Celine, na Laginha

Passava pouco das nove da manhã quando pus os pés no areal e o olhar na beira mar à procura de um lugar para estender a toalha. A caminho da água turquesa hipnotizante, avistei a Celine a ler, assim mesmo como a vêem na imagem, e decidi que lhe pediria uma foto, nem que fosse porque a beleza do cenário o exigia fatalmente.A Celine, que é francesa, está pela segunda vez de férias em Cabo Verde e tem aproveitado os 15 dias de descanso para se evadir entre as ilhas de S. Vicente e Santo Antão, onde satisfez a sua paixão pelas longas caminhadas no meio da natureza. Aqui no Mindelo, sob o sol radioso da Lajinha, dedicou-se a outra coisa que muito aprecia: ler. Ao explicar-lhe o que pretendia dela, Celine aceitou de imediato participar no Acordo Fotográfico, mas lamentou que a apanhasse com a edição de bolso de “Cinquante Nuances de Grey” (“As Cinquenta Sombras de Grey“, na edição portuguesa).“Preferia que me fotografasse com o livro que acabei ontem, um romance de Eric-Emmanuel Schmitt, o meu autor favorito. Mas enfim… Este é o terceiro que leio nestas férias”.Não foi com grande entusiasmo que falou do livro de E. L. James e depreendi, por isso, que o livro nem fosse seu. Mas enganei-me. Celine confirmou-me que foi ela que o comprou antes de partir e que o escolheu porque tinha muitas páginas e precisava de livros bem grandes para ter leitura garantida enquanto as férias durassem. “Para parar, relaxar, não pensar muito e esvaziar a cabeça é um bom livro. É um romance que se adequa às férias e à praia. Só isso”.

Grande apreciadora de romances históricos, Celine contou-me que lê desde muito pequena e que a mãe lhe incutiu o hábito de registar as leituras que faz. “Tomo nota de todos os livros que leio desde os dez anos e já tenho cinco cadernos cheios de títulos. É com base neles que recomendo livros a amigos e escolho os que ofereço. Nunca ofereço um livro que não tenha lido antes”.

E se para alguns é fácil eleger, por entre as longas listas de livros lidos, aquele que é o livro da sua vida ou o livro que mudou a sua vida de alguma forma, Celine diz que não consegue fazer essa escolha. “Mudamos muito ao longo da vida, mas atribuir isso à leitura não é claro para mim… Há, no entanto, um romance que me tocou verdadeiramente: “La Délicatesse”, de David Foenkinos (em Portugal, A Delicadeza“). Também eu perdi alguém e este livro é a prova de que podemos recuperar. Para além disso, julgo que está muito bem escrito. É um livro que adoro e que gosto muito de oferecer”.

Voltei depois ao meu lugar, feliz com mais esta conversa, para também eu me agarrar ao livro que fui buscar no início da semana à Biblioteca Municipal do Mindelo. Continuo a apostar na literatura Cabo-Verdiana e regressei ao meu autor favorito até à data: Manuel Lopes. De frente para o mar, desbravei algumas páginas de “Chuva Braba” cuja acção decorre na ilha que se vê lá ao fundo, na foto, coberta de nuvens — Santo Antão. Um lugar que considero místico e onde há dias fotografei outra leitora. Mas para esse texto, preciso de mais tempo.

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