Camboja — Deim em Angkor

 
Sabia (e ainda sei) muito pouco sobre o Reino do Camboja. E o pouco que sabia prendia-se quase exclusivamente com duas coisas: os Templos de Angkor, Património Mundial da Humanidade que sonhava conhecer um dia; e o regime sanguinário dos Khmer Vermelhos, liderados por Pol Pot, assunto que nos anos 70 e 80 do século passado foi muito mediatizado a ocidente. Até a indústria do cinema deu o seu contributo na denúncia do Genocídio Cambojano quando estreou, em 1984, o filme “Terra Sangrenta” (The Killing Fields”). Vi-o quando era adolescente e marcou-me. Agora que sei um pouco mais sobre este país e que chego a envergonhar-me da imagem redutora que trouxe na cabeça durante tantos anos, recordo as palavras sábias de Chimamanda Ngozi Adichie, a autora nigeriana que numa TedTalk se debruçou sobre o “perigo da história única” a que somos todos tão vulneráveis muito por influência dos media. Diz ela: “Esta é a forma como se cria uma história única. Descrevam um povo como uma coisa, como apenas uma coisa, uma e outra vez, e é nisso que ele se torna (…) A história única cria estereótipos e o problema dos estereótipos não é que sejam falsos, mas que sejam incompletos. Fazem com que uma história seja a única história“. Daí o português manso, o espanhol aguerrido, o francês racista, o alemão nazi, o angolano corrupto, o brasileiro trafulha, o chinês porco, o muçulmano terrorista… Tenho dito a quem me pergunta sobre os supostos perigos da viagem que fiz, que o mundo não é o que se vê nos noticiários das 20h. O que esses noticiários mostram é uma parcela ínfima do que é a vida no nosso planeta, feito na sua maioria de gente que, com mais ou menos dificuldade, leva um dia a dia rotineiro, “normal”, em muitos aspetos semelhante ao meu. Como também disse Chimamanda, “a consequência da história única é que (…) enfatiza o quanto somos diferentes, mais do que o quanto somos similares“. Por tudo isto, se me pedissem um dia para apontar apenas uma virtude ao ato de viajar, julgo que diria que é a possibilidade de nos libertarmos das muitas histórias únicas que reduzem o nosso planeta caleidoscópico a uma lista de preconceitos. Ainda antes de aterrar em Siem Reap, e com grande surpresa, a minha “história única” acerca dos Khmer desmoronou-se e a palavra ganhou toda uma nova dimensão, altamente positiva, que me permitiu ver o Camboja sob uma nova luz. Não, Khmer não são apenas os seguidores do Partido Comunista que governaram o país entre 1975 e 1979 e que são responsáveis pela morte de quase três milhões de compatriotas. Khmer é o nome dado à língua que se fala no Camboja, mas é, principalmente, o nome do maior grupo étnico cambodjano, aquele que entre os séculos IX e XVI estabeleceu o riquíssimo e muito sofisticado Império Khmer, que teve como principal capital a bela Angkor, a maior cidade pré-industrial do mundo. Aí, numa área de cerca de três mil quilómetros quadrados, ergueram-se mais de cem monumentos angkorianos e estabeleceu-se o coração político, cultural e religioso de uma das maiores civilizações do sudoeste asiático. Tive a felicidade de poder passar três dias a visitar alguns dos monumentos mais icónicos deste lugar extravagante. E fi-lo de bicicleta, apesar das temperaturas que chegaram a sensações térmicas na ordem dos 40 e muitos graus centígrados. A experiência superou todas as expectativas que eu poderia ter alimentado. Sim, o nascer do sol por detrás do templo principal, Angkor Wat, é de uma beleza esmagadora. Assim como é o por do sol precisamente no mesmo lugar. Mas o que dizer da liberdade que foi percorrer a selva luxuriante a pedal, por caminhos nem sempre alcatroados, e ver surgir no meio da vegetação o sorriso plácido de um gigantesco rosto de Buda esculpido na torre de um templo ou na abertura de uma muralha? E como descrever a emoção de entrar nesses templos, percorrer os corredores e as salas eximiamente decoradas com baixo-relevos de um requinte inesperado, subir ao topo dos edifícios e sentir-me pequeníssima perante a escala brutal daquela obra, a força do sol, a inclemência das temperaturas, o azul do céu, as grossas nuvens brancas imóveis, o verde da floresta e os sons que ela emana? “Que lindo! Que lindo!” era quase a única coisa que eu conseguia articular dia após dia, um monumento após o outro. Eu sei que sou dada a estes exageros e que muitos dos que já lá estiveram poderão não ter sentido o mesmo, mas visitar Angkor da maneira que o fiz — totalmente autónoma, ao meu ritmo, de acordo com o plano que eu mesma estabeleci, muitas vezes por trilhos desertos — não foi só um momento alto desta viagem; foi um dos momentos mais ricos da minha vida. E depois, aquilo que eu achava quase improvável: um cambojano a ler junto aos muros de Benteay Kdei, um templo budista construído em meados do século XII. “Sou funcionário do Parque Arqueológico de Angkor“, disse-me, “e gosto de ler sobre a história do meu país, sobre os reis do Camboja e sobre estes templos em particular. Este livro é sobre a construção de dois dos monumentos mais importantes do Camboja: Angkor Wat e Bayon“. E com isto, a estocada final numa outra história única: aquela em que se afirma que nos países pobres não se lê porque outras necessidades mais básicas se impõem. 
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