Leonardo, Homero, Baricco e Orwell

dscf2095

Assistir ao pôr do sol no Passeio das Virtudes é um programa belo e grátis, que estava há muito no roteiro dos portuenses. Agora, é também uma experiência que os turistas procuram viver. É bom vê-los chegar, sós ou liderados por um guia, para ver — e fotografar, claro! — o sol tocar as águas da foz para lá da Ponte da Arrábida, o céu escurecer e as encostas de Gaia e da Invicta reduzidas a uma impressão de terra pontilhada pelas luzes dos lampiões. Enquanto isso, os aviões que cruzam o horizonte preparando-se para aterrar recordam-nos que no dia seguinte a eterna performance do sol terá novos espectadores.

Foi o Passeio das Virtudes que escolhi, numa tarde de Domingo ainda em Setembro, para o reencontro com uma amiga que não via há demasiado tempo. Queríamos tomar um copo e pôr a conversa em dia, porque muita coisa tinha acontecido e outras tantas estavam para acontecer. Foi um fim de dia magnífico, de temperaturas cálidas, banhado pela luz dourada que é um prenúncio de Outono, aquela luz que elimina arestas, suaviza tudo ao nosso redor (até os sons…) e realça a formosura das coisas mais singelas, como a pessoa que lia à minha direita, também ela de frente para o sol e para o Douro. Convenci-me que a capa era a de “1984”, disse-o à minha amiga antes de a deixar só por uns minutos e avancei para o leitor com a certeza de quem vai ter uma breve conversa sobre George Orwell.

Enganei-me. Leonardo, italiano e músico de rua a residir no Porto há dois anos, estava a ler “Omero, Iliade”, uma reinterpretação do poema épico de Homero feita por Alessandro Baricco. Embora não se declare grande leitor, Leonardo diz que atravessa fases em que lê mais e que tudo depende dos livros com que se cruza. Tinha estado recentemente em Itália e porque não lia há muito tempo na sua língua materna, decidiu investir uma centena de Euros em livros. O título de Baricco — que considera um dos seus autores favoritos, muito graças à forma criativa e pouco comum que assume a sua escrita — foi um dos que comprou e trouxe consigo no regresso ao Porto.

                    dscf2098       dscf2098-version-2

Na introdução o autor explica o porquê deste livro”, disse-me. “Há uns anos ele quis organizar uma leitura da obra original de Homero durante uma noite inteira, no decorrer de um festival. Concluiu, contudo, que isso não era viável, não só por causa da dimensão do texto mas também porque a linguagem não era actual. Foi então que decidiu escrever a sua versão da Ilíada: manteve a lógica da obra, mas eliminou partes, prescindiu de todas as referências aos deuses por causa das suas relações com as guerras, actualizou a linguagem, pôs a narrativa na primeira pessoa e atribuiu cada capítulo a um narrador diferente. Este é, por isso, um livro que eu recomendaria a quem gosta de ler clássicos, mas acha difícil a linguagem antiga.

E quanto ao livro da sua vida? A resposta foi dada sem qualquer hesitação: “1984”, de George Orwell. “Já o li cinco ou seis vezes. De cada vez é um livro diferente. Em diferentes momentos da vida interesso-me por diferentes aspectos do livro e nunca me canso! Por isso é uma obra-prima”.

Fica por explicar de onde me veio a certeza de que Orwell seria assunto de conversa naquela tarde dourada.

dscf2096

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s