Ronja e a Bielorrússia

Aprender continuamente faz sentir-me viva. É uma das razões pelas quais preciso tanto de viajar e de ler. É, também, uma das razões que me leva a manter o Acordo Fotográfico.

Se eu quisesse, neste momento, fazer um rol de tudo o que tive de aprender para produzir os conteúdos que tenho partilhado desde 2011, não conseguiria. A lista é gigantesca e abarca quase todas as áreas do conhecimento, desde a Literatura a fenómenos geológicos. Tudo isto graças aos leitores que, a propósito de um livro, me falaram de algo que eu desconhecia e me vi impelida a investigar minimamente. Desta feita, a Ronja levou-me a querer saber mais sobre a Bielorrússia. O que descobri surpreendeu-me.

Comecemos pelo nome do país: Bielorrússia. Sabem o que significa, literalmente? Rússia Branca. Só no século XVI é que a porção de terra que forma o atual país passou a designar-se desta forma, mas as origens do nome remontam ao século XIV. Contudo, parece que não há consenso quanto à teoria que explica a sua etimologia: alguns argumentam que o nome indicava uma área da Europa Oriental coberta de neve, habitada por povos eslavos que vestiam de branco e tinham cabelos brancos, em oposição aos habitantes da região oeste — a Rússia Negra — controlada pelos lituanos; outros defendem que bel ou biel significaria “livre” apontando, assim, uma porção de território que, contrariamente à Rússia, não estava, à época, ocupada pelos tártaros.

Seja como for, o termo Bielorrússia foi utilizado para designar o país até 1991, quando este se autonomizou de uma URSS em implosão. A nova república independente, num gesto de afirmação nacionalista, decretou que passaria a chamar-se República de Belarus (em oposição ao termo Bielorrússia, de origem russa). As autoridades esforçaram-se para que o novo nome passasse a ser usado por todos os outros países, mas sem grande sucesso. Para grande parte da comunidade internacional, Bielorrússia continua a ser a designação usada até hoje.

Após mais de setenta anos sob o domínio soviético, o parlamento declarou a soberania da Bielorrússia em Julho de 1990 e a independência em Agosto de 1991. Em Março de 1994 foi adotada uma nova Constituição, que inaugurou um regime presidencialista (quando antes o chefe do poder executivo era o Primeiro-Ministro) e em Julho desse mesmo ano Alexander Lukashenko é eleito Presidente da República, à segunda volta, com 80% dos votos.

Engenheiro agrícola de formação, Lukashenko foi director de uma empresa agrícola estatal, integrou o exercito soviético e foi membro dos guardas fronteiriços soviéticos antes de se dedicar à política. Enquanto deputado foi o único a votar contra a independência da Bielorrússia face à URSS. Uma vez assumida a presidência da república, Lukashenko reinstaurou um sistema político e económico com características da era soviética, uma postura a que opositores e críticos chamam de Lukashismo: manteve sectores chave da indústria sob a alçada do Estado e o KGB Bielorrusso, a agência nacional de segurança do Estado, que é formalmente controlada por si; estimulou o culto da sua personalidade; adotou um estilo de governação autoritário e alterou por diversas vezes a constituição para permitir não só o prolongamento dos seus mandatos, como também a sua sucessiva reeleição. Aferrou-se ao poder há 23 anos e parece ter pouca vontade de deixá-lo. Tudo isto e muito mais valeu-lhe o epíteto de “último ditador da Europa” e um conjunto de sanções impostas pela União Europeia e pelos Estados Unidos, nomeadamente por causa das constantes violações dos Direitos Humanos.

Os mais recentes relatórios da Amnistia Internacional e da Human Rights Watch dão-nos uma ideia bastante clara do estado das coisas na Bielorrússia: é o único país da Europa com pena de morte; ativistas dos Direitos Humanos, jornalistas e opositores ao regime continuam a ser detidos e perseguidos judicialmente sob falsas acusações; medidas legislativas recentes restringiram ainda mais a liberdade de expressão; a censura dos media é uma prática comum e alguns têm vindo a ser encerrados compulsivamente; reuniões espontâneas dos cidadãos são regularmente dispersadas pelas autoridades com recurso à violência; a liberdade de associação está fortemente restringida: são arbitrariamente negados os registos de associações não-governamentais e não é autorizado o registo de novos partidos políticos desde 2000; irregularidades graves são sistematicamente reportadas pelos observadores internacionais a cada ato eleitoral; existem presos políticos e as autoridades nacionais continuam a recusar trabalhar com o observador das Nações Unidas para a Bielorrússia.

O livro que Ronja lia na manhã em que conversei com ela — “108 Days & Nights in a KGB Dungeon. Diary of Anatol Liabedzka” — faz um retrato desta Bielorrússia perturbante. “O autor deste livro foi orador numa palestra que aconteceu no meu trabalho. O meu chefe recebeu o livro de oferta, mas como ele não lê trouxe-o eu para casa. O livro é muito interessante e relata uma história real. É o diário de um opositor bielorrusso que esteve preso. Já li muita coisa sobre a URSS, mas esta é a primeira vez que aprendo algo especificamente sobre a Bielorrússia.”, explicou-me.

Ironicamente Anatol Liabedzka integrou a equipa que trabalhou na campanha eleitoral de Alexander Lukashenko em 1994, mas cedo abandonou as hostes do novo presidente quando este começou a violar a Constituição e a sabotar a Democracia. Aderiu ao Partido Cívico Unido de que é o actual líder. Desde então, Liabedzka tem sido sistematicamente perseguido pelas autoridades por causa das suas actividades políticas. Em 2004 foi detido e espancado por ter participado nos protestos contra a terceira eleição de Lukashenko e em 2010 o episódio repetiu-se. Depois de ter trabalhado na candidatura presidencial de Jaroslau Ramanchuk, voltou a sair à rua juntamente com milhares de bielorussos (consta que cerca de dez mil) para protestar contra o resultado eleitoral. Muitos dos candidatos da oposição, assim como os seus seus apoiantes e profissionais dos media foram detidos. Liabedzka viu-se confinado aos calabouços da Amerikanka — o edifício sede do KGB bielorrusso — durante 108 dias, período ao fim do qual foi libertado por falta de provas criminais. “108 Days & Nights in a KGB Dungeon. Diary of Anatol Liabedzka” é o relato dessa experiência terrível.

Ronja, a leitora que está na origem desta longa explicação, é alemã e trabalha em Bruxelas. Lê em alemão, holandês, inglês, francês, espanhol e italiano porque sempre teve muita facilidade em aprender idiomas. Devora romances e ensaios, mas é incapaz de escolher o livro da sua vida. Passou por mim a caminhar enquanto lia, porque estava com um problema de costas e o médico pedira-lhe que não passasse muito tempo sentada. Depois do Nuno, foi a minha segunda leitora-caminhante.

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