Já li – Demasiado Mar Para Tantas Dúvidas

PORQUE LI?

Porque o autor, Miguel Miranda, fez a gentileza de me convidar para apresentar este seu novo romance, na noite do lançamento em Vila Nova de Gaia.

O QUE ACHEI?

 “Todas as viagens são sem regresso. O regresso nunca o é. O ponto de partida deixou de ser o mesmo, deformado pelo tempo.” (In Demasiado Mar Para Tantas Dúvidas)

Embora nos meus tempos de livreira tivesse ajudado a vender muitos livros de Miguel Miranda, nunca tinha lido nada seu. E também nunca tinha apresentado um livro. Foi, portanto, com duplo nervosismo que encarei a sala cheia de amigos e admiradores do autor no passado dia 13 de Junho. Mas tinha delineado uma estratégia que, julgo, evitou que fizesse uma figura menos digna: à semelhança do que acontece com Jorge Luis Borges — que entra neste romance, onde caminha seguido por um turbilhão de páginas de livros em suspensão e por pequenos seres que delas escapam — também eu arrastei todos os personagens de “Demasiado Mar Para Tantas Dúvidas” até Gaia para me darem alento.

Tinha terminado de ler o livro havia mais de uma semana, e não permiti que nenhum deles se fosse embora depois de ter pousado definitivamente o romance. Na noite da apresentação, tal como agora, este foi o primeiro elogio que fiz a “Demasiado Mar Para Tantas Dúvidas”: os personagens e a história continuavam a reverberar em mim e, no que me diz respeito, isso só acontece quando o livro é bom.

A história de “Demasiado Mar Para Tantas Dúvidas” é narrada, com avanços e recuos no tempo, quando Martingo e Divone voam sobre o Atlântico, numa viagem que os leva de Caracas a Lisboa. Fogem de um país que se desmorona económica, social e moralmente, após terem perdido a única filha, adolescente, raptada e assassinada pelas FARC num esquema atroz — que envolve a polícia e criminosos venezuelanos — para lhes extorquir dinheiro em troca do cadáver. Martingo tinha deixado Portugal com o pai quando tinha cinco anos e Divone nunca cá tinha posto os pés. Depois do descalabro que deixam para trás, esperam poder começar uma vida nova em solo luso.

É em torno deste casal, também ele em escombros, que se compõe a exuberante galeria de personagens de que vos falava há pouco, muitos deles com um lado negro bastante acentuado, a maioria atormentada por segredos, vidas duplas e fraquezas de várias ordens. E não só de personagens de carne e osso é feito este livro triste — o último de uma trilogia sobre o caos, como explica Miguel Miranda, depois de “A Paixão de K.” e “Todas as Cores do Vento”. Também a natureza tem um papel de destaque: o mar, os relâmpagos e os trovões, os lobos, as pedras parideiras, as Trilobites, o volfrâmio, as montanhas que gemem e os Flamboyants, num ir e vir entre o tropicalismo da venezuelano e o misticismo português.

É amargo o sabor que “Demasiado Mar Para Tantas Dúvidas” nos deixa, quando chegamos ao fim, porque é um livro feito de desencontros, de coisas que não são ditas, das rédeas da vida que não são agarradas, dos valores de que por vezes se abdica, de sonhos estilhaçados. É por isso um excelente livro para nos pôr a refletir sobre tudo isso e, quem sabe, corrigir alguns padrões e evitar alguns erros nas nossas próprias vidas.

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