Zanzibar — Adra, em Stone Town

 
Zanzibar. Experimentem proferir a palavra baixinho, como se a segredassem ao ouvido de alguém. Zanzibar. Sintam a língua roçar o céu da boca ao sibilar as duas primeiras sílabas. Notem como os lábios se unem e voltam a abrir e a língua rola quando a palavra termina. É como o início de um beijo lento. Zanzibar. Ouvi-la transporta-nos para um lugar sensual e langoroso, onde alternam a luz quente do sol e a sombra fresca das casas. Pronunciá-la é ansiarmos pela ilha muito antes de lá chegarmos, é entregarmo-nos de corpo e alma ao seu chamamento, é abraçar todo o seu exotismo, é encarnar toda a sua volúpia. Zanzibar é ideia fixa.
 
Parti da Índia, fiz escala no Qatar e passei algumas horas no Quénia. Viajei quase vinte e quatro horas para aterrar em Zanzibar City, a capital, numa noite de apagão. A cidade estava mergulhada na total obscuridade havia quase uma hora. As janelas das casas eram negrume e as ruas, deserto. Penso pela milésima vez no aviso feito nos vários livros que li ao preparar a longa jornada: mulheres que viajam sós devem evitar chegar a qualquer lugar à noite. O  táxi abranda e entra numa rua estreitíssima de terra batida e lixo no chão. Cheguei a duvidar que pudesse abrir a porta do carro sem tocar num dos muitos portões fechados à esquerda e à direita. O taxista garante que de dia a rua é uma importante artéria comercial, cheia de gente e de vida, mas pergunta por que razão fico naquele hotel. Esforço-me por responder soltando o aperto que trago na garganta: as críticas na net são boas, é barato e tem wi fi gratuito. Desço e entro com a mochila numa receção humilde iluminada por uma lanterna. Dois jovens negros e de sorriso branquíssimo estão atrás do balcão. Faço o check in e subo ao terceiro andar. Curiosamente, há luz no meu quarto. Abro a cama, fecho o mosquiteiro e adormeço em África. Zanzibar vigia com paciência o meu sono, na certeza que no dia seguinte me terá, arrebatada, a seus pés. 
 
Ainda a saborear o café do pequeno-almoço, assomo-me a uma das janelas do último piso do hotel. Vejo uma sucessão de edifícios brancos, minaretes e algumas torres de igreja que se espraiam até ao porto. Desse ponto em diante, estende-se o Índico turquesa que lá muito à frente toca o céu azul. Um risco alvo nesse horizonte anuncia outra ilha. É cedo, o sol já vai alto, a luz forte espalha-se e tudo brilha. Antes de sair para a rua peço aos rapazes da recepção para assinalarem o hotel no mapa da cidade. Pergunto por lugares que não posso deixar de visitar e certifico-me que não é perigoso andar na rua até tarde. “Hakuna matata!”, respondem. Sem problema. Não faz mal. Tudo bem. As minhas primeiras palavras em suaíli. 

Transponho a porta do hotel e estanco perante o espetáculo: a rua inóspita da véspera desapareceu; à minha frente uma explosão de cores, sons, cheiros e gentes na azáfama de um novo dia em que parece haver muito para fazer. Dos portões antes fechados, jorram agora milhares de produtos: roupa, calçado, artigos de higiene e mercearia, especiarias, utensílios de cozinha, electrodomésticos, artesanato e tantas, tantas outras coisas; ouve-se música, grelha-se peixe, coze-se um pão achatado e fino; passam motas com carregamentos que desafiam a lei da gravidade e homens que puxam carrinhos de mão atulhados e gritam para que os outros se afastem do seu caminho; há mulheres de mãos tatuadas, que carregam os filhos às costas e se vestem como o arco-íris, numa combinação alucinada de cores e padrões; gritam-se pregões em estéreo; os vendedores cumprimentam-me, convidam-me a aproximar-me, querem que eu seja a primeira cliente do dia, para dar sorte. “Jambo!”, exclamam, estendendo-me a mão. De tanto ouvir este cumprimento a que não sei retorquir, pergunto a um deles o que significa e o que devo dizer de volta. “Si jambo!”, explica. Aprendo que estar em Zanzibar é passar o tempo de mão estendida, a cumprimentar homens, mulheres e crianças enquanto se repete a cantoria: Jambo! (Como está?) Sí jambo! (Bem, obrigada!). Caminho, embalada por este refrão e mergulho no labirinto de Stone Town, o bairro antigo de Zanzibar City.

