Elisa, em Yazd

Creio que, de todas as cidades que visito no Irão a cada viagem, Yazd é a única que não se esforça por agradar a ninguém.

Teerão, a capital iraniana, é um gigante que ameaça engolir-nos a cada dia, mas que, galhofeiro, nos pisca um olho com a irreverência dos jovens que testam os limites do Ayatollah e da Basij. Como esquecer o cheiro a haxixe tantas vezes detetado nas ruas, os cabelos sem véus das raparigas que voam nas motas a altas horas da noite ou os caniches passeados pela trela em plena luz do dia? Kashan, mais a sul, é uma caixinha de surpresas. Simples por fora, feita de modestos exteriores de adobe, guarda as joias mais insuspeitas. São as suas casas tradicionais, mandadas construir por mercadores ricos, cada qual a maior, a mais extravagante, a mais cara. Isfahan, é a cidade de braços abertos, uns braços amplos, acolhedores, que formam a mais bela praça que conheço, a Naqsh-e Jahan. Toda ela é convite para que cheguemos, nos sentemos nos seus relvados e nos apaixonemos por ela sem remédio. E Shiraz, a cidade jardim, emana até hoje a doçura das vinhas que já não existem, mas que se imortalizaram nos versos dos seus poetas, aqueles que esperam pacientemente nos seus túmulos pelo fluxo constante de peregrinos nacionais ou estrangeiros.

Mas Yazd, não. Yazd não se esforça por agradar a ninguém. Yazd é o que é e a mais não se sente obrigada. Quem gosta, gosta; quem não gosta tem mais para onde ir. Erguida no meio do deserto há quase cinco mil anos, a cidade exala a robustez, o pragmatismo — e a dureza, até — que esperamos de quem viveu as alegrias com moderação e aguentou as agruras sem queixume. Yazd é a terra e o pó do deserto, o vento captado pelos badgirs, o labirinto de ruelas feitas para nos perdermos, a chama eterna dos zoroastristas, o anel de vastas montanhas que oferecem água para alimentar jardins impossíveis, a frescura dos poços de água subterrâneos, o pôr do sol mais dourado que os meus olhos alguma vez beberam, os terraços onde se namora com discrição, o azul das cúpulas e minaretes, o chamamento para a última oração e o silêncio das torres onde outrora se deixavam os mortos a decompor por ação dos elementos da natureza e dos abutres. Sinto que Yazd assume, mais do que as outras cidades que conheço (e apesar dos 10% de zoroastristas que compõem a população) a ortodoxia da República Islâmica. Voltar a ela é sempre um desafio para quem não é arisca ou conservadora. E, contudo, as horas passam e o meu coração, sem saber por que artes, amolece e entrega-se.

Quem também andava com as emoções ao rubro por aqueles dias era a Elisa, uma alemã que viveu nos últimos tempos perto de Munique mas que, quando a conheci no final de Abril, andava na estrada havia sete meses. Tinha iniciado a sua longa viagem no Porto e chegara ao Irão havia oito semanas, sempre por terra. Estava na véspera de seguir para o Golfo Pérsico onde apanharia um barco para o Dubai. Daí partiria para a Índia e esperava regressar a casa, na Alemanha, em Agosto ou Setembro. Naquele final de tarde, sentada no terraço do Yazd Art House que também eu procurei para beber um chá de açafrão e ver o sol desaparecer a poente, Elisa lia.

Para além das obras sobre Psicologia, que gosta de ler por achar que aprende bastante com elas, Elisa aprecia romances e livros de memórias, sobretudo se sobre pessoas de outras culturas. “Acabei de ler há pouco tempo um livro de Paulo Coelho com um relato das suas viagens ao Oriente e o caminho espiritual que percorreu. Identifiquei-me muito com as questões filosóficas levantadas por ele no texto. Mas os romances também nos ensinam coisas, porque ao mergulharmos noutros mundos vivemos outras experiências e outras emoções”, explicou.

Contudo, não é um livro para adultos que ocupa um cantinho especial nas suas recordações de leituras passadas, mas sim um clássico da literatura infantojuvenil: “Momo”, escrito pelo seu concidadão Michael Ende. Segundo Elisa, “a história é sobre uma menina pobre, que vive na companhia de uma tartaruga, numa cidade sem nome invadida um dia por pessoas cinzentas. A menina tem um coração enorme e por saber o que é a vida vai salvar a cidade da dominação dessas pessoas sem alegria”.

E naquele final de tarde de Abril, que livro captava a atenção de Elisa? Não demorei a saber: “Persian Pictures: From the Mountains to the Sea”, de Gertrude Bell. “Acabei de começar este livro escrito por uma mulher que viajou no Irão em 1891. É sobre as suas impressões acerca do país. O livro foi-me oferecido ontem à noite, como presente de despedida. Portanto, é um livro que veio ter comigo. Está escrito de forma muito poética, muito metafórica. Mas não estou a conseguir concentrar-me muito na leitura, porque a pessoa que mo ofereceu e que se foi embora tornou-se muito importante para mim…”

Sandar Barão Nobre - Acordo Fotográfico - Irão 2019 - Yazd - Terraço Art House - Leitora - 8

Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e eu não quis fazer mais perguntas. Apenas desejar-lhe do fundo do meu coração, que quis tanto consolar o seu, que um dia pudessem voltar a encontrar-se.

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