Irão – Por Hussein, ler o Alcorão

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Maomé — fundador do Islão, chefe político e autor do livro sagrado Alcorão —, não deixou quaisquer instruções quanto à sua sucessão antes de morrer, no ano 632 d.C. Uma vez que o Islão é muito mais que uma religião (estipula princípios civilizacionais e políticos também), a questão da sucessão tornou-se um assunto crítico.

Durante uns anos, a comunidade islâmica conseguiu entender-se quanto a quem tomaria o lugar de Maomé e a tarefa foi entregue aos Califas que eram sogros do profeta. A confusão instalou-se quando Othmã, um Califa primo de Maomé, tomou posse em 644 d.C. Othmã foi altamente contestado por uma parte dos muçulmanos e acabou assassinado. Diz-se que Ali — primo e genro do Profeta e seu quarto sucessor — esteve envolvido nesse assassinato, tendo por isso granjeado uma série de opositores liderados por Muhawya, o todo poderoso da Síria. Muhawya e os seus seguidores conspiraram para que Ali fosse morto também e transferiram a capital do Califado de Medina, onde Maomé está enterrado, para Damasco.

A comunidade muçulmana começou, então, a fraccionar-se. Por um lado os Xiitas (“shiat Ali”, ou “partidários de Ali”), que defendem que os líderes legítimos do Islão devem descender directamente de Maomé. A esses líderes divinamente guiados pelo profeta, doze no total, os Xiitas chamam Imãs e o Califa Ali foi o primeiro dessa linhagem. Por outro, os Sunitas (termo que deriva da palavra “Suna”, um texto que relata os feitos de Maomé enquanto profeta e mensageiro de Deus), que divergem, entre outros aspectos, da concepção sucessória dos Xiitas, não veneram qualquer Imã e consideram Ali “apenas” o quarto Califa.

A ruptura definitiva entre Xiitas e Sunitas deu-se quando Hussein (filho de Ali, neto de Maomé e terceiro Imã para os Xiitas), foi decapitado entre 670 e 680 d.C., em Kerbala, no actual Iraque, no decorrer de uma batalha contra as forças do Califa Yazid, filho e sucessor de Muhawya. Este acontecimento está na base dos conceitos Xiitas de martírio e expiação e dos respectivos rituais de luto colectivo.

Antes de ir para o Irão tinha a intenção de ler um livro que tenho em casa há muitos anos com o ABC do Islão. Acabei por não fazê-lo. A minha grande aprendizagem sobre o assunto foi feita ao vivo e a cores na República Islâmica, país de muçulmanos Xiitas, onde passei três semanas entre Setembro e Outubro últimos. Acredito que não há melhor forma de aprender! A história que vos contei agora foi-me contada também há poucos dias, embora de forma muito resumida, pelos iranianos com quem fui conversando. Os espaços que ficaram em branco levaram-me a pesquisar o resto. Agora sim, julgo ter compreendido de uma vez por todas o que separa Xiitas (uma minoria onde se enquadram os muçulmanos do Irão) de Sunitas (cerca de 90% da população islâmica mundial).

Quando planeei a viagem por territórios da antiga Pérsia, estava longe de saber que a data que escolhi coincidiria com as celebrações da morte de Hussein, o terceiro Imã. Estas celebrações decorrem durante os primeiros dez dias do primeiro mês do calendário muçulmano, a que chamam Muharram, e culminam com dois dias de feriado nacional em que o país pára. Ao décimo dia de celebrações chamam Ashura, o dia exacto em que o Imã Hussein morreu. Porém, à medida que fui avançando de norte para sul — primeiro Teerão, depois Kashan, Esfahan, Yaz e por fim Shiraz — fui-me apercebendo que algo estava para acontecer: hasteavam-se bandeiras negras por todo o lado, as ruas eram decoradas com grinaldas negras e os muros das mesquitas e mausoléus decorados igualmente com faixas negras. O país, já de si dominado pelo negro dos hijab e dos chadors das mulheres, estava a cobrir-se de luto.

