Nathalie, Aggie e os Kennedy

Na livraria Shakespeare and Company, em Paris, a decoração está principalmente a cargo dos milhares de livros, novos e velhos, que ocupam cada centímetro das paredes, das mesas, dos expositores. Mas há, também ­— por entre móveis, espelhos, cartazes, fotografias, plantas e muitos outros objetos —, centenas de bilhetes com mensagens deixadas por quem visita o espaço ou pelos Tumbleweeds que lá pernoitam, e excertos de livros e citações pintadas nas paredes. A mais famosa de todas é a divisa que orientou a vida de George Whitman, o fundador da livraria em 1951:

 

 

Porém, o que mais me tocou foi o poema de Hafez — o grande poeta iraniano, cujo túmulo tive o privilégio de visitar duas vezes, em Shiraz — escrito no espelho de cada degrau da pequena escadaria vermelha que nos leva do rés-do-chão da livraria para o primeiro andar, onde se encontra o acervo de poesia.

  

Foi nesse primeiro andar, poucos minutos depois de ter conversado com Ryan, que fui conhecer Nathalie. Sentada num velho cadeirão, junto a uma janela, Nathalie lia e afagava Aggie, a gata residente, adormecida sobre os seus joelhos.

Esta manhã estava a dar uma volta por Paris e a tentar decidir onde ler um pouco, porque em Paris há tantos cafés, e acabei por escolher este lugar, de que gosto muito. Sabia que tinha de cá vir. Vim há duas semanas, mas estava fechado. Agora sei que voltarei muitas vezes enquanto cá estiver. Adoro ler, estou sempre a ler, sou uma leitora voraz. Aliás, trago um livro comigo. Tinha pensado lê-lo aqui, mas depois andei às voltas na livraria, peguei neste por acaso e agora não consigo parar. Chama-se “The Kennedy’s – Architects of their lives”. É um livro sobre a história da família Kennedy desde as suas origens mais remotas, desde o primeiro Kennedy. Pareceu-me interessante, porque gosto de política, da História dos Estados Unidos e assuntos desse género. Estou a lê-lo há cerca de meia hora e é muito bom. Os meus livros preferidos são os de História. Quando era mais nova gostava mais de ficção, mas agora gosto muito de História, porque te mostra um lado diferente dos factos, um lado por vezes oculto. Queria, aliás, ler qualquer coisa que se relacionasse com a História de Paris, que me mostrasse a verdade da cidade e do país também, mas agora agarrei-me a este. Talvez vá procurar um livro sobre Paris mais tarde.

Nathalie é peruana e estava a passar uma temporada em Paris para estudar. Leitora desde pequena, afirma gostar de tantos livros que é incapaz de apontar um como o seu predileto. Aquilo de que tem a certeza, porém, é que os livros e a leitura fizeram dela aquilo que é hoje:

Leio desde muito pequena. A minha mãe conta-me que eu até memorizava os livros, sabia-os de cor. Isso permitiu-me, antes de mais, aprender inglês. Pegava num livro sem perceber nada, mas tentava lê-lo e foi assim que aprendi inglês. Agora estou a tentar fazer o mesmo com o francês, pego em livros para ampliar o meu vocabulário. Depois, quando lês também te tornas uma pessoa com a mente mais aberta porque te informas sobre imensos lugares do mundo. Mesmo que não possas lá ir fisicamente, aprendes como são esses lugares. É uma forma de viajar. Tinha um tio avô que me dizia detestar viajar porque não gostava de aviões nem de andar de um lado para o outro. Odiava! Mas lia tanto sobre lugares distantes que era como se tivesse estado em todo o lado. Acho que ele me transmitiu isso, mas a diferença é que para além de gostar de ler eu também gosto de viajar. Então posso combinar o amor pelos livros com as viagens.

 

Entretanto, Aggie acordou e saltou do colo de Nathalie. Despedi-me delas e fui procurar Le Café Livres, não muito longe da Shakespeare and Company. Bastava-me atravessar a ponte Notre-Dame e a praça da Câmara Municipal. Contudo, não descobri logo o lugar e na minha caminhada em linha reta fui ao encontro de um stand da resistência iraniana, onde se fazia propaganda contra a ditadura do Ayatollah, ali entre a Torre de Santiago e a Rue de Rivoli. Depois de Hafez na livraria, o Irão estava de novo no meu caminho. Achei que não podia ignorá-lo. Demorei-me à conversa com os ativistas e acabei por almoçar muito tarde. Como se costuma dizer, sentei-me à mesa com o estômago colado às costas. Mas levava a cabeça cheia de conhecimentos novos e histórias para contar.

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