Vietname — Linh, no Cong Caphe

 
Acordei naquela manhã de sábado determinada a visitar o Museu de História Nacional do Vietname. Por isso, depois do tomado o pequeno-almoço — café e panquecas de banana com mel, que a cozinheira servia com um sorriso maior de dia para dia porque eu insistia naquela receita e não deixava uma migalha no prato —, saí do hotel no Bairro Antigo para caminhar primeiro até ao lago e seguir daí para o Bairro Francês. 

Não muito longe da Ópera de Hanoi e do luxuoso Hilton fica o museu, instalado num edifício híbrido, misto de arquitetura colonial francesa e arquitetura tradicional vietnamita, construído em 1932 e pintado de ocre. Quando se está pouco tempo num país e não se conhece muito sobre a sua história, julgo que a visita a este género de museus ajuda a que possamos abarcar, de forma rápida e concisa, o percurso de um povo. Foram muitos os que visitei durante esta viagem e em todos eles aprendi imenso. O do Vietname não foi exceção e foi com muito prazer que lá passei toda a manhã. 

À saída optei por contratar o serviço de um riquexó para explorar a área do Bairro Francês, uma zona que encontrei particularmente calma, num contraste para mim muito evidente com o frenesim do resto da cidade. Enquanto o condutor pedalava vagarosamente, deliciei-me com a sombra que as grandes árvores das avenidas largas projetavam sobre as casas afrancesadas de rés-do-chão e primeiro andar. Aqui e ali boutiques, cafés, restaurantes, cabeleireiros, senhoras que passeavam cães pelas trelas, gente sentada nos bancos de uma praça ajardinada, taxistas à espera de clientes. O riquexó deslizava pelo asfalto, langoroso, e eu sentia uma ligeira brisa que atenuava o calor. Havia algo de anacrónico naquele lugar que me confundia. Belisquei-me pela milésima vez desde que deixara Portugal. Era certo que ali estava, mas não conseguia afastar a sensação de sonho… 

Terminado este passeio de 45 minutos, fui deixada junto ao lago, para onde todos os caminhos de Hanoi parecem convergir. Almocei no restaurante gerido por um grupo de mulheres — talvez irmãs, porque identificava em todas elas uma certa parecença—, cujos berros constantes nunca deixei que interferissem no deleite das várias refeições que lá fiz. E parti de novo, a pé, para os confins do Bairro Antigo onde me demorei até ao fim do dia. Há sempre ruas novas por desbravar, o pequeno comércio por explorar, aspetos insólitos do dia a dia dos vietnamitas para observar. Em Hanoi, o tédio é impossível e as horas passam velozes. 

A meio da tarde entrei na Catedral de São José, sede da arquidiocese católica romana da capital. Estava a decorrer uma cerimónia, motivo pelo qual não me demorei, mas pude observar, com surpresa, duas imagens que são símbolos de Portugal: Sto. António e Nossa Senhora de Fátima. Cá fora, na área que circunda a catedral, havia apenas um condutor de riquexó, que dormia profundamente, refastelado no assento vermelho do veículo. Entretive-me por uns instantes a tentar decifrar as mensagens afixadas num quadro, mas a única coisa que consegui entender era óbvia — a palavra “Phanxicô“, escrita em letras garrafais num póster que exibia a fotografia do atual Papa. A certa altura fui abordada por um homem jovem, que saiu de uma porta lateral da catedral. Cumprimentou-me com um grande sorriso e convidou-me a entrar na igreja. Expliquei que já lá tinha estado e fiz alusão à imagem do Sto. António, dizendo-lhe que aquele era o meu santo protetor. “Ai, sim?“, respondeu. “É também o protetor do meu pai e estamos a poucos dias de celebrar a data do seu nascimento, 13 de junho. O meu pai faz anos nesse dia“. Não escondi a minha surpresa: um vietnamita fluente em inglês, com um pai católico devoto de Sto. António pareceu-me algo extraordinário. Disse-lhe que era Portuguesa e contei por alto o propósito da minha viagem. Foi então que me explicou ser o padre responsável pelas homilias em inglês na Catedral de S. José e ao saber que era portuguesa retorquiu: “Ouvi dizer que é um país muito bonito. Há lá um lugar muito especial que quero visitar um dia: Fátima“. 

Ainda a digerir este encontro surpreendente, abandonei o recinto da igreja e dirigi-me ao pequeno café que, no cruzamento em frente, já me tinha chamado a atenção. A esplanada exígua era frequentada por turistas e vietnamitas com um cunho alternativo e a decoração do rés-do-chão denunciava um ambiente sofisticado e intimista. Subi ao primeiro andar, à procura de um lugar. Nas paredes, pósteres antigos de propaganda pacifista, estantes rudimentares com livros, rádios velhos. Do teto pendiam lâmpadas cujos abajours eram alguidares de plástico. A sala era pequena e, apesar da luz que entrava pelas janelas altas e se espraiava sobre as paredes de tijolos e as mesas de madeira, havia recantos que ficavam na penumbra. Num desses recantos estava sentada a Linh, um livro em cima da mesa e outro nas mãos. Pedi-lhe uma foto e foi à sua mesa que acabei por me sentar. Conversámos enquanto ela tomava o seu café gelado e eu, a minha limonada fresca. 

Os livros que Linh tinha consigo eram ambos de autoras vietnamitas. O que lia intitulava-se “Hoa Linh Lan“, de Gào, um bestseller que conta a história de um triângulo amoroso entre um vietnamita solitário e duas miúdas, uma delas chinesa. O outro livro, chamado Người yêu cũ có người yêu mới” era escrito por Iris Cao. Tinha-lhe sido oferecido por um amigo que nutria por ela mais do que um sentimento de amizade. Depreendi, pela sua expressão, que o sentimento não era mútuo e tive mais tarde a certeza, quando Linh me falou do namorado que, curiosamente, frequenta aulas de português na Universidade de Hanoi. “Ainda não tive coragem de começar a lê-lo“, confidenciou-me. E eu achei triste saber de mais uma história de amor não correspondido. De resto, sobre os seus hábitos de leitura, Linh afirmou: Gosto de estar sozinha neste café, a ler. Leio muito. Não gosto tanto de romances. Prefiro livros que me façam refletir. Quando leio, sinto que faço uma pausa e que tenho tempo para pensar. Os livros são como uma lente através dos quais se pode ver tudo. Quando estás confusa acerca de algo, lê e talvez encontres a solução“.
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