Zanzibar — O cônsul alemão

 
Era uma vez uma princesa chamada Sayyida Salme, que nasceu em Zanzibar em 1844. Foi a mais nova dos 36 filhos do Sultão e aprendeu a escrever em segredo por essa ser uma habilidade proibida às meninas do seu tempo. Após a morte dos pais a princesa, já tornada mulher, muda-se para Stone Town. É aí que se apaixona pelo vizinho Rudolph, um comerciante alemão de quem fica grávida aos 22 anos. Um escândalo. Decididos a viver esta paixão até às suas últimas consequências, o casal foge numa fragata para Aden, uma colónia britânica no Médio Oriente. É aí que Salme se converte ao Cristianismo antes do casamento com Rudolph. Infelizmente, o bebé de ambos viria a morrer em França, quando iam a caminho da Alemanha. Mas, uma vez instalados em Hamburgo, Salme e Rudolph têm mais três filhos: um menino e duas meninas. Viveram felizes até que a morte súbita de Rudolph deixa Salme em dificuldades financeiras, uma vez que as autoridades alemãs não lhe permitem o aceso à herança do marido. Para fazer face às despesas Salme — que entretanto adotara o nome Emily Ruete — escreve “Memórias de Uma Princesa Árabe de Zanzibar”, considerada a primeira autobiografia de uma mulher árabe. O livro viria a ser publicado na Alemanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Salme voltou a Zanzibar duas vezes antes de falecer na Alemanha em 1924, aos 79 anos.
 
Foi esta a história que me veio de imediato à cabeça na manhã em que conheci Saada na loja da Adra, numa das vezes em que voltei à Rua Gizenga para visitá-la. À semelhança de Salme, também Saada se apaixonou por um alemão. Mas desta vez o romance começou na Alemanha e migrou, depois, para Zanzibar. Mulher confiante, comunicativa e desinibida, convidou-me a ir a sua casa conhecer Erich, assim que soube do Acordo Fotográfico e dos motivos que me levavam a viajar. Explicou-me que o marido, na sua qualidade de cônsul alemão, sabia imenso sobre a história de Zanzibar, tendo mesmo escrito um pequeno livro sobre a ilha. E então lá fui eu, atrás dela, pelas ruas estreitas de Stone Town, umas vezes escuras, outras luminosas, observando como Saada caminhava com um saco de compras numa mão enquanto a outra, livre, ajeitava constantemente o lenço que lhe escondia o cabelo. “Não costumo cobrir a cabeça“, disse, “mas como estamos no Ramadão uso o lenço por respeito“. 
 
A casa onde Saada e Erich moram fica na Kenyatta Road, uma das principais vias de Stone Town. O edifício, antigo, tem à porta uma grande árvore e no primeiro andar um varandim debruado a madeira rendilhada. A entrada faz-se por uma porta ampla de madeira que dá acesso direto à sala de estar desafogada. No interior, pouca luz. As janelas e portadas estão fechadas para afastar o calor do meio-dia. Saada chama pelo marido, diz-lhe qualquer coisa que não entendo e desaparece numa outra divisão da casa. Não a verei mais. E então surge Erich, visivelmente surpreendido com a minha visita, farta e alvoraçada cabeleira branca e meio sorriso. Pareceu-me tímido, mas uma vez sentados nas velhas poltronas a conversa fluiu. Falei-lhe do meu percurso até ali, das minhas primeiras impressões sobre Zanzibar e quis saber, depois, como tinha ele ido ali parar. “Sou arquiteto e a minha ligação ao continente africano vem de há muito”, contou-me. “Estava a trabalhar no Gana quando me convidaram a ir para o Quénia, onde leccionei e fui diretor do Departamento de Arquitetura da Universidade de Nairobi. Daí parti numa missão das Nações Unidas para Dar es Salaam, na Tanzânia, onde fui também trabalhar na Escola de Arquitetura. Estávamos nos anos 80. E depois, já no fim da minha carreira, surgiu a oportunidade de vir para Zanzibar de novo pela ONU, para participar no projeto de reconstrução de Stone Town. Os edifícios históricos estavam a colapsar. Aqui, os edifícios a colapsar são uma tradição! Muitos perderam-se irremediavelmente… Quando, por fim me reformei, já cá vivia com a minha mulher, e foi então que o Embaixador alemão na Tanzânia me nomeou Cônsul de Zanzibar. Hoje em dia, uma das minhas principais tarefas é zelar pela manutenção do cemitério alemão que aqui existe. Sabe, é que os cemitérios são os nossos melhores livros de história.
 
Fotografei-o com o seu livro “Where to, Fair Beauty? A Zanzibar Guide” no colo. É uma edição de autor artesanal, feita de folhas fotocopiadas e coladas à mão. Antes de me vir embora, comprei-lhe um exemplar. Custou-me 25 mil Xelins. De oferta recebi um outro livro, muito pequeno, onde Erich compilou poemas da sua autoria sobre Zanzibar. Chama-se “Smell of Salt“. 
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