Ler, apesar de tudo

 
Um projeto feito de pessoas, livros e fotografias, numa homenagem ao ato de ler.” É desta forma que costumo apresentar o Acordo Fotográfico. E embora nesta frase as pessoas surjam antes dos livros e das fotografias, a verdade é que nunca pensei que a dimensão humana deste blogue tomasse as proporções que tomou. Acreditar que os protagonistas seriam os livros e as imagens foi, no mínimo, ingénuo… As pessoas que leem e as pessoas que dão a cara nas fotografias impuseram-se, como é óbvio, e a relação que estabeleci com elas a propósito dos livros foi muito para além deles. Nalguns casos, as suas histórias de vida cairam-me nas mãos como se do enredo de um romance se tratasse. Esses foram os posts mais difíceis de escrever, aqueles que adiei por saber que tinha de respeitar um período de maturação. É o caso do post de hoje.
 
Sentado nos degraus da porta lateral da Igreja do Carmo, no Porto, o Daniel lia. Ao seu lado, um pouco mais adiante, encostados à parede da igreja e espalhados pelo chão, estavam uma dezena de cartazes. Neles o Daniel explicava a sua situação, fazia uma série de reivindicações ao IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional) e pedia ajuda. Contou-me que em 2004 foi alvo de um roubo por parte de um sócio com quem tinha uma empresa. Na altura, perdeu tudo e viu-se na rua, onde foi forçado a viver 4 anos. Ao fim desse tempo conseguiu emigrar para França, onde trabalhou. De regresso a Portugal criou a MASA (Movimento de Apoio aos Sem Abrigo) e apresentou ao IEFP um projeto para a criação de uma nova empresa. Tendo contado, inicialmente, com o apoio daquele instituto, o Daniel acabou por ver-se enleado num imbróglio burocrático que o levou, de novo, à estaca zero. O apoio foi retirado e voltou a viver na rua. Para protestar contra a situação de que se diz vítima, já foi a pé até à Assembleia da República. Afirma que o próximo passo será acorrentar-se a um dos balcões do IEFP e começar, em janeiro próximo, uma greve de fome. 

E, apesar de tudo isto, o Daniel lia. O livro fora-lhe emprestado e tinha como título “Acordar com a Boca Cheia de Terra“. 

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3 thoughts on “Ler, apesar de tudo

  1. Fui surpreendida e achei surpreendente.

    E, claro, passei a ser visitante assídua do blog porque, confesso, adorei e viajo por esta ideia aparentemente simples na forma mas imensamente complexa no conteúdo.

    É o registo de imagens, palavras e testemunhos do momento, que fluem entre as emoções provocadas pela interrupção, mas são, de facto, apontamentos de histórias de vida… Histórias de vida!

    Caem-te nas mãos não as deixes cair.

    Continua, invade muitas leituras para evadir as nossas inércias.

    Aqui esperamos.

    sara carvalho

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