Vietname — Han, no Templo da Literatura

 

Nesta volta ao mundo, em que procurei sempre estabelecer uma ponte entre os lugares e os livros, saber que existe em Hanoi um Templo da Literatura foi música para os meus ouvidos. Achei verdadeiramente poético que uma capital contasse com um lugar quase milenar onde ainda hoje se veneram os sábios e os letrados da nação. Fundado em 1070, o Templo da Literatura é não só o principal santuário do Vietname dedicado a Confúcio, como é também um lugar histórico de aprendizagem, uma vez que aqui funcionou, até 1802, a primeira universidade do país. Exemplo ímpar da arquitetura tradicional vietnamita, o templo, que se encontra bem preservado, tem uma planta retangular e é composto por cinco pátios sucessivos onde se alinham relvados, árvores centenárias, lagos repletos de flores de lótus — o símbolo nacional do Vietname — e vários edifícios de madeira e telhas de barro que albergam imagens dos principais eruditos, assim como lápides onde se exibem os nomes e proezas de outros intelectuais. 

Foi aqui, entre estas paredes pintadas de vermelho vivo, que ao longo de séculos os melhores alunos de todo o Vietname estudaram os princípios de Confúcio, da literatura e da poesia. Estes estudos superiores podiam demorar três a sete anos, processo que culminava num exame nacional feito na presença do Imperador, que questionava e avaliava os finalistas. Fui ao templo no início de junho, num dia se semana em que havia muito poucos visitantes. Pude, por isso, desfrutar do ambiente relaxante dos jardins, que imaginei perfeitos para a concentração nos estudos que ali se faziam antigamente. Mas sei que em determinadas épocas do ano, muitas das celebrações académicas ainda se fazem aqui e que na véspera de exames importantes os estudantes ainda vêm aos magotes pedir proteção e sorte aos sábios ancestrais. 

Naturalmente, ao longo da visita pensei muitas vezes no quanto seria perfeito encontrar um leitor no magnífico Templo da Literatura. E, sortuda como tenho sido, foi o que acabou por acontecer, já mesmo na reta final, quando entrei na loja de souvenirs que existe na ala esquerda do edifício onde funcionava a universidade. Aí, aproveitando a calmaria daquele dia, a jovem Han lia a edição vietnamita de “Como Deixar de se Preocupar e Começar a Viver“, de Dale Carnegie. Leitora assídua, sobretudo de literatura infantil que diz ser a sua preferida, Han procurava orientação nas palavras do guru norte-americano da motivação. “Sou uma pessoa que se preocupa muito, por isso preciso de ajuda. Espero poder preocupar-me menos e passar a divertir-me mais“. E sabem com o que mais se preocupa a Han? Com o trabalho. Irónico é que estivesse a tentar travar esse processo no templo dedicado a Confúcio, o filósofo para quem o trabalho era uma das pedras basilares do seu pensamento.

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