Era uma vez um chinês, um turco e um afegão

Li em vários livros e ouvi dizer várias vezes que cerca de 80% das nossas preocupações nunca se concretizarão. Sei por experiência própria que é verdade e sei que vocês também terão um sem número de histórias para contar acerca daqueles filmes que fizeram nas vossas cabeças e que depois nunca se materializaram.

Ainda assim, quando decidi, em Setembro de 2015, trabalhar por minha conta e viver das minhas poupanças enquanto as minhas novas actividades não me auferissem algum rendimento, meti na cabeça que nem tão cedo poderia voltar a viajar. Fiz todo um filme à volta desse assunto, antecipei essa tristeza, uma certa angústia por não poder sair de Portugal por tempo indeterminado. Mas era por uma boa causa, por um objectivo maior, e conformei-me com a necessidade desse sacrifício. Esta acabou por ser mais uma daquelas preocupações que não se concretizou.

Surgiu muito cedo, em 2016, a oportunidade de voltar a fazer uma grande viagem. Foi num Domingo de manhã que vi o anúncio no Facebook: a Magellan Route — uma start up que “tenta tornar o acto de viajar algo mais fácil, menos elitista, aberto a todos e sempre num ambiente familiar” ­— procurava novos freelancers para liderar viagens. Saltei da cama e, ainda meio a dormir, enviei o CV e uma apresentação breve sobre mim e o que motivava a minha candidatura. Nesse mesmo dia marcou-se a entrevista por Skype para a noite seguinte, uma Segunda-feira, e no fim da conversa ouvi as palavras mágicas: “Bem vinda à equipa”. Comecei imediatamente a preparar a viagem ao Irão. Foi portanto, em trabalho, que fui ao Irão pela primeira vez. E é em trabalho que me preparo para lá voltar, daqui a três semanas.

Depois de terminada a minha primeira viagem de quinze dias à antiga Pérsia, com o meu primeiro grupo de clientes, decidi ficar sozinha em Teerão mais uma semana. Queria descansar antes de voltar à correria habitual que me esperava no regresso a casa, queria ter tempo para ver e editar as fotografias que tinha feito, queria escrever um pouco. Mas acima de tudo queria saber como é estar-se sozinha na gigantesca capital de um dos países injustamente mais mal-amados do mundo.

Uma vez que o meu orçamento era apertado e os hotéis em Teerão são surpreendentemente caros — dada a pouca oferta face à procura actual —, reservei uma cama modesta na camarata feminina do 7Hostel, nas imediações da Universidade de Teerão e da Avenida Enghelab, bem no coração da capital. E friso que a camarata era feminina, porque na República Islâmica de sua Excelência o Ayatollah Ali Khamenei não há cá confusões: é homens para um lado e mulheres para o outro, de preferência em andares diferentes.

Na minha camarata, preparada para doze hóspedes, mas onde cabia sempre mais um colchão algures, chegámos a ser dezasseis. Foi assim que partilhei sete noites da minha vida, uma casa de banho, uma cozinha, um estendal, muitas conversas e algumas refeições com chinesas, francesas, holandesas, alemãs e pelo menos uma russa, a Yulia, que viajava com o namorado romeno, casal que tive o prazer de reencontrar, entretanto, no Porto. Ao pequeno-almoço e nas poucas ocasiões em que me sentava no pátio que fazia as vezes de área comum, contactava a outra metade da humanidade: os homens. Havia o dono do hostel e os seus dois empregados; o jovem australiano de vinte e sete anos, com noventa e três países já visitados; o António, italiano dos sete ofícios, a explorar possibilidades comerciais em Teerão; o espanhol Daniel e o malaio Abang, ambos engenheiros; o francês Eric, engenheiro informático que se tinha despedido dum trabalho chato para viajar; o Paulo e o Miguel, médicos portugueses com três semanas de férias para explorar o Irão.

É com ternura que recordo o monte de sapatos, ténis e chinelos que se formava à entrada que dava acesso às camaratas, porque lá dentro não é permitido usar o calçado com que andamos na rua. E também todos os sotaques que se pode imprimir à língua inglesa, assim como a algaraviada de todos os idiomas que ouvi sem entender patavina. Havia sempre alguém recém-chegado com quem se podia meter conversa, enquanto se bebericava o chá preto gratuito que estava à nossa disposição a qualquer hora do dia, e se partilhavam experiências vividas no Irão ou noutras paragens. Homens e mulheres, mais novos ou mais velhos, tinham todos mais países no currículo do que eu.

Nesta pequena Babel, um dos poucos hostels da cidade e quase um enclave de liberdade feminina na conservadora Teerão — uma vez que é permitido às mulheres não usar hijab — conheci Xu, um jovem chinês, também ele à descoberta do Irão pela primeira vez. Xu diz ser leitor assíduo e gostar muito de autores chineses, em particular de Sanmao, igualmente conhecida por Echo Chan, uma novelista nascida na província de Sichuan em 1943, que  se suicidou em Taiwan aos 47 anos.

Porém, é talvez o turco Orhan Pamuk, Prémio Nobel da Literatura, que conquista o título de autor favorito, já que Xu leu todos os seus livros. No dia em que o fotografei em Teerão, lia o seu mais recente romance — “Uma Estranheza em Mim” —, publicado em 2015. Disse-me Xu: “Orhan Pamuk abandonou o estudo da arquitectura para se tornar escritor. Acho a sua história pessoal muito inspiradora. Mas, para além disso, gosto da forma como escreve sobre a história da Turquia, onde já estive. Neste livro, por exemplo, fala dos aldeãos pobres que migram para Istambul e das péssimas condições em que vivem na grande cidade”.

Ainda que a maior parte das vezes os leitores que abordo não consigam apontar o livro da sua vida, arrisquei fazer a pergunta a Xu. A resposta, desta vez, veio rápida e com convicção: “O meu livro preferido é ‘O Menino de Cabul’, de Khaled Hosseini, porque tenho um irmão gémeo e o livro é sobre dois rapazes que crescem juntos no Afeganistão. O meu irmão não cresceu comigo, foi viver com uns avós de outra parte da família e dávamo-nos muito mal. Sempre que nos víamos, fazíamos muitas maldades um ao outro. Quando li o livro de Khaled Hosseini, percebi que estava preparado para sanar a relação com o meu irmão”.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s