Roni, entre a História e a ficção

Tudo neste post é extemporâneo.

Antes de mais a viagem no tempo que a visão de Roni me tinha proporcionado na semana anterior. Saíra de casa, em Matosinhos, para caminhar junto ao mar, pelo menos até à Praia da Luz, no Porto, num percurso que já me ofereceu muitas dezenas de leitores para o Acordo Fotográfico. Em passo acelerado passei por ele, numa manhã fresca do início de Junho, ainda o habitual nevoeiro não se tinha dissipado. Num piscar de olhos, não era mais na foz do Douro que eu me encontrava, mas sim na foz do Rio da Prata, naquela margem do lado Uruguaio, em Montevideu, onde vivi quase todo o ano de 1999 e onde aprendi a apreciar o travo amargo do chá mate partilhado numa roda de amigos recentes e a abstrair-me do facto de estarmos todos a beber do mesmo recipiente e a sorver pela mesma bombilla (uma espécie de palhinha de metal). Preferi focar-me na honra que representava ser integrada no ritual tão íntimo daquele grupo, sem que ninguém manifestasse qualquer reserva face à portuguesa semi-desconhecida.

A imagem da transportadora de cabedal pousada na relva, do termos para manter a água fervente, da cabaça cheia de mate e da bombilla prateada era-me familiar e saudosa o suficiente para me ter enternecido com a imagem de Roni — solitário, sentado frente ao Atlântico, virado para ocidente, para o continente americano, parecia construir uma ponte sobre as águas a cada sorvo na bebida. Mas não era só isso que o ocupava. Roni lia e eu lamentei que a pandemia me tivesse afastado do hábito de sair de casa com a máquina fotográfica. Ficou a dúvida: seria uruguaio? Argentino? Provavelmente Brasileiro, onde chamam chimarrão a esta mesma erva. E o que estaria a ler? Todas as questões ficariam sem resposta, achei eu. Até que, na semana seguinte, no mesmo exercício de caminhada, passei de novo por Roni e, ainda que não tivesse a câmara fotográfica comigo, decidi fotografá-lo com o telemóvel, que serviria para mais do que contabilizar quilómetros, passos dados e calorias consumidas.

Este post é extemporâneo, também, pelo tempo que dista entre a captura das imagens e a sua partilha: de início de Junho a meados de Setembro. Passei os três meses a penitenciar-me por não escrever este texto, por procrastinar, como se me doesse voltar a um projecto que a pandemia afectou profundamente e que a minha vida como profissional independente também acabou por prejudicar… Mas aqui estou, por fim, para vos falar de Roni, brasileiro, e do que lia.

Roni leva todos os dias a filha mais nova à escola, que fica perto da zona onde o fotografei. Às quartas e sextas-feiras treina com a filha mais velha num ginásio também nas redondezas. Nesses dias, entre uma coisa e outra, aproveita o tempo livre para ler um pouco. Sobre o hábito recorda: “Sempre li, desde a infância. Não sei de onde vem o gosto. É uma mistura de factores. Foi importante o exemplo de casa (o meu pai sempre lia), dos amigos, da escola com as leituras obrigatórias e os trabalhos, como aqui em Portugal. Então, foi indo naturalmente. Na escola, a leitura de livros interessantes que alguns professores nos recomendavam e que a gente gostava de ler puxaram muito para a leitura.” Sem surpresas, porque este hábito é contagioso, fiquei a saber que as duas filhas de Roni também são leitoras: “As minhas filhas têm 15 e 21 anos e ambas, obviamente, estão focadas em Instagram, Facebook, Tik Tok e tudo isso que eu às vezes nem entendo. Só que elas lêem muito, elas adoram ler! A menor procura os livros por conta própria na Internet, encomenda em inglês, às vezes em português também. Gosta de livros com histórias complexas, o que eu acho interessante e bom.

No respeitante a géneros, a preferência de Roni vai para a ficção, nomeadamente os romances históricos, porque são esses os livros que verdadeiramente lhe permitem relaxar, evadir-se, descansar a cabeça. E fala com enorme entusiasmo do autor britânico Ken Follet. “Adoro esse tipo de livros em que a história é uma ficção, mas todo o ambiente é real e coloca a gente lá mesmo. Eu li “Os Pilares da Terra”, “Um Mundo Sem Fim” e a “Trilogia O Século”. Adoro Ken Follett!

Contudo, naquele dia, ainda que continuasse a navegar por águas da História, Roni tinha abandonado por completo o campo da ficção para entrar a pés juntos no horror que resultou da governação do chamado “grande timoneiro”.  “Mao – A História Desconhecida”, na sua edição em inglês, parecia estar a ser bastante esclarecedor: “Não conhecia esta autora. Recomendaram-me o livro há muitos anos, mas só agora é que estou a conseguir lê-lo. É muito interessante, mas é longo e então demora para ler. A história dele é fantástica, ele foi realmente uma pessoa… dizem que talvez a pior pessoa da humanidade, muito pior que Hitler.  É o que dizem, que Hitler e Estaline são ‘alunos’ dele, que ele foi o pior! Eu não sabia, mas agora estou naquela parte em que se explica que talvez o maior responsável por permitir que ele ascendesse ao poder foram os Estados Unidos. Estou especificamente a ler essa parte em que o General Marshall enviou relatórios errados e absurdamente distorcidos para os Estados Unidos, o que permitiu que o ajudassem numa fase em que estava quase derrotado pelo Chiang Kay-shek. Ele foi salvo pelos americanos. Não é o tipo de livro que eu leio muito, mas estou gostando. Estou até a tentar convencer a minha filha mais velha a lê-lo, porque ela estuda Relações Internacionais.

Este livro da autora chinesa Jung Chang, escrito em parceria com o seu marido e historiador Jon Halliday, é de grande envergadura — dez anos de investigação vertidos em quase novecentas páginas — e está totalmente banido da China. Da mesma autora, recomendo-vos vivamente “Cisnes Selvagens”, que li há muitos anos. Se se sentirem intimidados por “Mao – A História Desconhecida”, aquele romance de cariz autobiográfico é uma excelente alternativa, uma vez que cobre quase toda a história da China no século XX, com particular destaque para as consequências devastadoras da invasão japonesa e da Revolução Cultural.

Boas leituras!

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