Francisco, em Rabacinas

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O convite para acompanhar a Bibliomóvel de Proença-a-Nova nas suas deambulações pelas aldeias do concelho chegou há muito tempo, nos primórdios do Acordo Fotográfico, quando eu levava uma vida de horários por cumprir ao ritmo imposto, de segunda a sexta, por uma máquina de picar o ponto.

Só este ano, em meados de Fevereiro, tomei consciência que, sendo agora dona e senhora do meu tempo, podia finalmente pegar numa trouxa e partir ao encontro do Nuno Marçal, o licenciado em Sociologia que se tornou bibliotecário e abraçou há dez anos esta tarefa já pouco comum e, aos olhos do século XXI, algo anacrónica: levar uma biblioteca sobre rodas até aos leitores mais isolados.

Não é necessário passar um dia inteiro na estrada com o Nuno, como eu passei, para concluir que o que faz é muito mais que um trabalho: é uma missão que leva a cabo com uma paixão imensa e um carinho contagiante. Mais do que um técnico que recomenda leituras ou lê em voz alta nos lares de Proença-a-Nova, o Nuno é um amigo, um professor, um confidente e um conselheiro que conhece todos os seus utentes pelos nomes e partilha das alegrias e tristezas das suas vidas. O Nuno sabe que tem o enorme privilégio de desempenhar uma função imbuída de um profundo propósito. Toca a vida dos outros, faz a diferença e está grato por isso. Não é em vão que admite, emocionado, que a Bibliomóvel mudou a sua vida e fez dele melhor pessoa, mais aberto ao próximo e mais comunicativo.

Tinha chovido a semana inteira de norte a sul do país, porém deu-se a coincidência do céu estar quase limpo e o sol forte no dia que escolhemos para percorrer juntos as serras do concelho. As temperaturas mantiveram-se muito baixas, como é apanágio do mês de Fevereiro nas Beiras, o que pareceu acentuar a pureza do ar que nos enche os pulmões naquelas terras altas. Fui até à Biblioteca de Proença-a-Nova por volta das dez da manhã e depois de uma visita ao edifício sentei-me finalmente no lugar do pendura da carrinha que vejo, há mais de quatro anos, tantas e tantas vezes retratada no blogue que o Nuno mantém há uma década: http://opapalagui.blogspot.pt/. Uns minutos mais tarde, fotografava e conversava com o primeiro leitor de um dia memorável.

O Francisco é filho de Rabacinas. Foi lá que nasceu e fez a escola primária, tendo seguido mais tarde para Castelo Branco para estudar no mítico Liceu Nuno Álvares. Daí seguiu para Lisboa onde trabalhou cerca de 35 anos como escriturário na Papelaria Fernandes. Foi já reformado que regressou, por fim, à aldeia que o viu nascer. Deixar de trabalhar foi a ocasião para continuar a investir em si. Ávido por conhecimento, inscreveu-se nas Novas Oportunidades tendo conseguido terminar o 11º ano de escolaridade — ficou a meio do 12º ano, quando o programa foi extinto em 2013 — e foi nesse âmbito que se tornou acérrimo adepto das novas tecnologias. Aliás, os primeiros contactos com o Nuno aconteceram não tanto por causa dos livros que este transporta na sua biblioteca móvel, mas mais por causa do computador que o Francisco tinha comprado e com o qual não sabia bem trabalhar. Foi tão persistente nos seus pedidos de ajuda que o Nuno se transformou num professor. Hoje o Francisco domina as redes sociais, comunica também por e-mail e está a fazer cursos on-line para aprender inglês e espanhol. E à falta de Novas Oportunidades frequenta a Universidade Sénior de Castelo Branco.

Na manhã em que nos conhecemos, o Francisco aproveitou a visita da Bibliomóvel para devolver “1984”, de George Orwell. Tinha gostado tanto que requisitou outro título do mesmo autor, “A Quinta dos Animais” (antes editado em Portugal com o título “O Triunfo dos Porcos”) e o Nuno recomendou-lhe ainda “Resposta a Matilde”, de Fernando Namora. Mas antes de pegar num destes livros, tinha de acabar de ler “Equador”, de Miguel Sousa Tavares, o romance que tinha na altura em mãos.

Está visto que para o Francisco aprender é viver. No que diz respeito aos livros, por exemplo, explicou-me que gosta de ler porque aprende vocabulário novo — sempre que aparece uma palavra nova vai ao Google ver o que significa. Mas a leitura é, também, uma forma de evitar a solidão. “Enquanto estou a ler vivo o personagem, é como ver um filme”, disse-me.

O Nuno contou-me, entretanto, que o Francisco já vai no seu segundo livro de Fernando Namora. Na última visita da Bibliomóvel requisitou “O Trigo e o Joio”, um romance sobre as agruras da vida rural no Alentejo da década de quarenta do século passado. Pouco conheci o Francisco, é verdade. Mas algo me diz que a realidade retratada por Namora naquelas páginas o tocará particularmente.

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