Martina, no Jardim das Tulherias

Bem sei que vos disse, há umas semanas, ter metido na cabeça que um dia fotografaria alguém a ler na livraria Shakespeare and Company. Era um objetivo, sem dúvida. Mas sempre que pensava em leitores em Paris foi esta a imagem que eu construí na minha cabeça, porque no fundo era a que eu mais desejava: no Jardim das Tulherias alguém lia junto ao lago octogonal, sentado numa das icónicas cadeiras verdes. De tanto a imaginar, consegui capturá-la. Só não coloquei a roda gigante nessa construção idealizada, porque não fazia parte das minhas memórias de infância. Depois de montada e desmontada diversas vezes na Praça da Concórdia desde os anos 90 do século passado, a atual roda data de 2015, mas tem os dias contados — a assembleia municipal de Paris decidiu recentemente não renovar o contrato de exploração daquele espaço público e a estrutura será desmontada ainda antes do próximo Verão.

Por muitas vezes que se vá a Paris, julgo que é impossível não se fazer qualquer coisa pela primeira vez a cada regresso. Porque já tinha ido aos principais museus e monumentos mais do que uma vez, tinha jurado a mim mesma que não faria mais visitas desse género e que me limitaria a deambular pelas ruas da cidade, a visitar livrarias e a estar com amigos. Porém, contra todas as minhas expetativas e em apenas quatro dias e meio na cidade, consegui estrear-me em três novos museus: o Museu Marmottan Monet (que alberga telas magníficas de Claude Monet e uma surpreendente exposição temporária com retratos de Corot), o Palácio de Tokyo e o Jeu de Paume, este último edifício construído em 1861 para a prática de um jogo com raquetes que antecedeu o ténis e que contém hoje um  museu dedicado à fotografia. Foi na livraria deste museu, no rés-do-chão, que marquei encontro com um amigo. Mas antes de lá chegar atravessei o Jardim das Tulherias à procura da fotografia que alimentou durante muito tempo parte dos sonhos que tenho para o Acordo Fotográfico.

Em 1564, Catarina de Médicis — uma nobre italiana que se fez rainha consorte da França através do seu casamento com o rei Henrique II —  interessa-se por um terreno no coração de Paris, a oeste do Palácio do Louvre, e decide aí construir um novo palácio e um jardim de inspiração florentina. Porque o novo projeto urbanístico foi ocupar uma área onde existiam antes fábricas de telhas (tuiles, em francês), tanto o palácio como o jardim foram batizados com o nome Tuileries (que adaptámos para o português como Tulherias. Telheiras, não faria mais sentido? Ocorreu-me agora…).

Assim como o Palácio das Tulherias foi sofrendo sucessivas alterações no decorrer dos reinados seguintes — a sua fachada chegou a ter 266 metros de comprimento e fechava por completo o gigantesco quarteirão composto pelo Palácio do Louvre —, também o jardim das Tulherias foi muitas vezes intervencionado. A traça que ainda hoje lhe conhecemos resulta do trabalho encomendado em 1664 por Luís XIV, o Rei Sol, a André Le Nôtre, o famoso jardineiro que criou os Jardins de Versalhes (hoje chamar-lhe-íamos arquiteto paisagista). Sob a alçada de Le Nôtre, o Jardim das Tulherias cresceu para Oeste, alicerçado numa perfeita simetria definida pela extensa alameda rasgada a partir do pavilhão central do Palácio das Tulherias. Também por ordem do Rei Sol, o jardim é aberto a todos os parisienses e adquire o estatuto de primeiro jardim público da capital francesa. Hoje, o Jardim das Tulherias, assim como todo o conjunto arquitetónico junto às margens do rio Sena, que se estende desde o Louvre até à Torre Eiffel, está inscrito na lista de Património Mundial da UNESCO.

      

Embora na altura o eixo central e o jardim desembocassem naquilo que viria a ser um dia a Praça da Concórdia (terminada em 1772 e onde se ergue o monumental Obelisco de Luxor, trazido do Egipto em 1833), a verdade é que o projeto de André Le Nôtre já previa, para lá do jardim, a construção de uma grande avenida em linha reta. São os alicerces dos futuros Campos Elísios, assim batizados em 1709 e que começaram a ganhar forma a partir de então. Um século mais tarde, em 1808, dentro do gigantesco pátio central formado pela junção do Palácio do Louvre (em U) e do Palácio das Tulherias (que fechava esse U), Napoleão Bonaparte manda erguer o Arco do Carrossel, que é construído no alinhamento do eixo central do Jardim das Tulherias (embora quem estivesse no jardim não o pudesse ver). Mais ou menos na mesma altura, começa a construir-se, no extremo Oeste dos Campos Elísios e perfeitamente alinhado com o Arco do Carrossel e o eixo central do Jardim das Tulherias, o Arco do Triunfo, igualmente encomendado por Napoleão Bonaparte e inaugurado em 1836. Desenha-se, desta forma, uma enorme linha reta com mais de três quilómetros de extensão, que o público pôde passar a percorrer a pé, de um arco ao outro e sem barreiras, a partir de 1883, quando o Palácio das Tulherias é demolido, no seguimento do incêndio que o destruiu. Essa enorme linha reta é designada por Eixo Histórico de Paris e serviu de inspiração ao traçado urbanístico de outras grandes capitais tais como Buenos Aires, na Argentina, e Washington DC, nos Estados Unidos da América. E pergunto-me se o Eixo Monumental de Brasília também não se terá inspirado na plano parisiense.

