Cabo Verde — Leniza no Tarrafal


Cabo Verde foi o primeiro país africano onde alguma vez estive. Muito antes de ir a Marrocos ou à Tunísia, foi na ilha do Sal que passei férias dois anos seguidos — em 2001 e 2002 —, alojada num modesto lugar que Miguel Sousa Tavares tão bem descreve no seu livro “Sul”: o Hotel Morabeza. A ilha do Sal é pequena e na época não havia muito para ver. Um dia bastava para percorrer os principais lugares de interesse turístico ou cultural, pelo que essas semanas foram sobretudo passadas na praia a ler, a comer e a dormir. Obviamente, embora pudesse dizer que já tinha estado em Cabo Verde duas vezes, não podia de forma nenhuma afirmar que conhecia Cabo Verde.


Ao regressar ao país em 2014, quis sobretudo colmatar essa falha, afastar-me dos locais quase exclusivamente de praia e desbravar o Cabo Verde menos turístico. Estipulei, portanto, que visitaria a ilha de Santiago, onde fica a Praia, a capital política e maior cidade cabo-verdiana; a ilha de S. Vicente, onde se situa o Mindelo, considerado o coração cultural do país; e a ilha de Santo Antão, porque é possível lá ir de barco a partir do Mindelo e porque muitos a apontam como a ilha mais bonita do arquipélago: é de todas a mais verde e a mais montanhosa, chegando a atingir quase dois mil metros de altitude no Topo da Coroa, um vulcão inactivo. Estive lá três dias e passou a ser, das quatros ilhas que conheço, a minha predilecta.

Os dias em Santiago foram passados em ritmo lento, entre os passeios pelo Plateau — o bairro localizado num promontório sobre o mar, de arquitectura e urbanismo que nos confundem ao ponto de acharmos, por momentos, que estamos numa vila portuguesa — e pela marginal até à Quebra Canela, a praia de areia escura onde dei uns belos mergulhos e me diverti a observar a multidão de badios (assim se chamam, em crioulo, os habitantes da ilha de Santiago) a brincar nas ondas, a fazer acrobacias no areal, a conversar ou tão só no seu vai e vem alegre. Estávamos em Agosto, tempo de férias para a maioria. A minha volta ao mundo acabaria dentro de poucos dias. Era tempo de balanço e de emoções muito contraditórias…

Houve duas ocasiões, porém, em que me afastei da capital, a primeira delas para visitar a Cidade Velha, declarada Património Mundial da Humanidade em 2009. Esta pequeníssima cidade, fundada pelos portugueses em 1460 para servir de entreposto no comércio de escravos entre os continentes africano, americano e europeu, foi até 1770 a capital do arquipélago e é tida como o berço da nação cabo-verdiana, por lá ter nascido o homem crioulo. Na Cidade Velha aportaram Vasco da Gama, no seu caminho para a Índia, Pedro Álvares Cabral, na ida para o Brasil e Cristóvão Colombo, na terceira viagem às Américas. Considerei particularmente emocionante caminhar pela Rua de Banana, a mais antiga da África subsaariana, imaginando que estas figuras ilustres da história universal fizeram o mesmo um dia; visitar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde pregou o Padre António Vieira; percorrer as ruínas da primeira Sé Catedral erguida em África pelos portugueses e subir à Fortaleza de S. Filipe da qual se tem uma vista soberba sobre toda a costa daquela parte de Santiago e se avista também o verdíssimo Vale da Cidade Velha, um oásis que contrasta com a aridez da restante paisagem.

Na segunda ocasião em que saí da cidade da Praia, dirigi-me ao Tarrafal, esse lugar que na minha imaginação era apenas um ermo onde existia o campo de concentração e nada mais. Por isso, foi grande a surpresa quando a Hiace que fazia as vezes de transporte público passou a toda a velocidade pela placa que sinaliza o recinto infame e não parou. Nesse preciso momento fiquei a saber que o Tarrafal é, antes de mais, uma vila piscatória onde existe uma das poucas praias de areia branca da ilha de Santiago e onde a indústria do turismo começa agora a despontar. Chegada ao centro da vila tive de voltar para trás a pé, chinelando pelo alcatrão que já fervia. Depois, segui por um caminho de terra batida até ao portão do complexo prisional. E então, o lugar que tinha imaginado materializou-se e a desolação que emana abateu-se sobre mim.

Ironicamente localizado num lugar chamado Chão Bom, o Campo de Concentração do Tarrafal foi criado pelo Estado Novo em abril de 1936, de acordo com os modelos nazis em vigor na época, e começou a funcionar em outubro do mesmo ano com a chegada dos primeiros prisioneiros: 152 portugueses sentenciados ao desterro por crimes políticos ou de rebelião. Durante os seus quase 40 anos de funcionamento, passaram por lá ou ali morreram condenados por delitos comuns, militantes comunistas, anarquistas, sindicalistas, republicanos democratas, espanhóis derrotados na guerra civil, alemães anti-nazis, militantes e combatentes dos movimentos africanos anti-coloniais e, após a independência de Cabo-Verde e por um período muito breve, elementos considerados cúmplices do antigo regime colonial. Ultrapassado o portão de ferro é possível subir à muralha que contorna todo o recinto de planta rectangular e observar lá do alto o complexo prisional: num primeiro plano, o fosso; depois um muro ligeiramente mais baixo debruado a arame farpado e lá dentro uma vintena de edifícios térreos pintado de ocre, a cor que acentua ainda mais a secura da terra circundante. Apenas duas ou três acácias rebeldes dão um ar da sua graça pontilhando a paisagem com flores rubras (ou insistem tão só em recordar o sangue que ali se derramou?). E à volta de tudo isto, a Serra Malagueta e o Monte Graciosa acentuam o isolamento do Campo de Concentração. 

Fiz a visita sob um sol severo e na quase absoluta solidão. Apenas a N., que viajou comigo, me fazia companhia. Não havia mais vivalma. Não se ouvia um som. Só os nossos passos na terra ou o ranger de uma ou outra porta que abríssemos. Não tivéssemos nós de pagar para entrar, dir-se-ia um lugar abandonado. Todos os edifícios estão vazios, à excepção de um ou dois que exibem placares com informação sobre a história do complexo ou imagens de alguns dos prisioneiros mais notáveis, com respectivos testemunhos breves. Fotografei o de José Luandino Vieira, o escritor angolano que um dia recusou o prestigiado Prémio Camões por “motivos íntimos e pessoais”. Será intencional a falta de espólio em exibição? Ou não haverá espólio de todo? Trago essa dúvida comigo até hoje, assim como a sensação de que se poderia fazer muito mais por um lugar que não pode de maneira nenhuma cair no esquecimento.

Por incrível que possa parecer, foi neste lugar triste que me foi dada a oportunidade de fotografar a primeira leitora em Cabo Verde. Podia ter acontecido numa praia, numa esplanada ou até num banco de jardim, mas ocorreu à porta do Campo de Concentração. Leniza, habitante do Tarrafal e estudante do ensino secundário, costuma trabalhar no complexo prisional para substituir funcionários em férias. Leitora muito pouco habitual, diz preferir romances, mas foi a ler uma biografia — “Testemunho de um Combatente“, de Pedro Martins — que a retratei. “Acho o livro muito interessante. O autor esteve preso aqui no Tarrafal. Conta como os carcereiros o tratavam, a tortura… E fala da morte de Amílcar Cabral“, explicou.
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