África do Sul — Joanne em Joanesburgo

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A viagem de Zanzibar para a África do Sul não correu bem. Aquilo que deveria ter sido um trajeto de meio dia com uma curta escala na Etiópia acabou por transformar-se numa odisseia de dia e meio que incluiu: um atraso de quatro horas num voo; discussões acesas com os funcionários de um aeroporto; um almoço forçado em Adis Abeda; uma escala no Quénia; uma avaria num outro avião que nos forçou a voltar para trás e uma noite passada em Nairóbi que se resumiu a três horas de sono.

Cheguei a Joanesburgo esgotada e o frio que se fez sentir mal saí do aeroporto não ajudou a levantar o ânimo. Voltei a lamentar a péssima ideia que foi chegar a Macau em junho e despachar para Portugal os poucos agasalhos que tinha na mochila. Apenas um dia depois de meter a encomenda no correio, ocorreu-que que na outra metade do mundo (aquela onde planeava passar três semanas muito em breve) se vive o pico do inverno entre julho e agosto. Passeie-me, portanto, pela magnífica “nação arco-íris” — Joanesburgo, Kruguer Park, Durban e Cidade do Cabo — de forma muito pouco glamorosa, vestida com várias camadas descoordenadas de roupa e por vezes envergando casacos e gorros emprestados. 

Fundada em 1886 por colonizadores britânicos, Joanesburgo tem a particularidade de ficar quase 1800 metros acima do nível do mar. Hoje, é não só a maior cidade sul africana — com cerca de 4 milhões de habitantes — como também a mais rica, já que constitui o principal centro financeiro, industrial e comercial do país. Mas essa riqueza, extremamente mal distribuída, as gigantescas bolsas de pobreza, a pesada herança do Apartheid e um conjunto complexo de fatores culturais estão na origem de tensões sociais que fazem de Joanesburgo um dos lugares mais perigosos de toda a África do Sul: assassinatos, raptos, assaltos violentos de toda a espécie e violações são coisas do dia-a-dia. Viver em Jozi — um diminutivo que não escamoteia as agruras da cidade — é, portanto, estar exaustivamente obcecado com a segurança. Uma obsessão que pauta e constrange qualquer atividade. Uma obsessão a que os meros visitantes não conseguem (nem devem!) ficar alheios. 


E depois há a raça, esse assunto que me atingiu como uma forte bofetada, abalou as minhas certezas, questionou os meus valores, provocou uma avalanche de dúvidas, colocou sob os holofotes a minha ignorância, trouxe à tona os meus preconceitos e me levou à náusea e às lágrimas. A raça, essa questão sobre a qual eu nunca quis refletir com seriedade, apesar de todos os meus estudos, apesar de todas as minhas leituras, apesar de todos os documentários e filmes a que assisti, apesar de todas as viagens que fiz e de todos os choques culturais que vivi. A raça, um tema que eu optei por nunca valorizar porque deste lugar privilegiado onde me encontro — uma branca da classe média, que teve a sorte de nascer num país rico, laico e liberal do ocidente — preferi afirmar sempre, com toda a convicção (e ingenuamente?), que a cor da pele pura e simplesmente não interessa. A raça — para mim um “não-assunto”; para milhões uma condenação —, o conceito com base no qual se instaurou um regime abjeto e se escreveu grande parte da história de um país extraordinário. 

Visitei Joanesburgo e outras cidades sul-africanas 20 anos depois de abolido o Apartheid e sete meses após a morte de Nelson Mandela. Na África do Sul a omnipresença de Madiba supera a de Deus. Venerado por todos — independentemente da cor da pele, credo religioso ou filiação partidária — a sua imagem está em todos os lugares, públicos ou privados, e a sua mensagem de luta, reconciliação e esperança decora os muros das cidades e as t-shirts dos jovens. Esforços legislativos são feitos tendo em vista a erradicação das desigualdades sociais e económicas criadas por 44 anos de políticas racistas. Largos milhares de sul-africanos saíram já da pobreza. E ainda assim a nação arco-íris, com a nova bandeira hasteada, o novo hino nacional na boca das crianças e os olhos postos num futuro que se quer cheio de oportunidades para todos sem excepção, luta e lutará durante muitas décadas para se libertar do lodaçal da segregação. 

