Já li – A Alma Humana

Acordo Fotográfico Acordofotografico.com Sandra Barão Nobre

PORQUE LI?

Mais um livro que me foi oferecido há algum tempo — desta feita pela Colares Editora — e que esperava pacientemente por uma oportunidade. A ocasião surgiu quando me apeteceu fazer uma breve pausa na ficção. Porque li pouquíssima coisa de Oscar Wilde — apenas alguns contos e “O Retrato de Dorian Gray” — e porque o título “A Alma Humana” me pareceu muitíssimo sugestivo, fui buscá-lo à estante.

O QUE ACHEI?

Li num ápice este texto de 60 páginas que me instruiu e surpreendeu por manter-se, 125 anos depois, tão pertinente! Enquanto estive com os olhos pregados no livro, apanhei-me várias vezes com um meio sorriso provocado pela acutilância, o espírito agitador, mas também pela utopia descrita. O ensaio, redigido em 1891, debruça-se sobre a natureza humana no contexto do socialismo e divide-se, no meu entender, em duas partes: uma primeira onde Wilde argumenta que com a abolição da propriedade privada e o surgir de um Estado que garanta a satisfação das necessidades básicas do Homem, este terá a oportunidade de apurar o seu individualismo e dedicar-se ao que há de belo na vida; e uma segunda onde — partindo do princípio que o Estado socialista não será autoritário, isto é, que a par do individualismo haverá liberdade — explana sobre o papel dos artistas nessa sociedade.

Com a supressão da propriedade privada, deveríamos alcançar um individualismo sincero, nobre e vigoroso. Já ninguém desperdiçará a sua existência a acumular bens materiais e os seus símbolos. Viver-se-á e viver é o que de mais extraordinário existe no mundo (…) O Estado fará o que é útil. O indivíduo o que é belo”.

Pelo meio, Oscar Wilde tece considerações sobre a caridade e o altruísmo doentios que mantêm os pobres distraídos, impedindo-os de se rebelarem; a importância dos elementos agitadores numa sociedade para o constante questionar do status quo; o contributo do Cristianismo para o desenvolvimento do individualismo; a abolição da autoridade e dos castigos como caminho para acabar com o crime; a indignidade do trabalho manual e a libertação do Homem pelas máquinas, que serão os escravos do futuro. Percebem agora o meu meio sorriso durante a leitura?

Adorei “A Alma Humana”, um ensaio repleto de aparentes paradoxos, que só um homem culto e inteligente como Oscar Wilde consegue harmonizar e fazer convergir em prol de uma sociedade que concebe ideal. Se algum de vós se considera um agitador — “indivíduos sem escrúpulos que provocam as pessoas inteiramente contentes com a sua sorte, espalhando à sua volta as sementes do descontentamento” — este livro dar-vos-á prazer.

Enquanto isso, no Père-Lachaise, Oscar Wilde anda às voltas no túmulo.

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