Susana, com Pessoa na pele

Tantos anos de Acordo Fotográfico — quase sete! — e ainda ninguém fotografado a ler Fernando Pessoa. Até à noite em que desafiei a Susana, porque a sabia leitora ávida, a fazer uma pausa no seu trabalho, num bar da Praia da Rocha, e a posar com um livro que fosse importante para si. “Este é um dos livros da minha vida, porque Fernando Pessoa é o escritor da minha vida”, afirmou sem vacilar. E explica como se fez leitora.

Gosto imenso de ler e as primeiras memórias que tenho de mim própria são sempre a ler. Lembro-me que os meus pais faziam uma coisa fantástica, que eu acho que todos os pais deviam fazer com os filhos: todas as noites me contavam uma história. Não sei se foi por isso, o que é certo é que comecei a ler sozinha e quando fui para a escola primária já sabia ler e andava sempre com um livro atrás. Lembro-me dos primeiros livros que li: ‘Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões Contado às Crianças e Lembrados ao Povo’, a coleção d’ ‘Os Cinco’ que herdei do meu pai, que já a tinha herdado do seu padrinho. São daqueles livros muito antigos, muito amarelinhos que cheiram a papel velho… Só o facto de pegar num livro antigo e cheirá-lo transporta-te logo para outra realidade! E depois, muitas das coisas que li foi porque estavam ali ao pé. Em casa do meu avô li ‘Os Três Mosqueteiros’, ‘As Vinte Mil Léguas Submarinas’, o ‘As Aventuras de Robinson Crusoe’. Isso para mim era sinónimo de Verão e, ainda hoje, quando vou para a praia levo um livro. Tive sorte, porque cresci em casas com livros. Também tive muita sorte com o pai que tenho, porque nunca me proibiu de ler coisa nenhuma. A teoria dele era ‘se pegas num livro e estás a ler é porque o consegues compreender, se consegues compreender lê. E ainda me lembro, na escola primária, de haver uma carrinha, daquelas bibliotecas itinerantes, que ia lá uma vez por mês. Achava aquilo fantástico. Lembro-me de estar na fila para ir escolher o livro e pensar ‘quando for grande quero ter uma carrinha assim, isto é maravilhoso!’”

Uns anos mais tarde, foi uma professora de Português que, entre o 7.º e o 9.º ano de escolaridade, se revelou determinante no percurso da Susana. “Muito daquilo que eu leio hoje em dia deve-se à maravilhosa Professora Paula Miranda Alves. Teve a capacidade de ver que a miúda de óculos, magricela, gostava de ler e sugeriu-me três ou quatro livro que foram fundamentais. Anos mais tarde, já adulta, voltei a encontrá-la e continuámos a falar de livros”.

Foi esta professora que lhe deu a conhecer “O Mostrengo”, de Fernando Pessoa, um poema que teve um enorme impacto na pequena Susana, na altura aluna do 7.º ano e “rato de biblioteca”. Hoje, com formação na área da Psicologia e responsável por dezenas de crianças e adolescentes a quem dá apoio nos estudos, é a Susana quem lhes mostra “O Mostrengo” na expectativa de emocioná-los com a história de um homem pequeno que vai ao leme de uma nau, representa uma nação inteira e que, apesar do medo, segue em frente. “É genial, arrepia-me!”, diz. “Pode ser uma pequena gota de água num oceano imenso, pode ser um grãozinho só de areia, mas dos vinte a trinta alunos que eu oriento durante o ano letivo, se conseguir que um goste de ler, se eu conseguir que um pegue num livro — sem achar que é uma seca porque o professor obriga a ler ou porque vai fazer um teste sobre o assunto—, se apenas um decidir ler por ele e ganhar o gosto, eh pá… o ano está ganho”!

      

Apreciadora de romances históricos e de policiais “desde que tenham enredos pouco óbvios”, a Susana acredita que a principal função dos livros é terapêutica. “Com um livro consegues chorar coisas que tens cá dentro, é uma catarse. Foi o que me aconteceu com ‘O Livreiro de Paris, que li numa fase complicada da minha vida, porque tinha acabado de perder uma pessoa muito querida. Naquela altura, foi um livro que fez muito sentido”. E é nessa categoria, a dos livros que fazem sentido, que “arruma” o “Livro do Desassossego”, que anda quase sempre consigo, dentro da mochila.

Há pessoas que quando estão stressadas ou preocupadas pegam no carro e vão dar uma volta, vão ver o mar. Eu pego num livro. Este é o que me tem acompanhado de uma forma mais recorrente, porque é o livro que faz sentido agora. Se chego mais cedo ao trabalho ou tenho um tempo morto, em vez de pegar no telemóvel, pego no livro. Nunca li o “Livro do Desassossego” do princípio ao fim. Como é composto por pequenos textos que podem ser lidos de forma independente, a qualquer momento pego nele, abro e leio um pedacinho aqui, um pedacinho ali. É uma forma engraçada de me centrar e de me focar no que tenho para fazer a seguir, apesar do desassossego… Com este livro aprendi a relativizar, a pôr as coisas em perspetiva. É fantástico! Por mais confuso que seja o dia-a-dia, há sempre alguém que está numa situação pior. Certas partes deste livro parecem delírios, percebo o que é estar verdadeiramente amargurado, dividido e torturado, e vejo que, por mais atrapalhada que eu esteja num determinado momento, se calhar não estou numa situação assim tão complicada.

Para a Susana, Pessoa é genial porque criou pessoas completamente diferentes, com formas de pensar e agir totalmente distintas e no meio de tudo isso ainda existia ele, o Fernando. “Se eu tivesse oportunidade de voltar atrás no tempo e conhecer alguém seria o Fernando Pessoa. É extraordinário! Por isso é que ando com ele na mochila, por isso é que ando com ele na pele, por isso é que vou andar com Fernando Pessoa para sempre.

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