Phnom Penh — Anne Sofie e George R. R. Martin

Cheguei a Phnom Penh depois de uma nova viagem de autocarro que demorou praticamente todo o dia. Foram pouco mais de 300 quilómetros percorridos a partir de Siem Reap, numa estrada em construção. Prevê-se que daqui a algum tempo essa estrada venha a parecer-se com qualquer outra via secundária portuguesa, mas por enquanto não passa de um caminho de terra vermelha que se entranhou em todas as frinchas do autocarro, em particular na bagageira. Ao descermos na capital, foram inglórios os esforços dos funcionários para sacudir com palmadas a camada fina de pó que pousou sobre as bagagens. O trajeto foi feito quase sempre aos solavancos e em marcha muito lenta para contornar buracos, valas, maquinaria e trabalhadores. Valeu-me o belo dia de sol, a típica paisagem do sudeste asiático onde dominam os reflexos dos arrozais alagados e as palmeiras que nos parecem sempre incrivelmente verdes, o lugar onde parámos para o almoço e onde me diverti a fotografar a vendedora de insetos (esse petisco que não ousei provar…), e os programas humorísticos e telediscos cambojanos exibidos na televisão a bordo, que me fizeram rir pela algaraviada e pela produção rudimentar. A entrada em Phnom Penh é tão pouco impactante que tenho sobre esse momento memórias difusas. É bem provável que isso se deva, também, ao cansaço. Recordo apenas as longas avenidas ladeadas por prédios sem portas e sem janelas, negros de sujidade ou humidade e que pareciam prestes a desmoronar-se. Só mesmo quando nos aproximamos do centro, abrindo alas por entre os milhares de motas e tuk tuks, é que a capital começa lentamente a revelar o seu charme. E digo lentamente porque Phnom Penh é, talvez, a capital mais decadente onde estive naquela região do globo, pelo que é preciso fazer-se um esforço para, por entre o caos e o lixo, se descobrirem encantos. A verdade é que à medida que os dias foram passando, Phnom Penh entranhou-se-me e descobri o prazer de pura e simplesmente flanar pelos seus boulevards herdados dos tempo dos franceses e da Indochina, entrar e sair das pequenas lojas requintadas que vendem os algodões e as sedas mais finas e onde ainda é possível ser-se atendido num francês correctíssimo, visitar ateliês de pintores e fotógrafos, erguer o olhar apreciar os edifícios coloniais que apesar da decrepitude mantêm uma aura nobre. Só o espectáculo do que acontece nos passeios de Phnom Penh é por si só um entretenimento. Naquela cidade, os passeios servem para tudo, menos para a circulação dos peões. Nesses troços de via pública tudo pode acontecer: estacionam-se centenas de motas, estendem-se redes onde os condutores de tuk tuk e de riquexó dormem nos momentos de ócio, montam-se barbearias ou restaurantes em poucos minutos, expõe-se todo o stock de uma loja, reparam-se veículos em oficinas improvisadas ou acumula-se ferro velho. Enfim, em Phnom Penh os peões habituam-se depressa a partilhar a estrada com quem anda sobre rodas. Embora a ida ao Palácio Real, ao Museu Nacional e ao Wat Phnom — o templo mais popular da cidade — sejam recomendáveis, até porque consomem muito pouco tempo, a visita mais marcante que qualquer viajante fará em Phnom Penh será sem dúvida ao Museu do Genocídio Toul Sleng, uma antiga escola que se viu transformada em prisão e centro de tortura nos anos em que vigorou no Camboja o regime de terror de Pol Pot. E depois, há a ida ao campo de morte Choeung Ek, a 15 quilómetros de Phnom Penh, uma experiência aterradora, mas que eu não quis evitar (embora a tivesse adiado o mais que pude). Só aqui foram exumados em 1980, de 86 valas comuns, os corpos de quase 9 mil vítimas dos Khmer Vermelhos. Outras 43 valas foram deixadas por abrir. Homens, mulheres e crianças foram barbaramente assassinados neste local. Ainda hoje, quando a água da chuva alaga o campo, vêm ao de cima restos de roupas, pedaços de ossos e dentes que vão sendo recolhidos e guardados em caixas de acrílico espalhadas pelo recinto. O Killing Filed de Choeung Ek é apenas um dos 300 que existem em todo o Cambodja e a sua visita, juntamente com a ida ao Museu do Genocídio Toul Sleng, foi o momento mais triste de toda a minha viagem. Na manhã em que tinha de comprar a viagem para o Vietname, que faria mais uma vez autocarro, tive de voltar à zona mais trendy de Phnom Penh, conhecida por Sisowath Quay. Nessa longa avenida que bordeja o rio Tonle Sap, e nos quarteirões adjacentes, concentram-se grande parte das infraestruturas e serviços concebidos sobretudo para os turistas, nomeadamente hotéis, restaurantes, bares e todo o tipo de comércio. Há, até, uma pequena livraria. Numa das muitas esplanadas que existem ali, conheci a Anne Sofie, dinamarquesa e viajante a solo. “Sou estudante de medicina“, contou-me, “mas precisei de fazer uma pausa e decidi tirar um ano para mim. Estou a viajar há três meses sozinha e nunca me senti insegura, até porque houve muitas ocasiões em que me integrei em grupos. Comecei por apanhar o Trans Mongolia Express e fui de Moscovo até Pequim. Daí parti para o Nepal, onde trabalhei como voluntária. Terminei a estadia em Kathmandu passando dez dias num mosteiro budista e foi de lá que vim para o Camboja. Ainda vou visitar o Laos e o Vietname e dentro de um mês devo estar a regressar à Dinamarca“. O livro, esse, não me reservava grandes surpresas. A Anne Sophie é mais uma leitora irremediavelmente seduzida pelas Crónicas de Gelo e Fogo. Lia o segundo volume de “A Clash of Kings“. “Já ouvi falar da série de televisão, mas nunca a vi. Os meus amigos também já me tinham falado dos livros e como os vi à venda muito baratos em Pokhara decidi comprar o primeiro volume. Fiquei viciada e comprei o segundo em Kathmandu. Quando voltar à Dinamarca tenho a certeza que vou ver a série!“. E quantos aos seus hábitos de leitura? O assunto ficou arrumado com a resposta que me deu: “Em três meses de viagem já li 17 livros“.

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