Já li – A Rainha de Sabá

PORQUE LI?

Saí de casa à pressa para ir apanhar o metro e depois o comboio. Destino final: a Escola de Viatodos, em Barcelos, onde participaria numa conversa — com alunos, professores e pais — sobre o Acordo Fotográfico, a Biblioterapia e outros aspectos do meu percurso pessoal e profissional.

Mal me sento na carruagem do metro, percebo que me esqueci em casa do livro que estava a ler — “Como Proust Pode Mudar a Sua Vida”, de Alain de Botton. Foi como se me faltasse um braço. Esperava-me cerca de uma hora e meia de viagem até chegar a Guimarães (1ª paragem do périplo) e não tinha com que me ocupar. Apreciar a paisagem pela janela do metro e depois do comboio não me chegaria.

Por isso, uma vez em Campanhã, entrei na livraria Mbooks e comprei por impulso “A Rainha de Sabá”, um pequeno relato de viagem escrito por André Malraux e sobre o qual nada sabia. Custou-me apenas 2,50 Euros e agradou-me que pudesse lê-lo na íntegra entre a ida a volta de Viatodos. Nessa noite, quando regressei a casa e me deitei, tinha mais um livro no papo.

O QUE ACHEI?

“Poucas pessoas, à parte as que se ocuparam de aviação, sabem que o avião é um enorme escaravelho cego, quando perde a terra de vista.” Pág. 69

André Malraux — nascido em Paris em 1901, novelista, ensaísta, Ministro da Informação, Ministro dos Assuntos Culturais e vencedor do Prémio Goncourt em 1933 com o livro “A Condição Humana” — parte em Fevereiro de 1934 à descoberta da capital do antigo Reino de Sabá, cuja famosíssima soberana, de seu nome Makeda, é mencionada no Antigo Testamento. O Reino de Sabá ter-se-ia localizado entre a actual Etiópia e o actual Iémen e o lugar exacto da sua capital era desconhecido à data da expedição de Malraux.

A viagem seria feita num Farman 190 — um pequeno avião fabricado em França nos anos 20 e 30 do século passado, que se deslocava à velocidade máxima de 185 quilómetros por hora — e André Malraux teria como piloto o capitão Corniglion-Molinier. A par de algumas referências ao Império Persa (que eu me preparava para revisitar quando li este livro) e ao mundo islâmico (que deixou marcas profundas na antiga Pérsia, actual Irão), foi o facto da expedição ter sido feita naquele frágil avião que mais me fascinou no relato de André Malraux.

Por coincidência, tinha visto há muito pouco tempo o filme sobre a vida de Amelia Earhart, a primeira mulher a voar sozinha sobre o oceano Atlântico, em 1932, e tragicamente desaparecida em 1937 quando tentava completar uma volta ao mundo de avião. As imagens do filme ajudaram a completar, na minha mente, as descrições feitas por André Malraux em “A Rainha de Sabá” e, juntando estes dois elementos, filme e livro, tomei consciência do quanto as viagens de avião da actualidade se tornaram inócuas e sensaboronas. Seguras, confortáveis e rápidas, é certo, mas chatas, sem ponta de aventura ou de mistério.

Tal como Amelia Eahart, Malraux e Corniglion-Molinier voaram a baixa altitude e a baixa velocidade, orientando-se apenas por “cartas contraditórias”, meras bússolas e pistas oferecidas pelo terreno, que podiam observar lá em baixo — montanhas, vales, planícies, rios, desertos. Era, de certa forma, um navegar à vista, como os marinheiros portugueses que no Séc. XV contornaram a costa africana sem nunca deixar de descortiná-la ao longe. Sem computadores, radares ou satélites. Com a agravante de que, por vezes, os pequenos aviões eram engolido por bancos de nuvens que os obrigavam a seguir caminho às cegas.

Há umas semanas, ao aterrar em Bruxelas, diverti-me durante largos minutos a observar pela janela do avião a forma como a luz do sol matinal se reflectia em milhares de pequenas superfícies lá em baixo. As faíscas que se acendiam e apagavam numa fracção de segundos pareciam compor um fogo de artifício ao contrário. Pensei precisamente nestas palavras, para o caso de querer um dia escrever sobre o que vi. É triste que ao voar a mais de dez mil metros de altitude, uma grande parte do potencial conteúdo das minhas viagens se perca. São inúmeras as paisagens e as emoções que ficam por observar e descrever. Será que ainda há gente a fazer longos voos “rasantes” como os de antigamente? Tenho de investigar, porque isso dá-me ideias.

Recomendo “A Rainha de Sabá” a quem gosta da História e dos seus mistérios, de relatos de viagem e de aventura, e se deleita com boas descrições de paisagens. E também a quem se queixa que tem pouco tempo para ler: o texto é curto, ritmado e consome-se num instante.

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