porque tinha escolhido aquele lugar para ler. Tinha começado havia pouco tempo um romance recém-comprado, “Kelebekler Gamsiz Uçar” (algo como “Borboletas que voam despreocupadas”), escrito por Ahmed Gunbay Yildiz, autor turco nascido em 1941. “Gostei muito de outros livros do autor e o título deste pareceu-me interessante. Conta a história de um rapaz que vive problemas emocionais na relação com a família, o que afeta toda a sua vida.

Abdussamed é um jovem estudante de Relações Internacionais que diz ler uma média de trinta a quarenta livros por ano. Para além da cultura e da educação, acredita convictamente que nos livros encontra todas as explicações acerca da vida. Para responder à minha pergunta seguinte não hesitou um só instante. Reagiu com prontidão: “Sou muçulmano e o livro da minha vida é o Corão. Com ele aprendi a maior das lições: o propósito da Humanidade é viver para Deus, de acordo com as leis de Deus.”

 

A tarde ia a meio quando iniciei a descida da terceira colina de Istambul. Atravessei de novo o bazar de rua de Eminönü e chegada às margens do Bósforo entrei num barco para o inevitável passeio no estreito. A espera para que a embarcação arrancasse foi longa, mas permitiu-me um daqueles momentos de atenção plena, que me acontecem mais em viagem do que noutras ocasiões, potenciado pelo embalar das ondas, pela vista sobre a outra margem e pelo chamar dos muezins para a penúltima oração do dia — pouco antes da cinco da tarde, levantou-se um coro vindo das mais de três mil mesquitas de Istambul. Durante longos minutos não recordei, nem antecipei nada, não ocupei a mente com conjeturas, suposições, não fui tomada de assalto por preocupações. Apenas estive sentada no convés, o queixo apoiado sobre o antebraço encostado à balaustrada. E vi com o coração bem aberto. Uma hora depois, no regresso ao cais de embarque, comprei uma maçaroca de milho assada para mitigar a fome enquanto não chegava a casa para jantar. Atravessei a ponte Gálata e já na margem norte olhei para trás, para sul, e vi, tal a como a Senhora terá visto muitas vezes, o sol mergulhar por detrás da Suleimania.

 

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