Já li – O Museu da Inocência

PORQUE LI?

Em Outubro de 2017 fui a Istambul pela primeira vez. Era uma viagem que queria fazer há anos e que me ofereci para festejar uma conquista que considero importante (ou então, porque no meu caso todos os pretextos são bons para fazer uma viagem). Estava na cidade havia um par de dias, quando uma amiga me enviou a seguinte mensagem: “Querida Sandra, que inveja. Quero ir aí visitar O Museu da Inocência. Beijos.” Respondi-lhe que se não me tivesse escrito, jamais me teria ocorrido ir ao museu. Fiquei muito grata pela mensagem. Mesmo sem ter lido o livro, visitar o museu concebido por Orhan Pamuk enquanto escrevia o romance com o mesmo nome, foi um dos pontos altos da semana que passei em Istambul. Agora, sou eu que não me canso de recomendá-lo. Prometi a mim mesma que, chegando a Portugal, comprava o livro. Assim fiz e comecei a lê-lo em Janeiro deste ano. Agora já só penso em voltar a Istambul e ao museu para revisitá-lo com um olhar necessariamente diferente. Tenho outro excelente pretexto: o livro oferece uma entrada grátis!

O QUE ACHEI?

Foi o momento mais feliz da minha vida, embora então eu não tivesse consciência disso. Se o tivesse sabido, se tivesse apreciado essa dádiva, teriam as coisa terminado de outra forma?” (Pág. 19)

Nunca tinha lido nada de Orhan Pamuk, autor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 2006, e “O Museu da Inocência” arrebatou-me, no mínimo por três motivos:

. Prolongou a minha viagem a Istambul e esse é um dos maiores prazeres que encontro na leitura. Gosto muito de ler acerca de um lugar antes de lá ir, mas sinto uma satisfação ainda maior quando leio sobre um lugar onde já estive, de preferência logo a seguir à viagem. Porque a ação do romance decorre entre 1975 e o fim do século XX, a cidade de Istambul que Pamuk descreve n’ “O Museu da Inocência” é, claro, diferente da que conheci, já sem os bairros pobres e lamacentos ou os terrenos baldios que eram frequentes mesmo no centro da cidade. Mas o seu carácter, a sua essência, a sua energia, a aura de Istambul, aquilo que podemos dizer ser, de certa forma, perene numa cidade, está nas palavras de Pamuk e está, ainda, na Istambul do século XXI. Com “O Museu da Inocência” aprendi muitíssimo sobre Istambul, sobre a História recente da Turquia e sobre os turcos no tocante a política, sociedade, religião, cultura e mentalidades;

. A construção e caracterização dos muitos personagens é magistral. Convenci-me que eram reais, que os conhecia a todos e que me juntava a uma espécie de família de cada vez que abria o livro para avançar na história. Vinha daquelas páginas e daquela gente uma sensação de conforto, de estar entre os meus. Apesar das diferenças culturais, de contexto histórico e, até, de status social, identifiquei-me com os seus dramas, as suas alegias, a forma como se relacionavam uns com outros e como foram envelhecendo. Acho que consegui colocar-me nos seus lugares e compreendê-los bem. Se voltar a Istambul irei com certeza ver nos rostos dos transeuntes desconhecidos, os rostos de Kemal, de Sibel, de Füsun, da tia Nesib ou do motorista Çetin Efendi;

. Mudou a minha perspetiva acerca de um determinado tipo de relação amorosa, aquela em que uma das partes (a meu ver) se anula completamente para seguir tudo o que outro faz, como se não tivesse nem interesses, nem vontades, nem critérios próprios. Sim, eu sei, quem nunca? Sobretudo quando somos mais novos, adolescentes ou jovens adultos, ainda imaturos e a tentar perceber exatamente quem somos, não é fora do comum isto acontecer porque estamos dispostos a qualquer sacrifício para que gostem de nós. Mas, e quando somos mais velhos, o que justifica um comportamento semelhante? Pois bem, passei do “Isto é ridículo e triste, um dia a pessoa cai nela e apercebe-se que desperdiçou metade da vida” para o “É incrível, mas parece que se pode ser feliz assim, vertendo no outro não só um profundo amor como todo o propósito de uma vida, sem que pouco mais interesse”. Isto não impede, claro, que eu tivesse tido muitas vezes vontade de agarrar Kemal pelos ombros e sacudi-lo até ganhar juízo… E mais não vos conto, para não vos estragar a leitura d’ “O Museu da Inocência”, que recomendo muito, muito, muito!

Diz-me quem conhece melhor a obra de Orhan Pamuk, que “O Museu da Inocência” nem é o seu melhor livro. Por isso, mal posso esperar pela oportunidade de ler os outros. Por onde (re)começar? Se quiserem dar-me sugestões, agradeço as vossas partilhas na caixa de comentários.

“— Para que todos saibam, vivi uma vida muito feliz.” (Pág. 639)

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