Liu no Laos, a caminho do Camboja

 

Durante a viagem, não houve uma única cidade, um único país que não me custasse deixar para trás. De cada vez, foi inevitável questionar-me: voltarei um dia? Na manhã em que parti de tuk tuk do centro de Vientiane para o aeroporto internacional, levava um peso no peito. Voava dali a poucas horas para o Camboja, um novo lugar cheio de promessas excitantes, mas lamentava que os dez dias vividos no Laos tivessem passado tão depressa. Não houve, de facto, uma única cidade, um único país que não me custasse deixar para trás. Porém o Laos faz parte daquele punhado de lugares de onde mais me doeu partir. Enquanto o tuk tuk acelerava pelas ruas e se aproximava o momento da despedida, apenas um outro aspeto conseguia ensombrar mais o meu dia — o voo propriamente dito. O bilhete, comprado online, indicava com diligência que a segunda parte da viagem, entre Pakse (ainda no Laos) e Siem Reap (perto de Angkor, no Camboja) seria feita num ATR 72-600 e a pergunta “Mas que raio é um ATR 72-600?!” não parava de me martelar a cabeça. Uma pessoa sabe o que é um Airbus ou um Boeing. Sabe até o que é um Embraer ou um Cessna. Mas um ATR 72-600 não sabe o que é. Nem a pesquisa no Google e a descoberta de que o avião é fabricado em França e em Itália me tranquilizou. Deixei que os preconceitos viessem ao de cima e com o discernimento toldado só pensava numa coisa: estava prestes a embarcar numa lata minúscula, movida a hélices e operada pela companhia aérea de um dos países mais pobres e recônditos onde alguma vez tinha posto os pés. E isso não podia ser bom, claro está. No primeiro aeroporto consegui distrair-me com os pormenores surreais do lugar, que mais parecia um rudimentar terminal de autocarros. No segundo areoporto, a distração veio na forma de um leitor chinês a quem pedi uma fotografia, mas com quem não pude conversar muito. Valeu-nos a sua amiga Shen Li, que serviu de tradutora. Com a sua ajuda, pude saber o mínimo dos mínimos: Liu ia visitar os esplêndidos Templos de Angkor pela primeira vez e lia uma biografia de Buda na esperança de aprender mais sobre a sua sabedoria. Quando, por fim, me sentei no lugar que me coube no ATR 72-600, ia mais contente. Não só tinha fotografado um leitor, como vi com agrado que tinha por companheiros de viagem três monges budistas. Sim, eu também sou daquelas que embora adore voar e passe a vida a advogar em defesa do meio de transporte mais seguro do mundo, acha que a presença de qualquer sacerdote num avião é um sinal de proteção sempre bem vindo. Admito. Um dos monges era velhíssimo. Muito pequeno, magérrimo e curvado para a frente num permanente ângulo reto, chegou de cadeira de rodas até às escadas do avião, mas fez questão de subi-las, muito lentamente, sem qualquer ajuda. Quando entrou, por fim, na aeronave, a hospedeira recebeu-o ajoelhando-se com reverência. Este homem que devia ser santo sentou-se quase ao meu lado, no outro lado da coxia, junto a um outro monge muito mais jovem que parecia ser seu assistente. Adotaram a posição de lótus e pareceram entrar em transe. Nada os demoveu, durante todo o voo, daquele estado zen. Já o terceiro monge, também jovem, veio sentar-se no lugar à minha frente e era, todo ele, um desassossego. Primeiro reparei nos rios de suor que lhe escorriam do crânio rapado e que o lenço mil vezes esfregado não conseguia conter. Depois temi pela segurança de todos quando, ao levantarmos voo, o senhor se alvoroçou em espasmos repentinos que o levavam a gesticular os braços e a abanar a cabeça em todos os sentidos. Pensei que estivesse a ter um ataque de pânico, mas perante a persistência daqueles movimentos sobre os quais não tinha controlo, percebi que devia padecer de algum tipo de síndrome cujos sintomas se acentuavam sob stress. O contraste não podia ser maior: os outros dois companheiros seguiam viagem na maior paz, enquanto ele parecia dançar breakdance sem sair do lugar. Só alguns dias depois entendi que a agitação deste monge era justificada: a ficha da Lao Airlines na Aviation Safety Network conta com mais de 50 acidentes e o último, onde morreram todos os ocupantes do avião, ocorrera com um ATR 72-600 havia menos de seis meses, no preciso trajeto que acabáramos de percorrer.

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