Armand, no Majestic

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No dia do seu 110º aniversário, saí de casa para fazer as pazes com a Lello. Acho que nunca me refiz do episódio de 2012 — às vezes parece-me que ainda ouço a voz que gritava “No photo!” — e tampouco digeri totalmente a necessidade de se pagar 3€ para entrar na livraria. Mas consigo colocar-me no lugar de quem gere o negócio e sobretudo de quem tem a responsabilidade de conservar um edifício que os turistas elevaram à categoria de quase monumento.

De lá segui para o Majestic. Apeteceu-me tomar um café enquanto lia as últimas páginas de “Porque Fazemos o Que Fazemos”. Sentei-me numa pequena mesa junto da janela, apesar dos avisos do empregado acerca do frio. Isso não importava. Queria poder levantar os olhos do livro, ver a gente que passava lá fora e a noite a chegar devagarinho. Na mochila trazia a câmara nova e ainda virgem de leitores. Na véspera, uma senhora tinha-me negado uma fotografia.

Não reparar no Armand quando chegou era difícil. Alto, elegante, um saco de viagem simples mas distinto numa das mãos. Sentou-se à minha frente. E eu, julgando que ninguém reparava, fui controlando o que fazia: primeiro uma vista de olhos na ementa, depois o pedido, a seguir umas notas escrevinhadas num caderno de capa preta e por fim, depois de ter comido, o puxar de um livro guardado no saco de viagem. O empregado, cuja função é abrir a porta do café aos clientes, topou-me a léguas. E deu-me vontade de rir o seu ar de espanto quando o chamei à parte e lhe perguntei: “Aquele senhor ali, cumprimentou-o em português ou em inglês”? Julgo que temeu pela reputação do seu local de trabalho.

Quis começar por saber de onde era. Armand encolheu os ombro, soprou levemente e abanou a cabeça como quem já não sabe ao certo a que lugar pertence. Mas depois da hesitação cedeu: “Pode dizer que sou britânico”. Pareceu-me fazer sentido perguntar se viajava muito. Obtive outra resposta vaga, um gesto de mão esguia a dizer mais ou menos. Ou a fugir à questão. Arrisquei então um “Veio viver para o Porto?”. E aí a conversa ganhou élan. “Na verdade”, disse-me “acabo de chegar ao Porto. Nem fui ainda ao hotel, por isso trago o saco de viagem comigo. Estava a precisar de fazer uma pausa num projecto no qual tenho estado a trabalhar há mais ou menos um ano. Procurei o voo mais barato e esse voo era para o Porto. Fico até sexta-feira”.

Armand lia “Norwegian Wood”, do japonês Haruki Murakami, um romance que, no seu entender, tem pouca acção. “O personagem principal recorda os seus anos de juventude na Tóquio dos anos 60 e 70 e o amor por uma mulher fã da canção dos Beatles que dá nome ao livro”, resumiu. Leitor esporádico, Armand explicou-me que a presença dos livros no seu dia a dia depende da fase da vida em que se encontra. Quando era estudante, deu pouco espaço à literatura e preferência aos livros técnicos. E hoje investe mais tempo em jornais e revistas, que proporcionam uma leitura rápida, do que em romances que são muito mais exigentes no que diz respeito ao tempo disponível. “Gosto de ter livros à minha volta, é certo, mas não os julgo fundamentais de momento. Talvez quando me reformar”.

Por fim, não demorou muito a apontar o livro que mais o marcou até ao momento: “Down and Out in Paris and London”, de George Orwell. Um registo autobiográfico dos anos em que Orwell, ainda na casa dos vinte, procurava vingar enquanto escritor e viveu entre os mais pobres daquelas duas cidades capitais, tendo chegado a passar fome e a dormir na rua.

Conheciam esta obra? Eu não. Acabo de adicioná-la à minha lista de leituras futuras.

 

 

 

 

 

 

 

 

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