Max e As Cidades Invisíveis

Há uns dias, dei um pulinho a Viana do Castelo para participar numa reunião. Não me lembrava ao certo da última vez que lá tinha estado. O comboio que partiu de Campanhã, no Porto, deixou-me no centro da cidade duas horas e meia antes do meu compromisso. Pedidas recomendações a uma vianense na véspera da minha curta viagem, ficou claro que deveria aproveitar para descer a Avenida dos Combatentes até ao rio Lima e visitar a linda Biblioteca Municipal, desenhada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira. Se o tempo me sobrasse, iria ao edifício da frente, o Centro Cultural de Viana, desenhado por outro vulto da arquitetura nacional — Eduardo Souto de Moura.

Ao aproximar-me do rio, porém, não resisti ao apelo da água e da paisagem em seu redor. Apesar do vento forte e fresco, o céu azul e a luz branca do início da tarde levaram-me para lá da entrada da biblioteca. Percorri o espaço largo que separa os edifícios monumentais imaginados pelos “nossos” Prémios Pritzker até à margem do Lima, transformada num anfiteatro com vista privilegiada para a ponte Eiffel, envolta num farrapo de nevoeiro, e para as águas doces que seguem no encalço do mar. Nessa margem, amparado pelos trabalhos dos mestres, fui encontrar um arquiteto em formação.

Max nasceu em Vila do Conde, filho de pais alemães. Mudou-se para Bremen aos 13 anos e é lá que faz os seus estudos superiores. Este ano, antes de começar a reta final do Mestrado e de apresentar e defender a sua tese, regressou a Portugal por uns dias para visitar o pai, que vive agora em Viana do Castelo. Consigo trouxe “Die unsichtbaren Städte”, isto é, “As Cidades Invisíveis”, do autor italiano Italo Calvino. Publicado em 1972, o livro é considerado uma das obras-primas da literatura do século XX.

Disseram-me que este livro imaginativo é bom para arquitetos porque descreve de forma rápida visões de cidades que não parecem reais. Uma cidade corresponde mais ou menos a uma ou duas páginas do livro. O narrador é Marco Polo, que descreve a Kublai Kan as cidades que visitou durante a sua grande viagem, levando-o assim a imaginar e a descobrir lugares diferentes. Comecei este livro há poucos dias, li apenas 50 páginas e estou a gostar. Normalmente leio pouco, mas quando tenho tempo leio policiais ou livros de arquitetura. Na leitura procuro conhecimento e intensidade nas descrições, que prefiro realistas e à volta de um único tema. Este é diferente disso, é um misto de ensaio, ficção e livro de viagem. Mas é fácil de ler e recomendo-o a pessoas que, como eu, gostem de livros com capítulos curtos, que prefiram livros com informação concisa.

No interior da biblioteca, sentei-me junto aos escaparates com revistas. Procurei ler a tese de doutoramento sobre Biblioterapia que tem andado comigo para todo o lado. Não consegui. Folheei, também, um exemplar recente da National Geographic, mas sem foco. A cada voo rasante das gaivotas junto à longa janela que rasga um dos muros do edifício, era inevitável levantar os olhos das folhas de papel e encarar o céu. Aquela infinidade de espaço remetia-me para a viagem de Marco Polo, para as minhas próprias viagens e para esta constante vontade de partir ao encontro das cidades que ainda não vi. Mas primeiro vou ler “As Cidades Invisíveis”, que está há demasiado tempo na minha lista (tão infinita quanto o céu sobre Viana…) à espera de uma oportunidade.

Obrigada, Max!

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