Vietname — Dunj & John Green

 
Era domingo à tarde e os domingos à tarde em Hanoi parecem-se com os domingos à tarde em qualquer outra parte do mundo. A cidade nunca pára, é um facto, mas havia mais gente disposta a preguiçar junto às margens do lago. Quis passar lá as minhas últimas horas no Vietname, já de nó apertado na garganta. Sabia que andaria por muito tempo com este país sob a pele. Mas desconhecia o poder duradouro do seu fascínio. 
 
Apostada em absorver ao máximo cada derradeiro minuto, fiz um esforço consciente para apurar ainda mais os meus sentidos e mergulhar no meio deles, os vietnamitas, enquanto uma forma de mantra se repetia no meu pensamento: estou aqui e agora. E observei para viver o momento e recordar para sempre. O sol já baixo, os casais com os filhos pelas mãos, as mulheres aos pares que se exercitavam em passo apressado, os homens que faziam o seu jogging de auriculares nos ouvidos, os grupos de amigas entretidas a tirar selfies, o quiosque que vendia os melhores gelados da cidade e cuja fila de clientes nunca diminuía, os bancos ocupados pelos mais velhos, os outros turistas, as árvores inclinadas cujos ramos mergulhavam no espelho de água, a dúzia de idosas que ao som de um rádio estridente realizavam em fila uma coreografia que implicava, em certos passes, que massajassem as costas umas das outras. E Dunj que, sentado na borda de um canteiro, começava a ler “A Culpa é das Estrelas“, de John Green, um livro acabado de comprar. 
 
Adoro ler e leio muito. Um amigo recomendou-me este livro, disse que era muito bom. Sei que estreou o filme lá fora, mas não vai passar cá no Vietname, por isso leio o livro. E até prefiro porque sei que de uma forma geral os livros são sempre melhores. O meu autor preferido é vietnamita e escreve romances. Chama-se  Anh Khang. Mas também gosto muito do George R. R. Martin. Acho que o preço dos livros no Vietname é justo, mas os vietnamitas leem pouco. Os mais velhos leem jornais e os mais novos passam o tempo todo online.
 
Afastei-me, depois, à procura de um lugar para também eu me sentar um pouco. Nesse momento, fui abordada por um grupo de rapazes e raparigas que vieram apresentar-se e que me perguntaram se me importaria de conversar um pouco com eles para que praticassem inglês. Pareceu-me que não havia melhor forma de me despedir de Hanoi. Eram todos estudantes universitários, das mais variadas áreas: uma aspirante a médica, um futuro jornalista, um quase engenheiro. Contaram-me das suas origens, dos lugares de onde vinham, dos sacrifícios que as famílias faziam para que estudassem na capital, do significado dos seus nomes próprios: sorte, prosperidade, riqueza. Falámos de sonhos e do futuro. Rimos. Tirámos fotografias. Abraçámo-nos. Anoiteceu. E naquele domingo à noite, tão semelhante a qualquer outro domingo à noite em qualquer outra parte do mundo, senti-me “simplesmente membro da família humana” (José Tolentino Mendonça).
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