Marta e Asterios Polyp

Por este andar vou ter de abrir no Acordo Fotográfico uma categoria para “Leitores que carreguei ao colo”.

Há dois anos fotografei a minha sobrinha agarrada ao livro que eu levava para a praia. Fazia de conta que lia, já que a entrada para a escola primária ainda demoraria. Este Verão, fotografei a Marta, que nasceu já eu era uma adolescente que curtia amores platónicos fulminantes. Apesar dessa diferença considerável de idades e do afastamento físico que acarretou a minha entrada para a faculdade e a mudança para Lisboa — em 1991 a Marta era uma criança e eu nunca mais vivi em Portimão —, a distância e as ausências prolongadas nunca afetaram a natureza da nossa relação e não beliscaram o tamanho do carinho e respeito que temos uma pela outra. Devemo-lo, é certo, à nossa família extraordinária, que aproveita todos os pretextos para se reunir, e foi nesse caldo de afetos e emoções muito à flor da pele, que nos mantivemos primas, hoje mulheres feitas. Nessa madureza, diluiu-se a diferença de idades e aproximámo-nos nos interesses partilhados. A leitura é um deles.

“Tenho dificuldade em concentrar-me numa história longa — a não ser que seja mesmo divertida ou que me capte por uma qualquer razão. Por isso, não leio muitos romances. A literatura que eu mais consumo são contos e poesia. Gosto muito desse conceito, de uma pessoa expressar poeticamente um sentimento, de forma tão potente e condensada. Sou muito intensa e identifico-me com essa forma de explicar ou de exteriorizar qualquer coisa. Mas, por desenhar e ser ilustradora, a literatura gráfica foi a que sempre me chamou mais a atenção. É como no cinema, onde as imagens podem narrar um sentimento, e essa é uma linguagem que eu entendo melhor, que me inspira muito mais.”

Asterios Polyp”, o livro favorito da Marta, é uma novela gráfica do autor norte-americano David Mazzucchelli. Conta a história de um homem de meia idade, arquitecto, professor universitário e mulherengo, que um dia vê o seu apartamento nova-iorquino consumido pelas chamas e, com esse pretexto, enceta uma espécie de fuga: apanha um autocarro, refugia-se numa pequena cidade no interior dos Estados Unidos e começa a trabalhar como mecânico de automóveis numa oficina. Entre o presente e o passado o leitor vai, ao longo da narrativa, desvendando quem é Asterios Polyp, como o moldaram as suas origens, a infância, o casamento conturbado, e descortina o que o move.

“Este livro foi-me oferecido quando eu ainda não namorava com o Pedro. Ele esteve em Lisboa, saímos uma noite e divertimo-nos imenso, rimos imenso. Não havia nenhum teor romântico nessa saída. Era mesmo um reencontro de amigos que não se viam há muito tempo. E depois ele foi para Barcelona, mas como ficou encantado com a noite que tínhamos passado no Bairro Alto disse-me: ‘Quero voltar a estar contigo, mas primeiro vou enviar-te um livro. Tu vais ler e quando terminares eu vou ter contigo’. E eu consumi o livro em seis horas, foi impossível parar. Como vês, é um livro extenso, com muitas páginas, mas para mim foi impossível parar. ‘Asterios Polyp‘ é uma história encantadora! A forma como está contada e as soluções gráficas encontradas são surpreendentes. Já tinha lido bastante literatura gráfica, mas o ‘Asterios Polyp‘ foi uma lufada de ar fresco e fez-me descobrir uma série de coisas que eu não sabia que eram possíveis na Banda Desenhada. E depois toda a história, toda a condição humana do Asterios, que fracassa e que na redenção consegue entender — pelo menos é essa a interpretação que faço — o sentido da sua vida, num percurso trágico, cómico e bastante cínico ao mesmo tempo. No final termina como termina e é encantador, porque é muito simples e para quem gosta de desenhos e de metáforas visuais para explicar sentimentos e situações, é um livro com muita qualidade. É quase impossível não ficar rendido.”

 

Ando, por estes dias, a ler “A Experiência de Ler”, um ensaio do escritor C. S. Lewis. No capítulo IV deste livro, o autor discorre sobre o que considera ser “O modo de ler do mau leitor” e aponta-lhe cinco características: 1. A não ser por obrigação, nunca lê nada que não seja narrativo; 2. Não tem ouvido. Lê exclusivamente com os olhos. Para ele, as mais hediondas cacofonias e os mais perfeitos exemplos de ritmo e melodia vocálica são perfeitamente iguais; 3. Tem uma total inconsciência do que seja estilo; 4. Aprecia narrativas em que o elemento verbal esteja reduzido ao mínimo: histórias em Banda Desenhada (…); 5. Exige narrativas de ritmo rápido. Tem de estar sempre alguma coisa a acontecer.

Vou apenas na página 65 desta obra e, acreditem, já foram muitas as vezes em que dei por mim a revirar os olhos e a pensar: “Calma, Sandra, o livro foi publicado há quase 60 anos, o autor nasceu ainda no século XIX, eram outros tempos…” Para além de conservadora, considero a análise de C. S. Lewis preconceituosa. Não tivesse ele morrido em 1963 e talvez tivesse mudado de ideias se pudesse explorar o trabalho de David Mazzucchelli e testemunhar o efeito que o mesmo tem sobre os leitores. A Marta, por exemplo, extraiu aprendizagens importantes de “Asterios Polyp”.

“Ao longo da minha vida, relacionei-me com pessoas como o Asetrios Polyp, que é um tanto ou quanto retorcido, e acho que fiquei a entender melhor o que é ser-se assim. Este livro explica-o muito bem e de forma muito nua, sem estratagemas complicados. Foi como se estivesse dentro daquela pessoa e isso foi bom porque adquiri ferramentas para entender melhor os outros, para me ajudar na empatia, tornei-me mais tolerante. Depois, para além do personagem principal, há outro personagem, alguém que foi um grande amor, uma pessoa sensível, artística, que funciona como um catalisador de bondade na vida de Asterios. Identifiquei-me com esse personagem. E aprendi que o ‘final feliz’ pode ser algo substancialmente diferente daquilo que eu achava ser um final feliz. O fim deste livro, se descontextualizado, pode parecer um horror. Mas dentro daquilo que acontece nesta história é bonito, porque é hiper-poético. Recomendaria ‘Asterios Polyp’ a qualquer leitor. É um livro que tem tanta qualidade, é tão bom! O tema principal é a condição humana, por isso acho que é um bom livro para toda a gente, mesmo para aquelas pessoas que decidiram que nunca vão gostar de novelas gráficas. Pode ser que sejam conquistadas pelo estilo”.

A capacidade de aprender com os livros e de procurar aplicar essas aprendizagens à sua vida para ser melhor pessoa, é uma das aptidões que, no meu humilde entender, ajudam a definir um bom leitor, independentemente do estilo literário que elege. Algo me diz que não vou encontrar esta ideia defendida em “A Experiência de Ler”.

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