Já li — Também Isto Passará

PORQUE LI?

Depois de “Seda” — e estando ainda em Portimão para festejar o meu aniversário com a família — apeteceu-me continuar a ler ficção. Fui de novo à estante dos meus pais procurar algo breve. A sinopse e as críticas de imprensa de “Também Isto Passará” pareceram-me sugestivas. A minha mãe classificou-o como “leve” e o facto de nunca ter lido nada publicado pela Jacarandá Editora ajudou a decidir-me.

 O QUE ACHEI?

“(…) a morte, essa maldita, expulsa-nos de todos os lugares.” (pág.39)

O pequeno romance de Milena Busquets teve o condão de me irritar. E neste momento, passadas três semana sobre a sua leitura, é ainda com uma sensação de desconforto que recordo a história e os seus personagens. O que me irrita ainda mais porque nem gostei muito do livro e era suposto já o ter posto para trás das costas. Mas aqui estou eu, a escrever sobre ele e a refletir, mais uma vez, sobre o estranho impacto que teve em mim.

Blanca é uma mulher de quarenta anos, solteira, mãe de dois rapazes, filhos de pais distintos. Nasceu numa família da burguesia catalã, de pendor vincadamente artístico e boémio e cedo viu os pais se divorciarem. Cresceu num meio abundante — material, emocional e intelectualmente falando —, perdeu o pai, que a fascinava, quando ainda era criança e viveu o resto da sua vida sob a forte influência (para não dizer sombra) da mãe, uma verdadeira matriarca que ora me pareceu emotiva e generosa, ora distante, fria e algo déspota. Não consegui perceber, até ao fim do livro, se Blanca foi feliz na relação que manteve com a mãe. Nem o sofrimento atroz que vive no decorrer deste romance, por causa da sua morte recente e da falta que lhe faz, me ajudou a chegar a uma conclusão.

No primeiro Verão sem a mãe, Blanca parte com os filhos, os dois ex-companheiros e mais uma mão cheia de amigos, amigas e respetivas crianças para a casa estival da família, situada numa aldeia costeira, sobre o mediterrâneo. E é assim que, num verão branco e turquesa luminosíssimo, Blanca procura não ceder ao abismo que a morte da mãe e a tomada de consciência do fim da sua própria juventude abrem aos seus pés. A fuga a esse abismo faz-se por intermédio de viagens a um passado mais leve — porque a casa espoleta constantes recordações de outros verões, impregnados pela candura da infância e os namoros, o álcool, as drogas e as farras inconsequentes da adolescência —, de um flirt com tudo quanto é homem que aparece na história e de uma necessidade constante de foder.

Sim, foder. Porque é este o verbo que se emprega uma e outra vez na novela — fodi-o, fodeu-me, fodemos, foderam e por aí adiante — sempre que se refere um encontro sexual entre dois seres humanos. E isto foi, definitivamente, algo que me desgostou no texto. Não me tomem por púdica, mas sim, é verdade, no respeitante a sexo na literatura gosto de subtileza e coerência, e os termos escolhido por Milena Busquets para falar do tema pareceram-me boçais e inadequado à lógica do texto na sua globalidade.

Seria sua intenção chocar? Se sim, no que me diz respeito falhou redondamente: não me chocou; teve o condão de me irritar. Irritou-me a boçalidade, irritou-me aquela forma de luto autodestrutivo, autocomiserativo, irritou-me o capricho da desorientação, a aparente falta de vontade de reagir e a cedência aos impulsos mais básicos quando se é, claramente, alguém privilegiado nesta vida e se tem muitas ferramentas e argumentos à disposição para engendrar uma resposta saudável aos problemas. E foi altamente terapêutico (embora duro e quiçá injusto…) ler o trecho em que uma das suas amigas lhe deita tudo isto em cara, ao acusá-la de não passar de uma dondoca, que vive do dinheiro da família e que nunca fez nada na vida. Que alívio! Aaaaahhhh!

Blanca, já nas últimas páginas do romance, parece tomar consciência do mau caminho que leva quando reencontra, nas ruas da pequena vila sobre o mediterrâneo, um velho amigo dos tempos da adolescência, oriundo do mesmo meio social, que se recusou a crescer, a fazer-se à vida e caiu nas malhas da toxicodependência.

Irritou-me, ainda, o facto de muitos verem nesta novela o retrato de toda uma geração, que é a minha, quando eu não me identifico em momento algum com qualquer coisa que ali se tenha descrito. Pode ser o retrato de uma certa faixa da minha geração, mas com certeza uma faixa minoritária. Irritou-me a generalização, portanto.

Resumindo e concluindo: quer parecer-me que me impacienta gente menos estoica e resiliente. O assunto é sério e devo procurar resolvê-lo, porque corro o risco de me transformar numa besta insensível (se é que já não o sou). Ah, e preciso de me irritar menos de uma forma geral, quando leio em particular.

Embora não tenha gostado por aí além de “Também Isto Passará”, não posso recusar a possibilidade de um dia o recomendar a alguém. Entretanto, a novela teve a virtude de me dar alento para escrever uma crónica a propósito do luto que vivo desde o dia 2 de Janeiro deste ano. Daí a citação com que abro este texto.

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