Vietname — Andjana em Halong Bay

Era uma vez, há largas centenas de anos, um jovem país chamado Vietname que defendia as suas fronteiras com ferocidade. Um dia, no mar a norte, a batalha parecia perdida face à investida dos chineses. Foi quando o Imperador de Jade, o Deus primordial, enviou em auxílio dos vietnamitas a Mãe Dragão e as suas crias, que atacaram o inimigo cuspindo fogo e esmeraldas gigantes. Muitos barcos chineses foram afundados e os restantes não conseguiram transpor o muro de pedras preciosas que se ergueu sobre o mar. Abandonaram a luta e a paz regressou ao Vietname. Muito tempo depois, as esmeraldas gigantes transformaram-se em ilhas e ilhéus que se espraiaram pela baía, outrora campo de batalha. Assim reza a lenda de Halong, que em vietnamita antigo significa literalmente “dragão descendente” ou “dragão que desceu”.

Já a geologia conta-nos uma história completamente diferente, que começou há quinhentos milhões de anos. Este foi o tempo necessário à formação da baía tal e qual a conhecemos hoje, com as suas águas verdes, três mil ilhas e ilhéus de calcário, grutas, crateras, lagos e todas as criaturas que aí habitam. O valor geológico, histórico e cultural deste pedaço do Vietname é inestimável e de importância excecional para a Humanidade, razão pela qual o local passou a inscrever-se, em 1994, na lista do Património Mundial da UNESCO. Em 2007, a baía foi considerada, também, uma das Sete Novas Maravilhas Naturais do Mundo.

A beleza da paisagem da Baía de Halong é esmagadora. À medida que o barco se afasta do cais e penetra pelo labirinto de ilhas esguias, inabitadas e cobertas de vegetação, parece que entramos num mundo irreal, fantasioso. Há muitas dezenas de barcos a fazer o mesmo trajeto e no entanto o silêncio predomina. Quase parece que algo na natureza absorve os sons das máquinas ou que estas se movem por artes mágicas. Durante o dia, o sol confere à pedra calcária um tom dourado e os reflexos das ilhas multiplicam-se sobre a superfície plácida do mar. À noite, se o luar ajudar, adivinham-se apenas os contornos dessas porções de terra. O verdadeiro espetáculo vem do céu e do número infinito de estrelas que brilham sobre as nossas cabeças. Encostada à amurada, no deck superior, só baixei o olhar para ver passar rente ao barco ancorado, quase à superficie, as gigantescas medusas de um branco luminoso, que arrastavam, lânguidas, as longas cabeleiras de tentáculos.

Quem tem o privilégio de poder passar uma noite a bordo de um barco fundeado algures entre os ilhéus, pode imaginar o que seria estar na Baía de Halong antes da chegada das hordas de visitantes. A área é muito extensa e comporta os inúmeros barcos de passeio, mas há paragens para visitas obrigatórias a alguns ilhéus onde as extensas filas são inevitáveis e os atropelos para as fotografias da praxe também. Pior do que isso é constatar-se claramente que a água da baía está a ficar poluída: aqui e além surgem manchas de óleo, flutuam objetos de plástico, forma-se uma espuma suspeita sobre a superfície. A um dado momento, o guia que nos acompanha a bordo explica que as comunidades piscatórias, que sempre viveram em aldeias flutuantes, estão a ser obrigadas pelo governo a mudar-se para terra, onde lhes cederam habitação gratuita. Argumenta-se que os seus hábitos de vida poluem a baía e que isso é mau para o turismo. Alguém do grupo de ocidentais protesta, dizendo que os pescadores estavam lá primeiro. O guia responde que em terra as crianças podem ir à escola. E a conversa termina aí.

Não posso, é claro, prever com grandes certezas o futuro da Baía de Halong, mas tudo aponta para transformações significativas e num sentido que me entristece. Ao aproximarmo-nos da zona portuária, a cidade está transformada num estaleiro a perder de vista. Os terrenos junto à costa estão loteados e há gruas por todo o lado. No edifício do porto, onde se compram os bilhetes para os passeios de barco, confirmo as minhas suspeitas: uma maqueta de grandes proporções apresenta-nos a Baia de Halong do futuro. E o futuro é uma combinação de moradias de luxo, hóteis, arranha-céus e avenidas largas. Em suma, uma paisagem urbanística completamente descaracterizada que me recordou uns bairros de Miami, muito explorados pelas imagens panorâmicas das séries de TV. E eu, que nunca estive em Miami… No topo de um dos ilhéus pensei nisto, no que verão aqueles que daqui a muitos anos visitarem a Baía de Halong. A maior parte dos meus companheiros de barco preferiram ficar na praia minúscula e sobrelotada. Eu, apesar do muito calor e da humidade elevada que parecia não deixar ar para respirar, preferi encarar centenas de degraus e chegar, com grande esforço, ao ponto mais alto daquela torre de calcário. À minha frente, até à linha do horizonte, milhares de ilhas, um assombro que tornou ainda mais complicado recuperar o fôlego. Após alguns minutos de contemplação em cima de uma pequena rocha que tive de disputar com outros turistas, empreendo a descida, mais rápida, e ao chegar lá abaixo, ao areal diminuto e sujo, encontro uma leitora.

Andjana é alemã e estava de férias no Vietname. Três semanas, tantas quantas as que eu passei naquele país surpreendente. Nem sei como conseguiu concentrar-se nas páginas do livro, tal era o tumulto à nossa volta. Vários grupos de chineses comportavam-se como se nunca tivessem visto o mar ou mergulhado nele. Gritavam de excitação e esbracejavam com a água pela cintura como se estivessem a afogar-se. Mas Andjana lia. Era o segundo volume de “Herzenstimmen” (“The Art of Hearing Heartbeats”, na edição inglesa), de Jan-Philipp Sendker, uma história passada na Birmânia onde a jovem protagonista procura durante quatro anos o pai desaparecido. “Leio muito e gosto de histórias passadas em cenários radicalmente diferentes. Este é um bom romance, mas é muito triste“, disse-me já com o livro dentro de um saco e enquanto sacudia e dobrava a toalha de praia. O seu barco estava de partida e os pais esperavam por ela.

Fotos da Baía de Halong aqui.

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