Maria do Rosário, nas Fórneas

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A minha ronda com a Bibliomóvel — a biblioteca itinerante do município de Proença-a-Nova — estava a entrar na recta final. Ao deixar as Fórneas sabia que havia apenas mais um lugar (e respectivos leitores) no meu caminho: a aldeia das Pedras Brancas. O Nuno já conduzia a carrinha em sentido ascendente, para fora do vale, quando passámos pela Maria do Rosário que, de mãos na cabeça e fazendo grande alarido, constatava ter-se esquecido que era dia da biblioteca visitar as Fórneas. Tinha livros para entregar e queria requisitar outros. O Nuno tranquilizou-a, disse que podia esperar e manteve a biblioteca travada na ladeira enquanto a Maria do Rosário subiu, com evidente esforço, uma escadaria íngreme até sua casa. Poucos minutos depois, voltava com dois livros nas mãos. Optei por não descer da carrinha. Abri a janela do lugar do pendura, observei o Nuno a atender mais uma utente assídua e meti depois conversa com ela.

Apesar das dores fortes que tem nas mãos, a Maria do Rosário contou-me que isso não a impede de ler. A grande necessidade de livros — especialmente romances, que adora — aguçou-lhe o engenho e passou a pousar os volumes sobre almofadas quando se senta no sofá para ler, evitando assim o esforço de segurá-los. “Eu gosto muito, muito de ler. Leio tudo o que me aparece à frente e a minha filha vai pelo mesmo caminho”, assegurou-me.

Bala Santa”, de Luís Miguel Rocha, foi sem sombra de dúvida o livro que mais a marcou. Falou-me dele demoradamente com um misto de fascínio pelo que descobriu e aprendeu, mas também com esgares de repulsa. “Fiquei muito decepcionada com a Igreja… Até deixei de ir à missa como ia. E o autor teve de pesquisar muito! Se aquilo for verdade, a Igreja é uma grande corrupção”, lamentou.

O sol começava a descer e urgia voltar à estrada. Deixámos a Maria do Rosário com três romances — “Compaixão” e “O Décimo Círculo”, ambos de Jodi Picoult, e “Eva Luna”, de Isabel Allende — e seguimos para a aldeia das Pedras Brancas. Por lá surgiram dois utentes da Bibliomóvel, mas a conversa sobre livros e hábitos de leitura não se proporcionou. A visita da leitora foi fugaz e discreta; já com o leitor acabei por me sentar à mesa de uma adega caseira para, em resposta a um convite irrecusável, beber uma deliciosa jeropiga. O Nuno, bibliotecário-professor-amigo-confidente, fez-nos companhia, assim com mais um punhado de habitantes da pequeníssima aldeia. Brindámos, rimos, conversámos e lembro-me de pensar, enquanto fotografava detalhes do lugar, que nem planeando teríamos conseguido terminar de forma tão bonita um dia que já fora perfeito!

Parti de Proença-a-Nova na manhã seguinte, bem cedo, convicta de que voltarei para uma nova ronda por outras aldeias do município. E com uma tremenda vontade de acompanhar outra bibliotecas móveis, em Portugal ou além fronteiras. Ser bibliotecário é umas das profissões mais nobres que conheço. Quando a isso se junta a itinerância — um conceito que o Século XXI faz parecer anacrónico —, a nobreza da função ganha contornos de missão utópica. Uma utopia que centenas de bibliotecários como o Nuno, um pouco por todo o mundo, provam todos os dias ser possível concretizar.

 

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