Já li — A Amiga Genial (4 volumes)

Acordo Fotográfico - Sandra Barão Nobre - Elena FerrantePORQUE LI?

Não consegui ficar imune à “febre Ferrante”. Aliás, fui eu que no Natal de 2016 sugeri ao meu pai que oferecesse “A Amiga Genial” à minha mãe, que do primeiro volume passou rapidamente à leitura dos três seguintes. De lá para cá, não só continuei a ouvi falar da saga em termos elogiosos nos media e nas redes sociais, mas também em casa. Chegada a Portimão para as férias deste último Verão, li os quatro volumes que pertencem à minha mãe em pouco mais de uma semana.

 O QUE ACHEI?

Decidi que tinha de me regular por aquela menina, nunca a perder de vista, mesmo que ela se aborrecesse e corresse comigo. É provável que tenha sido essa a minha maneira de reagir à inveja e ao ódio e de sufocá-los. Ou talvez tenha disfarçado desse modo o sentimento de subalternidade, o sortilégio que estava a sofrer. Preparei-me, claro está, para aceitar de bom grado a superioridade de Lila em tudo, e também as suas prepotências (…) Por isso empreguei todas as minhas energias de menina, não para me tornar a melhor da aula — parecia-me impossível consegui-lo —, mas para não cair para terceiro, quarto ou último lugar. Dediquei-me ao estudo e a muitas outras coisas difíceis, que me eram estranhas, só para me manter a par daquela menina terrível e brilhante. Brilhante para mim. Para todos os outros alunos, Lila era simplesmente terrível. Da primeira à quinta classe da primária, por culpa do director e também um pouco por culpa da professora Oliviero, foi a menina mais detestada da escola e do bairro. (Pág. 34 e 35)

Julgo que a última vez que li tanto em tão pouco tempo — 1382 páginas em semana e meia — foi há alguns anos, quando os três primeiros volumes da saga Millennium me foram oferecidos (mas não entendam esta referência como uma comparação entre as obras de Larsson e Ferrante!). Estar horas a fio, dias a fio sem fazer mais nada que não seja ler é, para mim, um prazer ímpar, mas raramente possível… Estou imensamente grata ao génio de Elena Ferrante (seja ela quem for) por me ter arrastado de novo para esse estado profundo de concentração, mas também de alienação e até de delírio.

Com os seus livros nas mãos eu desmaterializei-me, o mundo à minha volta dissolveu-se, exceto Itália, Nápoles e aquele inacreditável grupo de pessoas que ainda hoje, passados três meses, me sussurram aos ouvidos quando menos espero, cutucam os meus ombros quando leio outros livros, entram na minha cabeça a qualquer momento sem pedir licença e alimentam uma nova obsessão: visitar os lugares onde tudo aconteceu.

Aliás, terminados os quatro volumes, abri pela primeira vez na vida o mapa de Nápoles no Google Maps e fui invadida por uma sensação estranhíssima de familiaridade: uma vez identificado o bairro no qual supostamente Ferrante se inspirou para construir o lugar onde habitam os seus personagens, a cidade onde nunca estive desdobrou-se sob os meus olhos até ao golfo e eu segui com naturalidade as ruas, as praças e os monumentos com a segurança de quem já a calcorreou muitas vezes.

A saga “A Amiga Genial” (ou a “Saga Napolitana”, como lhe chamam noutros países”) toca todos os aspetos da dimensão afetiva do ser humano — as relações entre pais e filhos, entre homens e mulheres, entre amigos, entre colegas de estudo e de trabalho, entre pobres e ricos, entre intelectuais e analfabetos, entre burgueses, arrivistas e membros do proletariado —, explora com detalhe as emoções que daí resultam e conta, nesse desígnio, com um conjunto de personagens vasto e riquíssimo. É impossível não nos identificarmos com alguém ou ver nos personagens alguém que conhecemos. É impossível não sabermos exatamente o que alguns personagens vivem ou sentem em determinadas ocasiões. É impossível não nos apaixonarmos por alguns e desprezarmos outros tantos. É impossível não sermos surpreendidos pelos acontecimentos das suas vidas, tanto quanto somos surpreendidos pela rasteiras e pelas benesses dos nossos próprios percursos.