A riquíssima história e herança cultural de Stone Town — a que não é alheia a presença portuguesa entre os séculos XVI e XVII por causa do cravinho, o ouro de Zanzibar — resultam da primorosa fusão de elementos árabes, persas, indianos e europeus. Este caráter único justificou a sua elevação a Património Mundial da Humanidade em 2000. Por isso, embora nunca de forma obstinada, procurei visitar aqueles pontos considerados obrigatórios numa primeira ida à cidade. “Pole Pole“, o equivalente suaíli ao nosso “devagar, devagarinho”, fui ao exuberante mercado Darajani, ao antigo mercado de escravos, à Catedral Anglicana, à Catedral de S. José, à fortaleza — o edifício mais antigo da cidade, construído no século XVII para repelir os ataques dos portugueses, entretanto escorraçados —, ao palácio do Sultão e ao lugar onde nasceu e viveu Freddy Mercury. Um outro palácio, chamado House of Wonders, estava fechado para restauro e não me foi permitida a entrada nas mesquitas. Consta que existem 51 em Stone Town, mas estávamos na véspera do Ramadão. Dei-me ao luxo, ainda, de pagar umas boas dezenas de dólares por uma visita a uma quinta de especiarias (um desafio para os sentidos que recomendo) e por uma manhã passada na paradisíaca Prison Island, a tal ilha que se via das janelas do hotel e onde pude aproximar-me, pela primeira vez na vida, de tartarugas gigantes e centenárias. 

Os dias restantes foram passados sem nada planeado. Esquecer o mapa e deixarmo-nos perder em Stone Town é algo que qualquer guia vos recomendará. Não o fazer é viver aquela cidade mágica pela metade. Demorei-me nas ruelas estreitas, onde admirei e percorri com os dedos os rendilhados das tradicionais portas de madeira maciça. Explorei as lojinhas, a maioria pensadas para os turistas, mas onde algum do artesanato vendido é de inquestionável qualidade, sobretudo os desenhos que retratam pormenores da cidade. Entrei várias vezes numa joalharia que vendia Tanzanite, a pedra preciosa de que nunca tinha ouvido falar. Deliciei-me ao almoço com caril de lagosta a um preço irrisório, nas horas mais quentes tomei café com especiarias à sombra de uma esplanada e assisti, na Catedral de S. José, a um casamento para o qual não fui convidada. Da cerimónia, toda celebrada em suaíli, só entendi as palavras “família” e “sacramento”, ditas assim mesmo, no nosso português. E terminei sempre os passeios no Jardim Forodhani onde, numa esplanada sobre o mar, comi chamuças, bebi cerveja Kilimanjaro e me diverti com a multidão de rapazes que, depois da última oração do dia, se reúnem nas muralhas para dar saltos acrobáticos para a água. Foi dessa esplanada, ao som da música de Youssou N’Dour, que assisti ao incêndio que o sol despoleta quando mergulha no Índico. Os tons de vermelho que se espalham pelo céu parecem impossíveis e realçam ainda mais o perfil dos dhows, os elegantes barcos de vela triangular que àquela hora regressam a terra.

Nestas deambulações, percorri várias vezes a Rua Gizenga, antigamente chamada Rua dos Portugueses. Ao passar pela janela de uma das lojas vi uma mulher de costas, que lia o que me pareceu ser o Alcorão. Tirei-lhe uma fotografia e depois distraí-me a olhar para o resto de uns azulejos que cobriam parte da fachada do edifício antigo. Eram-me tão familiares… Foi então que a ouvi dizer, em inglês: “São azulejos portugueses“. Voltei o rosto para a pessoa encostada à ombreira da porta. Era a mulher que lia. Era a Adra. Via-lhe agora o rosto e o sorriso com que me falava de algo português sem saber a minha origem. Expliquei-lhe de onde vinha e por entre a festa que fizemos e o aperto de mãos que demorámos a desfazer, fomos entrando na loja onde em tempos funcionou o consulado português de Stone Town. E fiquei, ignorando o tempo que passava, para conversar com a Adra, contar-lhe da minha vida e saber da sua. Adra, muçulmana sexagenária, falou-me sobretudo do amor que tem pela ilha e do quanto foi difícil a vida no período que se seguiu à revolução de 1964. Nesse ano, no seguimento de um processo eleitoral polémico, a maioria africana expulsou o sultão de Zanzibar do governo de minoria árabe. O conflito armado, breve mas violentíssimo, teve também graves consequências para a comunidade indiana. Estima-se que em poucas horas tenham morrido cerca de 20 mil pessoas. “Na época, o meu pai decidiu ficar em Zanzibar porque esta era a sua terra e aqui estavam enterrados os seus mortos. E apesar de todas as dificuldades, dou graças ao facto de termos ficado. É aqui que sou feliz e daqui nunca saí, embora tenha família espalhada por todo o mundo“, disse. 

Contei-lhe do Acordo Fotográfico, é claro. Falámos sobre livros e sobre a importância que a escola tem no fomento do hábito de ler. E pedi-lhe uma fotografia. Recusou-a com toda a gentileza e não tive outra hipótese que não resignar-me. Deixou-me, porém, fotografar o seu livro sagrado. Estávamos no Ramadão. Um dia, hei-de de regressar. Insha’Allah!


Mais fotos de Zanzibar aqui.
Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s