Já li — Todos os Caminhos Estão Abertos

PORQUE LI?

Porque me foi oferecido pelo meu editor, Francisco Vale, quando nos encontrámos pela primeira vez para discutir os detalhes da a edição do meu livro, “Uma Volta ao Mundo com Leitores”.

O QUE ACHEI?

“Uma vez a caminho (…), não experimentamos nem despedida nem remorso, não nos preocupamos com o ponto de partida nem com o de destino. São, quando muito, os ponteiros de um relógio que nos permitem saber que várias horas passaram e que, portanto, continuamos a progredir para leste. Torna-se um pouco menos possível, dia após dia, darmos meia-volta e, de resto, também não o desejamos. Despojarmo-nos da roupa que trazemos vestida, reconhecer que avançámos até demasiado longe, que estamos sob estes céus estrangeiros como um mendigo, uma criança sem berço, um sacerdote sem igreja, um cantor sem voz — que procuramos a segurança e que tememos ter vivido em vão? Que queríamos reparar alguma coisa, recuperar tudo o que deixámos fugir?” (Pág. 21)

Que descoberta! Julgo que nunca tinha ouvido falar de Annemarie Schwarzenbach até ao dia em que me puseram “Todos os Caminhos estão Abertos” nas mãos. Fiquei fascinada com história desta mulher, que viveu perigosamente, e pela sua escrita, que me arrancou sempre do lugar onde eu estava — a cama, o sofá da sala, a carruagem do metro, o autocarro, o comboio, o avião — para me levar a sítios que já conheço ou plantar na minha cabeça projetos obstinados de viagem.

Annemarie Schwarzenbach nasceu na Suíça, em 1908, no seio de uma família rica e, para a época, com toques arrojados de excentricidade. Os pais nunca se opuseram, por exemplo, a que começasse desde cedo a vestir-se como um rapaz. Aliás, o seu ar andrógino é talvez o aspeto que primeiro fascina quando a observamos, já adulta, nos seus retratos e autorretratos a preto e branco. Esta liberdade não sanou, contudo, a relação disfuncional que manteve com a mãe, uma mulher dominadora, que esteve na base das perturbações psiquiátricas sofridas por Annemarie.

Estudou na Universidade de Zurique e na Sorbonne, em Paris. Obteve um doutoramento em História, interessou-se por arqueologia e começou a trabalhar como jornalista quando ainda era estudante. No início da década de 30, muda-se para Berlim, conhece Erika e Klaus Mann (filhos de Thomas Mann) e estabelece com eles uma amizade fortíssima, mas também conturbada: apaixona-se por Erika, que a rejeita, e chega a propor casamento a Klaus, que era homossexual. Nestes anos de boémia, até à subida dos Nazis ao poder em 1933, Annemarie consome drogas pela primeira vez e é também por esta altura que ocorre a sua primeira tentativa de suicídio, provocada pela tensão com os pais que simpatizavam politicamente com a extrema-direita.

Em 1932 começa a viajar, quase sempre de carro, com amigos e amigas. Itália, França, Espanha, Escandinávia, Pérsia, União Soviética e Balcãs são alguns dos destinos. Em 1935 casa por conveniência em Teerão, com um diplomata francês homossexual — para uma viajante insaciável, o passaporte diplomático era um salvo conduto precioso. Contudo, a solidão que experimenta enquanto vive na Pérsia leva-a a viciar-se em morfina. Na Suíça, à qual regressa temporariamente, escreve os seus primeiros livros e entre 1937 e 1938 documenta, através da fotografia, a ascensão do fascismo na Europa. Visita a Áustria e a Checoslováquia e parte, depois, para uma grande viagem de carro pelos EUA. Em 1939, num esforço para combater a toxicodependência, parte numa viagem de carro — um Ford Roadster Deluxe oferecido pelo pai — que a levará da Suíça ao Afeganistão, passando pelos Balcãs, Turquia e Irão. “Todos os Caminhos estão Abertos” é o relato hipnotisante desta viagem, no decurso da qual estala a Segunda Guerra Mundial.

Todos os Caminhos estão Abertos” é um livro muitíssimo maior que o seu pequeno formato físico (apenas 143 páginas): maior no estilo literário, maior na aventura que foi atravessar terrenos geograficamente hostis num carro (muitas vezes um camelo teria sido mais adequado!), maior no espírito arrojado das viajantes (Annemarie viajou com a amiga e fotógrafa Ella Maillart), maior no relato dos encontros com homens, mulheres e crianças de culturas tão distintas, maior na superação das dificuldades, na celebração das alegrias e nas constantes meditações sobre o exercício da viagem:

“A viagem não exige que tomemos decisões e não põe a nossa consciência diante de uma alternativa que nos torna culpados e arrependidos, humildes ou obstinados (…) não é necessário mais do que uma coragem sem falha, renovada dia após dia…”

“Mas a viagem, que poderá parecer aos olhos de muitos um sonho ligeiro, um jogo sedutor, uma maneira de escapar ao quotidiano, a liberdade por excelência, é na realidade implacável: é uma escola suscetível de nos acostumar ao curso inevitável das coisas, aos encontros e às separações, sem nos poupar a nada.”

Filosófico e lírico.

Depois desta viagem, Annemarie visita de novo nos EUA, em 1941, e em 1942 parte como jornalista para o Congo Belga. Nesse mesmo ano, visita Lisboa e Tétouan. Quando regressa à Suíça, cai de uma bicicleta. O acidente revela-se fatal: morre a 15 de Novembro de 1942. Irónico, não é? Depois de tantas aventuras por terras longínquas, é um traumatismo craniano à porta de casa que a derruba…

Todos os Caminhos estão Abertos” entrou imediatamente para a minha lista de “pequenos grandes livros”. É uma fonte de inspiração para quem gosta de viajar, um estímulo à imaginação de qualquer um e um consolo literário. Sei que em breve lerei outros títulos da autora traduzidos para português. Até lá, este fica no topo das minhas recomendações dentro do género Literatura de Viagem.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s