Foi em Yazd, pouco depois do cair da noite, que assisti ao primeiro desfile de iranianos a dar largas à dor que, passados cerca de mil e trezentos anos, ainda causa a morte do Imã Hussein. Ao som cadenciado de tambores, um homem cantava ao microfone, com a voz amplificada por enormes colunas, a triste história de Hussein, enquanto muitas dezenas de homens (só homens, jamais mulheres) vestidos de preto da cabeça aos pés formavam duas filas paralelas e seguiam em cortejo, batendo repetidamente no peito com a palma da mão direita ou chicoteando as costas com correntes de metal. À medida que a noite avançava, grupos semelhantes a este foram ocupando outras ruas de Yazd e o mesmo se repetia noutras cidades pelo Irão afora.

Para esta autoflagelação colectiva parece haver duas explicações: uns dizem que pretendem não esquecer a dor vivida pelo Imã Hussein e pela sua família quando foram barbaramente assassinados; outros, que se penitenciam pelo facto da comunidade Xiita não ter podido, à época, salvar o seu líder. Seja como for, ainda sem saber muito bem o que se passava, as cerimónias começaram a ganhar contornos que de alguma forma me eram familiares. Confirmei-o mais tarde, já no quarto do hotel, num simples acesso ao Google: as imagens de homens em tronco nu escorrendo sangue e de cabeças igualmente ensanguentadas devido aos golpes repetidos infligidos por uma espada remeteram-me para os telejornais de há muitos anos, quando as violentas penitências eram notícia a Ocidente. Parece que, mais recentemente, os líderes religiosos iranianos preocupados com a reputação da comunidade Xiita proibiram as autoflagelações com objectos cortantes (que se mantêm, contudo, noutros países muçulmanos onde há minorias Xiitas). Daí o uso de correntes, supostamente mais seguras, sobretudo se os penitentes mantiverem as camisas vestidas. Tive, porém, a possibilidade de lhes sentir o peso e mesmo com roupa sobre a pele acho difícil que as correntes não magoem bastante, sobretudo se considerar o vigor com que as lançam sobre as costas e a duração dos cortejos. Diria que ao fim de alguns minutos, pelos menos uns bons hematomas devem estar garantidos…

O papel das mulheres Xiitas nesta celebração pareceu-me, em contrapartida, muito mais discreto. Vi-as rezar, chorar por Hussein, assistir aos cortejos de homens penitentes e limpar as ruelas estreitas do grande bazar de Teerão depois de terminadas as cerimónias. Mas não as vi a autoflagelar-se, nem sequer a participar na tradicional distribuição gratuita de chá e refeições. Essas são tarefas exclusivas dos homens e há mesmo ambientes que passam a ser temporariamente interditos a mulheres. Eu que o diga, que vi a minha passagem impedida em certas áreas do bazar no dia da Ashura e que não pude entrar numa casa de chá na véspera.

Discreta era a atitude da mulher que encontrei por esses dias, no regresso ao hostel onde me hospedei, junto à Universidade de Teerão. As ruas desertas e o crocitar dos corvos, normalmente abafado pela poluição sonora, imprimiam contornos sinistros à capital iraniana. Descobri que me sentia mais confortável com milhões de pessoas nas ruas e o ar poluído pelo excesso de automóveis velhos. Sentada nos degraus de uma casa, a mulher lia um livro em silêncio. Parei e perguntei-lhe “Quran?”. Da sua resposta entendi “Quran”, “Hussein” e “Ashura”, dito com os olhos postos no céu e um esgar choroso. Pedi-lhe a foto e acedeu. Enquanto registava as imagens, a mulher voltou a ler o livro sagrado mas desta feita em voz alta. Depois mostrei-lhe as fotografias. Sorriu e acariciou-me o rosto. Proferiu mais umas palavras que não pude compreender, mas apreendi o tom doce. Fui-me embora sem saber o seu nome.

Foi assim que depois de ter fotografado o Albérico a ler a Bíblia em Salvador da Baía, fotografei uma mulher Xiita a ler o Alcorão em Teerão. Até onde terei de ir para fotografar alguém a ler a Torá e fechar o círculo abraâmico no Acordo Fotográfico?

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4 thoughts on “Irão – Por Hussein, ler o Alcorão

  1. Uau Sandra, que relato intenso, que fotografia majestosa! Parabéns! Adorei a descrição e fiquei a aprender um pouco mais sobre a diferença entre xiitas e sunitas. Beijinhos

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