Goa — Imamali, em Pangim

 
Estamos a meio de junho. Sobrevoo pela segunda vez na vida este pedaço de terra, no sul da Índia. Há quatro anos vim em março. Lá de cima, Goa era então verde, barro e luz. Desta vez é verde e parda, porque a vegetação densa e o céu pesado se duplicam na superfície da água que cobre quase tudo. O avião desce sobre o aeroporto de Dabolim e eu aterro na monção. Qualquer guia dir-vos-á, logo nas primeiras páginas, não ser boa altura para visitar este antigo pedaço de Portugal. A força e constância das chuvas que caem de junho a setembro ditam a época baixa. Em toda a costa o mar revolta-se, o turismo faz uma pausa e eu descubro que Goa tem muito mais encanto neste clima de fim de festa. 

Desta vez não haverá excursões de homens vindos do interior do estado para espreitar na praia as mulheres brancas em biquini. Também não haverá nórdicos hippies, alemães freaks, britânicos ganzados, russos alcoolizados ou americanas solitárias na rota “comer, orar e amar”. Desta vez, haverá apenas o povo de Pangim. As ruas dos bairros com nomes portugueses — Altinho, Fontainhas, S. Tomé — estarão tranquilas; as crianças, enfeitadas com laços ao pescoço e no cabelo, terão voltado às escolas; o comércio aberto será o que existe para as pessoas da terra; o crocitar dos corvos e o canto dos pavões sobrepor-se-á ao ruído dos tuk tuk; os mais velhos terão tempo para retorquir em português aos meus bons dias e para longas conversas em que se enaltecerá o passado e lamentará o presente.

Fico numa hospedaria na Rua de Natal, em pleno bairro das Fontainhas. Tudo neste lugar me confunde: a toponímia, as ruas estreitas, as casas antigas — grandes sobrados de rés-do-chão e primeiro andar debruados com longas varandas, pintados de azul, amarelo, verde ou vermelho —, os portões de ferro forjado, as telhas de cerâmica, os vasos de flores às janelas, os nichos com figuras de Santo António, as cruzes desenhadas a branco nos muros, as capelas e igrejas. Parece que voltei a uma das colinas de Lisboa ou que todo o nordeste litoral brasileiro, com o verde dos seus coqueiros, atravessou meio mundo para me reencontrar aqui. 

O edifício da Hospedaria Abrigo de Botelho tem cento e cinquenta anos. O seu proprietário, Roy Botelho, é um goês de meia idade que abandonou o negócio da construção civil para devolver à casa todo o seu esplendor e pô-la ao serviço do turismo. Por fora pintou-a de um azul forte e orlou as janelas de branco. Por dentro recuperou madeiras, manteve tijoleiras, conservou tetos. E recebe-me num português tímido, mas correto que aprendeu em casa, com os pais. Em português me cumprimenta também o Sr. Sélvio, à porta da Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Curioso acerca da história da minha viagem, convida-me para um chá à saída da missa para que lhe conte tudo. Depois disso encontrar-nos-emos todos os dias. Durante aquela semana, o Sr. Sélvio é o meu anjo da guarda. Também em português volto ao convívio do Sr. Bento Fernandes, que com devoção mantém abertas as portas do Núcleo Sportinguista de Goa, um lugar incontornável para tertúlias sobre o nosso futebol. E assim passo os dias, ao som da minha língua: na casa de instrumentos musicais, na papelaria, num restaurante junto à praia, no despachante de encomendas perto da estação de correios, no ourives do mercado de Mapuçá. 

Num domingo à tarde em que Pangim estava ainda mais deserta, passei pelo Azad Maidan em direção ao rio Mandovi. Queria caminhar de novo na marginal Dayanand Bandodkar antes de regressar à hospedaria. O Azad Maidan consiste numa praça quadrangular, no coração da cidade, onde os portugueses ergueram em tempos uma estátua de Afonso de Albuquerque. Hoje, essa mesma praça, importante centro de reunião e convívio para os habitantes da cidade, alberga um memorial em homenagem a Tristão de Bragança Cunha, um goês nacionalista e ativista anti-colonial que morreu em 1958, três anos antes da invasão do território pelas forças armadas da Índia e subsequente anexação à União Indiana. Foi nesse largo de ar descuidado que conheci Imamali, um jovem de Hyderabad, uma cidade no interior do país, a 540 quilómetros de Pangim. “Estou em Goa a fazer um estágio de dois meses e como espero aqui pelo autocarro aproveitei para ler. Leio bastante, sobretudo clássicos da literatura e thrillers, mas neste momento os meus livros preferidos são os da ‘Guerra dos Tronos’. Também sou fã da série de televisão“. Fotografei-o no início da leitura de “Uncle Tom’s Cabin” (“A Cabana do Pai Tomás“), da autora norte-americana Harriet Beecher Stowe. “Leio-o porque é um clássico e porque é muito bom“, disse-me Imamali, “e também porque quero saber como eram os tempos da escravatura“. 
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