Já li – Uma Agulha no Palheiro

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PORQUE LI?

Porque é considerado um dos romances mais importantes do Século XX, tendo adquirido o estatuto de clássico; porque estava na minha lista de leituras por fazer há muitos anos; porque já o tinha oferecido a amigos e familiares e era tempo de também eu conhecer a história, os seus personagens e chegar às minhas conclusões; e porque um dia me deparei com a antiga edição da Livros do Brasil à venda por 2.50€ na livraria da estação de metro da Trindade (Porto). A este preço, era impossível não comprá-la.

O QUE ACHEI?

Publicado pela primeira vez nos Estados Unidos da América em 1951, a acção de “Uma Agulha no Palheiro” (agora editado pela Quetzal com o título “À Espera no Centeio”) decorre durante três dias, em Dezembro de 1949, na cidade de Nova Iorque e tem como protagonista Holden Caulfield, um jovem de dezassete anos proveniente de uma família abastada.

Narrado inteiramente na primeira pessoa, com “Uma Agulha no Palheiro” entramos a fundo na cabeça e no coração em ebulição de um adolescente do pós-Segunda Guerra Mundial (muito semelhantes à cabeça e ao coração de um adolescente dos dias de hoje) que, como é normal acontecer nesta fase da vida, toma consciência de si e procura definir-se rejeitando os modelos que observa à sua volta e sobretudo as imposições que lhe são feitas e para as quais não encontra qualquer justificação. Vejo Holden como um prenúncio do que viria a ser a Beat Generation: rebelde, inconformado, libertário, sonhador, contemplativo, aspirante a boémio, fascinado pelo Oeste, apreciador da grande música e da boa literatura (neste aspecto os seus padrões são elevadíssimos!).

Não posso dizer que o livro me tenha arrebatado. Porém posso compreender, à luz do que era a sociedade norte-americana na época em que foi publicado, o abanão que a narrativa, as afirmações, as atitudes e a linguagem terão provocado. Nos três dias durante os quais deambula por Nova Iorque depois de ter sido expulso pela terceira vez de um colégio interno por falta de aproveitamento escolar, Holden põe tudo em causa: a obrigatoriedade da escola, a autoridade dos professores e dos pais (em suma, a autoridade dos mais velhos), as escolhas dos outros e os valores pelos quais orientam as suas vidas (como é o caso do pai, advogado e do irmão mais velho). De forma lúcida e acutilante, também critica tudo e todos: há inúmeras situações que o revoltam até à náusea e considera a maior parte dos adultos estúpidos, ranhosos, estupores e idiotas.

Mas o que mais cativa nesta espécie de anti-herói é que ele nunca se coloca à margem das críticas, e de forma muito cândida enfrenta igualmente os seus fantasmas e os seus defeitos, questiona em permanência o seu comportamento, admite muitas vezes arrepender-se de decisões tomadas, confessa que sente medo, que está nervoso e chora sem pudores. Se aliarmos a isto, a doçura com que se refere ao irmão mais novo tragicamente falecido e à irmã mais nova cuja inocência quer preservar a todo o custo, a paixão não assumida por uma amiga que lamenta não ter beijado e o embaraço perante a eminência de uma primeira experiência sexual, ficamos com o retrato inesquecível de um personagem que caminha sobre a linha finíssima que separa a meninice da vida adulta e que, nesse percurso, ora pende para um lado, ora pende para outro. Comovente, divertido, irresistível.

“Uma Agulha no Palheiro” ou “À Espera no Centeio” é, obviamente, um bom livro e o tempo empregue na sua leitura, um bom investimento.

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