Maria da Graça, nas Fórneas

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Para chegar às Fórneas, a Bibliomóvel serpenteou por estradas estreitas da serra do Açor, sempre em sentido descendente. A pequena aldeia, que conta com pouco mais de uma centena de habitantes, fica situada num vale profundo do concelho de Proença-a-Nova. O Nuno estacionou a biblioteca sobre rodas naquele que me pareceu ser o centro do lugar, um largo exíguo onde desemboca a estrada principal, depois de atravessada a pequeníssima ponte que se ergue sobre um ribeiro estreito. Desligado o motor, ficámos entregues durante longos minutos aos sons dos pássaros e da água que corria com vigor, fresca e cristalina, sob os nossos pés. Não se via vivalma e cheguei a pensar que deixaríamos as Fórneas sem que eu tivesse a oportunidade de conhecer mais um leitor ou uma leitora. Foi quando apareceu a Maria da Graça, pedindo desculpa pela demora.

A Maria da Graça e a sua filha Susana são utentes da Bibliomóvel desde que esta começou a funcionar, isto é, há dez anos. A Susana era na altura uma gaiata e agora já é estudante universitária. Contou-me a Maria da Graça que sempre gostou muito de ler, à semelhança do seu pai, aliás, que lia qualquer coisa, desce um pedaço de papel qualquer a um jornal. Por ter um pai leitor, a Maria da Graça sempre achou piada ao facto de que reclamasse quando a apanhava em miúda. Dizia, “Ai já pegaste no jornal? Já tens muito que ler hoje…”. E mais tarde ainda rematava com um “Ainda não te despachaste disso?”.

Porque o dinheiro não era muito, a Maria da Graça recorda que era comum ler livros emprestados por rapazes mais abastados, que os compravam em Castelo Branco. Também era habitual fazer leituras partilhadas, aos pares. E esse gosto pelas letras, tal como eu pude testemunhar, nunca se perdeu. Não só persistiu até hoje, passadas tantas décadas, como foi pelo menos herdado pela sua filha que continua, também, a usufruir dos serviços da Bibliomóvel sempre que está nas Fórneas.

Às vezes, de manhã, antes de ir para a horta pego num livro e o tempo passa a correr. É um vício!”, recrimina-se a Maria da Graça. “Mas agora até tenho a desculpa da mão para não trabalhar e posso ler mais”, explica mostrando a mão que magoou, protegida por uma luva preta e que um endireita habilidoso ajudou a enfaixar. “Não gosto muito de televisão. Do que gosto mesmo é de ler. Leio qualquer coisa, mas o que prefiro são os romances, os livros sobre a região e os livros de quadras”.

Seguiu, depois, pelo caminho por onde veio levando consigo sustento para algumas semanas: “Grande Mulher”, de Danielle Steel; “Mister Gregory”, de Sveva Casati Modignani e “Uma Outra Voz“, de Gabriela Ruivo Trindade. A próxima passagem da Bibliomóvel de Proença-a-Nova pelas Fórneas não será esquecida, porque os dias de visita estão marcados num calendário bem visível lá em casa.

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