Mahshad, no Mundo de Sofia

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O Império Persa, que viveu o seu apogeu entre 550 e 330 antes de Cristo, quando governado por reis como Ciro, Dário e Xerxes, chegou a ocupar oito milhões de quilómetros quadrados entre três continentes — Europa, África e Ásia — abarcando todo o território do actual Irão, Iraque, Síria, Líbano, Jordânia, Israel, Egipto, Turquia, Kuwait, Afeganistão e ainda parte da Líbia, do Paquistão e da Grécia. Foi um dos maiores impérios da História da humanidade e o Irão contemporâneo é um dos principais herdeiros da enorme riqueza cultural que daí adveio.

Se a isto acrescentarmos que parte do território iraniano integra o chamado Crescente Fértil — onde surgiu a agricultura, o Homem se sedentarizou e se desenvolveu a civilização tal como a conhecemos hoje — ou que, por exemplo, a cidade de Tabriz se localiza, de acordo com as coordenadas geográficas apontadas pela Bíblia, às portas do Paraíso, fica mais que justificada a sensação de que cada passo dado no Irão é um encontro com a História da nossa espécie. Estamos no lugar onde tudo começou.

A História é das ciências que mais me fascina, é principalmente por causa dela que viajo e, nesse contexto, o Irão constitui um dos lugares mais fascinantes onde alguma vez estive. Mas o seu potencial enquanto país de destino para viajantes extravasa o passado riquíssimo que descrevi. Apesar dos condicionalismos políticos e religiosos (que são consideráveis…), o Irão entrou a pés juntos no Século XXI e sabe tirar partido da sua geografia eclética para proporcionar a quem o visita actividades na montanha, no deserto, na costa do Mar Cáspio ou do Golfo Pérsico. Lá é possível passar dias a caminhar na natureza, fazer ski ou praticar múltiplos desportos náuticos, como o surf e o mergulho.

Porém, ainda não vos falei do melhor. Do elemento onde tudo isto culmina e sem o qual nada disto faria sentido — o povo iraniano. Se gostam de pessoas, vão perder-se de amor por estas gentes. Se não gostam de pessoas, eles vão fazer com que mudem de ideias. É impossível voltar do Irão sem uma mão cheia de novos amigos. Aliás, a mim aconteceu-me começar a fazer amigos iranianos aqui mesmo, no Porto, muito antes de aterrar em Teerão. E é impossível voltar a casa sem repensarmos o nosso conceito de hospitalidade. Os portugueses são simpáticos e sabem receber? Com certeza. Mas os iranianos rebentam a escala!

Só eles vos vão fazer voltar a cabeça para trás frequentemente enquanto andam pela rua, para agradecer os constantes “Bem vindos ao Irão” que vos serão lançados. Só eles vos vão interpelar apenas para saber o que acham do país, para vos colocar os filhos ao colo e tirar fotografias de grupo ou para fazer selfies. Só eles vos vão cercar com toda a família para apresentar um a um os membros do vasto clã, abrir-vos as portas das suas casas e oferecer-vos uma mesa farta com as melhores iguarias persas, como se vocês fossem família também. Só eles vão dar-vos boleia, e dar-vos de comer e beber na rua, e encher-vos os bolsos de pistachos frescos e as mãos dos doces que vos fizeram parar numa vitrine, e levar-vos a lugares fora dos roteiros turísticos só porque sim. “És o meu convidado” é a expressão simples com que justificam esta generosidade desarmante.

Quando parti para o Irão, um dos meus companheiros de viagem, homem do mundo, já levava alguns contactos feitos com familiares de amigos, e amigos de amigos que vivem em Teerão. Foram anfitriões incansáveis. Trouxeram mais amigos também. E a eles juntaram-se todos os conhecimentos que fui fazendo durante os quinze dias em que viajei em grupo e, mais tarde, os muitos iranianos que me “adoptaram” quando fiquei uma semana sozinha na capital. Agora que estou a dois meses de lá voltar, saber que vou reencontrá-los é uma das minhas maiores alegrias. O jovem Massain que vi pela última vez numa gloriosa manhã de céu limpo (isto é, sem smog…) será um deles.

Marcámos encontro no Fórum de Artistas Iranianos, um centro cultural com várias salas de exposições, localizado em Iranshahr, o bairro que alberga as antigas instalações da Embaixada dos Estados Unidos em Teerão, aquela que foi invadida pelo estudantes durante e Revolução Islâmica de 1979, como Ben Affleck mostrou no seu “Argo”. Foi a oportunidade de voltar a caminhar junto aos muros altos do complexo, hoje em dia cobertos com pinturas anti-americanas. Sair da estação de metro de Teleghani e deparar-me com um primeiro mural onde se lê “Abaixo os EUA” tem impacto (é curioso, há quatro meses, ainda na era Obama, este slogan pareceu-me tão anacrónico e agora que penso nele sinto que, infelizmente, a sua pertinência se reforça…), mas não voltei a fazer fotografias. Limitei-me a divertir-me com as poses dos outros, que chegavam em autocarros para fotografar ostensivamente o lugar que até há pouco tempo se recomendava aos turistas frequentar com discrição.

Cheguei ao Fórum antes da hora marcada, para descobrir que as portas do edifício abririam apenas depois do meio-dia. Decidi, por isso, vaguear pelo pequeno Parque Honarmandan, enquanto o meu amigo Massain não chegava. Observei as esculturas em bronze que decoram o recinto e acompanhei o percurso de uma mulher que distribuía metodicamente comida pelas dezenas de gatos que deambulam por ali. Nos bancos do parque, alguns homens dormitavam estendidos, outros liam o jornal, outros pareciam esperar por alguém. Mahshad era a única mulher só que desfrutava do ambiente tranquilo do lugar. Estava a ler.

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O inglês é o idioma a que todos os estrangeiros recorrem para comunicar seja com quem for no Irão. De uma forma geral, esta não é uma tarefa complicada. A grande maioria dos adolescentes e dos jovens adultos domina o vocabulário mínimo e há uma faixa surpreendente de adultos, aparentemente os nascidos antes da revolução, fluentes em inglês. Porém, não era o caso da bonita Mahshad, que entendeu perfeitamente o que eu queria, pareceu ter percebido que a sua fotografia se destinava a um site sobre leitores e livros, mas foi incapaz, quiçá mais por timidez, de me dizer o que lia e porquê. Reconheci a capa do livro que vi à venda na rua em grandes quantidades, mas foi-me impossível saber de que tratava. Ao despedir-me dela, a Mahshad sorriu e perguntou-me “Selfie?”. Fizemos várias fotos em poses diferentes.

Entretanto, chegou o meu amigo que trouxe outro amigo consigo. Visitámos duas excelentes exposições de fotografia, uma delas do francês Yann Arthus-Bertrand, e fomos almoçar no restaurante do Fórum, no terraço, onde todos optámos por comida italiana. Foi Massain que, olhando para a fotografia de Mahshad, me traduziu o título do livro: “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder.

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