Segurança e raça. Duas palavras que ditaram o ritmo dos meus dias em Joanesburgo. Porque fui forçada a procurar alojamento em bairros residenciais para brancos, delimitados por muros altos, cercados por vedações eléctricas e vigiados por câmaras. Porque os meus passos estavam limitados a uma poucas ruas onde também outros brancos caminhavam com relativa descontração. Porque não pude apanhar transportes públicos e até o taxista que me serviu de guia teve de ser recomendado por uma pessoa de confiança. Porque tive de ver o centro da cidade através dos vidros fechados de um carro cujas portas estavam sempre trancadas por dentro. Porque ainda há brancos racistas e negros racistas e brancos que se afirmam não racistas, mas que não gostam dos imigrantes nigerianos e negros que também dizem não ser racistas, mas também não gostam dos imigrantes nigerianos e afrikaners que ostracizam todos os que não são afrikaners e brancos que nem sequer são sul-africanos e odeiam afrikaners e mestiços que não sabem a que lado pertencem, porque os lados ainda existem!

Quando voltei a Joanesburgo, depois de quatro dias de safari no Kruguer Park, optei por ficar alojada numa pequena guest house em Melville, um bairro residencial nos arredores da cidade que é habitado maioritariamente por brancos. Ali predominam as casas térreas, os passeios com árvores frondosas, o pequeno comércio, bares e restaurantes para todos os gostos. É, aliás, um lugar onde à noite se vive uma certa “movida” e onde de uma forma geral é possível circular a pé sem grandes perigos. Todas as manhãs caminhava do meu quarto até ao Café de la Crème — um espaço de extremo bom gosto e excelente serviço, gerido por portugueses — onde tomei sempre o pequeno-almoço. E foi aí, por entre iogurtes com cereais, cafés e sumos de laranja que fiz a única fotografia para o Acordo Fotográfico na África do Sul.

Joanne lê muito porque para si ler é uma necessidade absoluta. Normalmente, anda sempre com dois livros na carteira e em casa, na mesinha de cabeceira, tem outros vinte, alguns novos, outros por reler. Aquele que lia na manhã em que a fotografei — Confessions of a Sociopath — fora uma compra por impulso. “Vi-o na livraria e despertou-me a atenção. É sobre uma mulher que sempre percebeu claramente que era diferente até ao dia em que alguém lhe diz que tem características sociopáticas. A partir desse momento esta mulher começa a investigar a fundo as origens da sua condição — será genético? Será social? Será fruto de algum trauma de infância? — e faz um relato do que é viver com esse mal. Este livro é, na verdade, uma autobiografia muito interessante, sobretudo se considerarmos que estatisticamente uma em cada vinte e cinco pessoas tem traços de sociopatia, que podem ir de ligeiros a severos. E o mais curioso é que a sociopatia não tem tratamento. Não há medicação ou terapia que ajude. Nasce-se assim e pronto“.

Fui feliz na nação de Mandela e quero muito lá voltar. Ficou tanto por ver, tanto por fazer. E ficaram lá amigos, também. A África do Sul deslumbrou-me com a sua beleza natural, enriqueceu-me com a sua história e cultura, comoveu-me profundamente ao proporcionar-me aquela que foi, talvez, a experiência humana mais extrema da minha vida (e sobre a qual ainda não devo escrever). Mas, passados tantos meses sobre a minha estadia dou-me conta, agora que tento com tanta dificuldade contar-vos uma milésima fração do que experienciei, o quanto é complexo o nó que ainda trago por desatar no peito. Terá sido por isso que não quis fotografar mais? Não sei… Se calhar fui apenas preguiçosa.
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