Se me demoro em tantos detalhes é porque a história fascinante deste plano urbanístico, concretizado ao longo de cinco séculos, ainda não acabou! Em 1989 o Eixo Histórico prolongou-se mais quatro quilómetros para Oeste, quando o Grande Arco da Fraternidade, mais conhecido por Grande Arco ou Arco da Défence, foi inaugurado no âmbito dos festejos do Bicentenário da Revolução Francesa. E os trabalhos para a expansão desta Via Triunfal, como também é conhecida, seguindo o trajeto do sol de nascente para poente, continuam em pleno século XXI alinhados, ao que parece, com um antigo sonho do Rei Sol, Luís XIV, de ligar o Palácio de Versalhes ao Castelo de Saint-Germain en Laye, ambas residências reais.

Se eu já sabia isto tudo? Não, não sabia. Descobri-o agora, ao pesquisar para escrever este texto. Mas deduzia que a linha reta que observei, entre o Palácio do Louvre e o Arco da Défense, sempre que subi ao topo do Arco do Triunfo ou à Torre Eiffel, não era fruto do acaso. Estava era longe de imaginar que o lugar onde fui conhecer a Marina estivesse na origem de um plano urbanístico ambiciosíssimo, que remonta ao século XVI e que está ainda em execução. Ali, nos primeiros metros do Eixo Histórico, no Jardim das Tulherias, fotografei a leitora italiana, que se juntou à leitora peruana e ao leitor inglês que a capital francesa me ofertou, fazendo jus ao seu cosmopolitismo. Tal como me aconteceu em Bruxelas, onde não fotografei um único belga, também em Paris não fotografei um único francês.

Chamo-me Martina, sou italiana e vim para Paris numa missão de voluntariado em nome de uma associação que se chama Concordia. Trabalhamos na área do voluntariado com jovens que querem partir para o estrangeiro para ajudar os outros. Há um mês que estou em Paris e ficarei até Outubro.

Martina lia “Journal d’un Corps, do escritor francês Daniel Pennac, o diário de um homem, o narrador, que entre os 13 e os 87 anos mantém um registo detalhado das transformações do seu corpo, sendo que a história de toda a sua vida é contada a partir dessa perspectiva, a do corpo.

Leio este livro porque adoro Pennac. Li a saga toda da Família Malaussène, que adorei. E este livro, tenho-o e li-o em italiano, mas quando cheguei a Paris percebi que seria interessante voltar a lê-lo, desta vez em francês para me ajudar a aprender o idioma. Normalmente leio muito, embora atualmente seja um pouco mais complicado porque trabalho muito e à noite estou mesmo cansada… Em casa, aqui em Paris, tenho muitos livros italianos, mas devo ler em francês porque devo aprender francês. Só que ler em francês é difícil e nem sempre compreendo o que está escrito. Acaba por ser mais um exercício, e não um momento de relaxamento. Por tudo isto, atualmente leio menos.

Exercícios à parte, Martina diz que ler lhe permite explorar outras facetas da sua vida. Ler ajuda-a a relaxar, a abstrair-se, a distanciar-se do mundo real e a fechar-se sobre si mesma — “Quando leio sou só eu com o meu livro”, afirma —, ao mesmo tempo que estimula a sua imaginação e se abre a outras dimensões, a novas realidades. É por exemplo, o que acontece quando lê a obra de um certo autor:

Não tenho um livro da minha vida, mas tenho o autor da minha vida. É um italiano que se chama Erri de Luca, também muito famoso aqui em França. Adoro a forma como olha para o mundo e como expressão essa visão. Adoro-o! A sua abordagem às questões políticas e sociais italianas influenciou-me e permitiu-me adquirir uma nova perspetiva sobre esses assuntos.

Ficou-me uma enorme vontade de descobrir a escrita de Erri de Luca e de voltar a Pennac através do seu “Journal d’un Corps”. Pena que a obra de ambos traduzida para português seja tão escassa… Quando saí do Jeu de Paume, depois do encontro e do almoço com o meu amigo, fui a pensar nisto enquanto subia o Jardim das Tulherias até ao Palácio do Louvre. A seguir, voltei para trás e caminhei até ao Arco do Triunfo. Daí, desci a Avenida Victor Hugo para me aproximar do 16º Bairro, onde estava alojada e fui-me distraindo com tudo em que pude pousar o olhar, uma réstia de pôr do sol, entre os prédios, incluída. Hoje sei que na próxima ida a Paris não haverá desvios neste trajecto: seguirei sempre em frente, para Oeste, pelo menos até ao Arco da Défense. E farei um “Especial Leitores no Eixo Histórico de Paris”. Na minha imaginação já vejo esse álbum de fotografias. E diz-me a experiência que isso é meio caminho andado para atingir o novo objetivo. À bientôt, Paris!

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