Elena Ferrante não só é prodigiosa na construção e caracterização destas pessoas, como o é também na descrição dos lugares e da época onde tudo acontece: a Itália do pós-Segunda Guerra Mundial, a cidade de Nápoles em particular, e as suas circunstâncias políticas, económicas e sociais até ao início do século XXI. Com “A Amiga Genial” trabalhamos as emoções e a imaginação, claro, mas também aprendemos imenso sobre a história recente da Itália dos atentados, dos raptos, dos assassinatos, da corrupção, da agiotagem e da máfia.

Umas palavras finais para Lila e Lenú, as duas amigas que ocupam o lugar central na galáxia Ferrante. Nascem e crescem num bairro popular e pobre de Nápoles. Lila é morena, enfezada, rude, confiante e possuidora de uma inteligência fora do comum que lhe permite, por exemplo, aprender a ler sozinha muito antes de entrar para a escola. Lenú é loira, roliça, polida, insegura e igualmente inteligente, mas tem de se esforçar mais para conseguir bons resultados escolares e atingir todos os objetivos a que se propõe ao longo da vida.

Ambas, Lila e Lenú, são geniais à sua maneira, com a diferença de que a genialidade de Lila, na análise que eu faço do seu carácter, é canalizada para a manipulação, a dissimulação, a vingança e a maldade em benefício próprio, ainda que dê quase sempre a entender que tudo o que faz é em prol dos outros. Lila é daquelas pessoas que não dão ponto sem nó e o conjunto dos seus comportamentos ao longo de toda a história roça a psicopatia.

Lila afetou-me profundamente, não porque tenha vivido uma amizade com alguém do seu tipo desde a mais tenra idade, mas porque já mulher e madura me cruzei com uma alma deste calibre durante uns breves meses, que me despertou de forma aguda para a questão da manipulação. Outras conheci que se lhe assemelhavam, quase sempre em ambiente de trabalho, mas nenhuma chegou ao grau de perfídia que testemunhei neste ser em particular. Foi a pior pessoa que a vida pôs no meu caminho, um buraco negro sugador sem fundo à vista. Por intermédio de Lila, revivi toda a tensão daqueles meses. Senti ressurgir a sombra que aquela outra sombra soube trazer ao de cima. Fui ao encontro dos meus piores instintos e, página após página, desejei-lhe(s) o pior vezes sem conta.

Nas fraquezas e forças de Lila e Lenú vi-me ao espelho. Por isso não perdoei a Lenú (e a mim mesma) a falta de determinação e de visão em certas circunstâncias. Por isso tive medo da maldade e da obstinação de Lila (e da minha própria maldade e obstinação). Foram 1382 páginas em que recapitulei todas as vezes em que me deixei manipular e me interroguei sobre quantas vezes terei eu sido a manipuladora. Foram 1382 páginas em que caminhei sobre a linha fina que separa o meu lado luminoso da minha faceta mais lúgubre. Todos os dias trabalho conscientemente para ser melhor pessoa. Todos os dias me interrogo acerca do sucesso dessa empreitada. Neste caminho, a história de Lila e Lenú foi um contributo importantíssimo para o meu exercício de questionamento e autoconhecimento através da literatura e do percurso de outros, quer eles sejam reais ou fictícios.

“A Amiga Genial”, “História do Novo Nome”, “História de Quem Vai e de Quem Fica”, “História da Menina Perdida”. Quatro volumes. Uma obra colossal. Um marco no meu percurso de leitora. Nunca me cansarei de recomendá-la. Nunca esquecerei o que li no Verão de 2018.

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