Já li – Para lá da Terra do Fogo

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PORQUE LI?

Continuo a procurar nas minhas estantes os livros que não terminei ou que nunca cheguei a ler. É o caso deste romance, do escritor argentino Eduardo Belgrano Rawson, que tenho em casa desde 2009 ou 2010. Foi-me oferecido pela Quetzal e só agora peguei nele. Uma pessoa disse-me, em tempos, que os livros que tinha por ler chamavam por ela da estante e que quando se aproximava lhes sentia as lombadas quentes. Achei bonito. Não foi bem o que aconteceu comigo e com “Para lá da Terra do Fogo”, mas que o livro me veio parar às mãos em boa hora, veio.

O QUE ACHEI?

Em Fevereiro de 2007 fui à Terra do Fogo. Em Fevereiro de 2016, com o romance de Eduardo Belgrano Rawson, voltei à Terra do Fogo. Nesse extremo sul da América do Sul a terra faz-se rendilhada, fragmenta-se em arquipélago, dezenas de ilhas pequenas separadas por canais navegáveis. Foi em Ushuaia que aprendi que os primeiros europeus que lá chegaram chamaram “do Fogo” àquela terra por causa das inúmeras fogueiras que os nativos mantinham acesas para se aquecerem. Lembro-me das fotos que vi desses indígenas, captadas no início do século passado, onde apareciam homens, mulheres e crianças praticamente nus. Consta que apesar das temperaturas muito baixas durante todo o ano, pouco ou nada se vestiam.

Há nove anos vivi o meu primeiro verão austral: o céu azul, o sol forte, o vento constante e as temperaturas baixíssimas. Tão baixas que me obrigaram a agasalhar-me como nunca me obrigara um Inverno Português. Passados nove anos, neste regresso à Patagónia pela mão de Rawson, descobri as agruras do Inverno naquele fim do mundo a que chamam também a terra das chuvas e das neves quase permanentes. Quis o acaso que lesse “Para lá da Terra do Fogo” em dias de alerta vermelho em Portugal. A chuva que ouvi bater com força nas janelas do apartamento durante vários dias, transportou-me para uma paisagem que conheci mais límpida, mas que pude imaginar envolta em brumas, coberta de neve ou ensopada por uma morrinha sem fim. E juro que senti nos ossos a humidade a que os indígenas quase nus se tornaram indiferentes, habituados a passar grande parte do seu tempo a navegar nos canais ou a habitar tendas montadas junto ao mar ou perto de pântanos.

Mas, o que é curioso, é que “Para lá da Terra do Fogo” também me levou de regresso à África de “Quando Tudo se Desmorona”: a decadência das missões no seu esforço derradeiro de cristianização, as meninas indígenas ridiculamente vestidas com roupas usadas enviadas pelas caridosas ladies britânicas, a alfabetização por intermédio da Bíblia, a ocupação e exploração das terras pelos colonos europeus, as mulheres fueguinas transformadas em criadas e os homens em guardadores de rebanhos, as doenças para as quais nenhuns tinham defesas, o saque, a perseguição, a injustiça, as violações, os castigos e a morte — tudo me remeteu para o que aconteceu também na Nigéria, quando o choque de civilizações ditou que nada voltasse a ser como dantes. Com uma diferença, porém: não me lembro do romance de Chinua Achebe me ter deixado na boca um sabor tão amargo como “Para lá da Terra do Fogo”. A desolação apoderou-se de mim e parece-me que o frio que se faz sentir hoje ainda emana do livro de Rawson, que está pousado ao meu lado.

Dizem na capa que este é “o melhor romance argentino das últimas décadas”. Não conheço a literatura argentina recente o suficiente para poder confirmar ou desmentir. Mas posso recomendar a leitura do romance de Eduardo Belgrano Rawson a todos os que quiserem ficar com uma noção do que foram os últimos dias dos habitantes do fim do mundo, a todos os que procuram observar seja o que fôr de ângulos distintos e aos que gostam do exercício nem sempre confortável de se colocar na pele dos outros.

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One thought on “Já li – Para lá da Terra do Fogo

  1. Estive na Terra do Fogo em janeiro e a tua descrição confirma a beleza daquele lugar inóspito. Agora que regressei ando com ganas de ler algo mais de lá. Talvez arrisque este livro, que desconhecia. 😘

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