Já li — É Isto Que Eu Faço

PORQUE LI?

Porque me foi oferecido pela editora — a Marcador — quando o livro foi lançado em Portugal. Fui buscá-lo à pilha de livro por ler depois de um viajante português, o Gabriel Soeiro Mendes, ter escrito sobre ele e o ter elogiado no seu site gabrielsoeiromendes.com.

O QUE ACHEI?

Depois da imagem do presidente Bush se ter dissipado em chamas, não consegui mais localizar nenhum dos meus colegas. Tentei concentrar-me no trabalho fotográfico; contudo já não eram só algumas mãos que passavam pelo meu rabo, mas dezenas delas. E também já não era uma sensação subtil, mas apertões agressivos de umas mãozorras, homens a esfregar-se em mim, a apalpar-me à frente e atrás. Tentei prosseguir o trabalho. Qualquer mulher ocidental combativa desencadearia uma fúria terrível nesses homens. Continuei a segurar a câmara com uma das mãos e, com a outra, tentava afastá-los. Não resultou. Procurei inverter a situação, olhando-os de frente e gritando haram, o que significa proibido, pecado, vergonha, pra lhes fazer ver que compreendia que o seu comportamento era inaceitável no islão. Não resultou (…)” (Pág. 113)

Até ao momento, “É Isto Que Eu Faço – Uma vida de amor e guerra” foi o melhor livro que li este ano!

A história de vida de Lynsey Addario é absolutamente excecional, de tal forma que Steven Spielberg já está a trabalhar na adaptação destas suas memórias ao cinema. Se gostam de autobiografias, de histórias reais que têm como protagonistas mulheres destemidas, devem ler o livro de Lynsey, um ser humano fora de série, que passa parte da sua vida nalguns dos cenários mais perigosos e violentos deste planeta, a fazer aquilo que mais a apaixona: fotografar para nos informar.

Lynsey Addario, nasceu em 1973 no Connecticut, e é a mais nova de quatro irmãs fruto de um casamento exuberante: os pais eram proprietários de um salão de cabeleireiros de sucesso e a casa da família estava sempre cheia de gente excêntrica que desfrutava das festas constantes, da música, do álcool, da piscina. Tinha oito anos quando o pai assumiu a sua homossexualidade e saiu de casa para viver com o novo companheiro. Mas foi ele, numa das raras visitas de fim de semana, quem lhe ofereceu a sua primeira câmara fotográfica. Lynsey tinha apenas 13 anos quando começou a fotografar. Nunca mais parou.

Licenciou-se em Relações Internacionais nos Estados Unidos e seguiu depois para Itália onde continuou os estudos superiores, sem nunca largar a câmara. Viajou pela Europa, sempre a fotografar e foi nessa altura que surgiu o primeiro convite para vender algumas das suas fotos, com as quais compuseram uma coleção de postais. No regresso aos Estados Unidos, mudou-se para Nova Iorque onde trabalhou para juntar dinheiro e partir para a América do Sul. Viajou e fotografou em vários países, até que se estabeleceu em Buenos Aires, na Argentina. Aí, graças ao seu carácter determinado, conseguiu o seu primeiro trabalho como fotojornalista freelance.

Regressa a Nova Iorque em 1996 e oferece os seus serviços a vários órgãos de comunicação social e agências noticiosas. É a Associated Press quem mais lhe dá trabalho. Cobre, durante um ano, uma série de acontecimentos na cidade, mas o dinheiro continua a ser escasso. Para pagar as contas tem de trabalhar numa loja de roupa. Até que, num rasgo de arrojo, pede ao pai que lhe adiante uma espécie de dote, já que ele tinha oferecido a cada uma das três filhas mais velhas 15 mil dólares de prenda de casamento. Lynsey pega nesse dinheiro, compra material fotográfico profissional e parte para Cuba. A par da paixão pela fotografia, está já perdida de amores pela arte de viajar também. No início de 2000, aceita o convite de um amigo da família para visitar a Índia. Lynsey propõe à Associated Press fazer a cobertura fotojornalística do sul da Ásia. A agência aceita, Lynsey faz as malas e parte. Na altura não sabia que nunca mais voltaria a viver nos EUA.

Fotografa na Índia, no Paquistão, no Afeganistão, no Nepal, dando especial atenção aos direitos humanos e às questões das mulheres. Quando se dá o 11 de Setembro, acabara de se mudar para a Cidade do México, porém sente com urgência a necessidade de regressar ao Médio Oriente para testemunhar as consequências da guerra levada a cabo pelos norte-americanos naquela região do globo. A partir daí ­— no Paquistão, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, no Darfur, na República Democrática do Congo, na Somália — Lynsey Addario afirma-se como uma das maiores fotojornalistas do nosso tempo.

Destemida, avança e regista o que acontece nos palcos dos conflitos mais sangrentos, acompanha outros jornalistas de várias nacionalidades, militares americanos, funcionários de agências humanitárias. É raptada um par de vezes, viu a vida seriamente ameaçada outras tantas, vê morrer colegas de profissão, fica presa em emboscadas, parte em várias missões grávida do primeiro filho. E pelo meio desses relatos de vida vivida no limite, fala-nos, num registo sincero e despudorado, dos pais, das irmãs, dos avós, das histórias de amor que foi vivendo um pouco por todo o mundo, do seu casamento, das alegrias e das desilusões pessoais e profissionais.

É Isto Que Eu Faço – Uma vida de amor e guerra”, lê-se como um romance. E, contudo, neste livro nada é ficcionado; tudo é real. É caso para dizer: se Lynsey não existisse em carne e osso, dificilmente poderia ser inventada. Tornei-me sua fã. Se lerem a história que nos conta de coração aberto, acontecer-vos-á o mesmo. E pensar que tem apenas 44 anos, tanta vida pela frente ainda e tanto para nos oferecer!

Uma última nota, tão importante: o livro de Lynsey Addario ensina-nos, também, a dar mais valor a certas imagens que vemos nos media sem pensar no que implica consegui-las, nos riscos assumidos por alguns seres humanos para que o resto da humanidade possa estar informada. Não, essas imagens não se materializam do nada. Há gente que morre para as conseguir. Em 2017 morreram 81 jornalistas no exercício das suas profissões. Em 2018, vamos a caminho dos 40.

Passei duas semanas a percorrer as regiões do Kivu Norte e do Kivu Sul, entrevistando e fotografando mulheres vítimas de abusos sexuais, surpreendida pela forma como muitas concordavam em falar abertamente das suas experiências. Algumas contavam que tinham sido infectadas pelo VIH, ou abandonadas pelos maridos quando estes souberam da violação; outras contaram que haviam sido sequestradas e mantidas durante vários anos em cativeiro como escravas sexuais, forçadas a dar à luz os filhos dos violadores. Espantavam-me a maturidade e a força demonstrada por todas essas mulheres em amar os filhos apesar das circunstâncias da concepção (…) Muitas vezes chorei abertamente durante as entrevistas, incapaz de processar a violência e o ódio que presenciava ali contra as mulheres.” (Pág. 212)

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