Vietname — Huy em Sa Pa

 
Deixei Ha Long Bay num domingo à tarde e parti em direção a Hanoi onde, umas horas depois, apanhei um comboio noturno para Lao Cai, uma pequena cidade no extremo norte do Vietname, junto à fronteira com a China. O objetivo era chegar a Sa Pa, um vilarejo pitoresco aninhado no sopé do Fan Si Pan, o ponto mais alto do país. 

Fiz a viagem num compartimento pequeníssimo onde havia quatro beliches. Eu e a Nilza ocupámos os da direita, ela em baixo e eu em cima; os outros foram ocupados por dois vietnamitas, aparentemente pai e filho, ambos homens de poucas palavras. Depois de várias semanas a queixar-me dos ares condicionados débeis dos transportes que frequentei, nessa noite dei graças por ter um polar para me agasalhar. Lá fora as temperaturas mantinham-se elevadas e a humidade não dava tréguas, mas a cabina onde me preparava para passar a noite parecia o pólo norte e os nossos companheiros de viagem, refastelados nas suas camas, estavam deliciados com o choque térmico. Porque o polar não chegou para me aquecer, enrolei-me o mais que pude na manta grossíssima colocada sob a almofada e deixei-me levar pelo embalo do velho comboio que, muito lentamente, deixava Hanoi. Pela janela, apesar da noite cerrada, consegui observar cenas fugazes da vida na capital do Vietname: as casas pobres de um bairro parcamente iluminado, as vendedoras de um mercado montado junto à linha, os casais que escolhem a ponte ferroviária para namorar na semi obscuridade, as famílias sentadas sobre mantas num descampado onde se entretêm a ver passar as pesadas carruagens de madeira e ferro. 

No interior do comboio instalou-se por fim o silêncio. Os passageiros estavam todos acomodados, o vai-vém nos corredores tinha cessado, a porta do nosso compartimento estava fechada com o trinco para evitar que se abrisse a cada curva e eu tentava adormecer fazendo de conta que não me deixava algo apreensiva estar trancada numa divisão de poucos metros quadrados com dois estranhos. O mais velho, em baixo, roncava; o mais novo, deitado ao meu nível e à distância de um braço esticado, vinha entretido com o telemóvel, que me passou para as mãos sem pré-aviso para que visse este vídeo. Devolvi-lhe o aparelho emocionada. Ele sorriu-me, tímido, e eu adormeci confiante: dali não vinha qualquer perigo, nem para nós, nem para a nossa bagagem. Ainda assim, passei a noite agarrada à pequena mochila que continha os meus documentos, algum dinheiro, o computador e as câmaras fotográficas, enfim, os meus bens mais valiosos. Passadas oito horas, acordámos todos com os berros de um funcionário dos caminhos de ferro que anunciava a chegada a Lao Cai ao mesmo tempo que batia nas portas das cabinas. Estremunhada, coloquei os cerca de vinte e cinco quilos de bagagem às costas, desci para a plataforma e segui as centenas de passageiros para fora da estação. Daí a uns minutos, apareceu a carrinha que nos levaria, montanha acima, até ao nosso destino final. 

Situada a cerca de quatrocentos quilómetros a noroeste de Hanoi, na zona mais montanhosa do Vietname, Sa Pa foi frequentada pelo colonizadores franceses entre os finais do século XIX e o fim da Segunda Guerra Mundial, tendo funcionado não só como base militar, mas também, graças ao seu clima ameno, como sanatório e estância de férias para os mais abastados. Entre as décadas de 50 e 60 do século XX, no seguimento de vários conflitos armados, Sa Pa ficou arrasada e votada ao abandono. O processo foi revertido pelas autoridades vietnamitas nos início dos anos 80, quando investiram no repovoamento da zona, até que nos anos 90 se apostou na abertura do lugar ao turismo. Desde então, nas últimas duas décadas, milhares de visitantes de todo o mundo chegam a Sa Pa ano após ano para mergulhar por uns dias na cultura das minorias étnicas que habitam a região. Foi o que eu fiz, também. 

Dos quatro dias que lá estive, dois foram passados a caminhar por entre os campos de arroz. Depois de os ter visto à distância durante tantas semanas pude, por fim, embrenhar-me neles, sentir-lhes o cheiro e, literalmente, a textura quando por acidente me desequilibrei e enfiei um pé até ao tornozelo num arrozal alagado e lamacento. Nessa caminhada tivemos por guia a Mou, da tribo Hmong. Era tão pequena e franzina que mais parecia uma adolescente, mas Mou tinha vinte e oito anos, era casada e mãe de duas crianças. Assim que nos metemos a caminho, percebi que o seu ar de menina era muito enganador: Mou transbordava energia física e possuía um sentido de humor desconcertante. Não foram poucas as vezes em que gozou comigo, simulando sentir-se ofendida por algo que eu tivesse feito, para depois rir-se da minha surpresa, soltando gargalhadas infantis e fechando os olhos que ganhavam a forma de simples rasgos no rosto. Era linda a Mou, nas suas vestes tradicionais pintadas de índigo, a camisa verde alface, a saia de barras bordadas, as feições perfeitas e delicadas, a voz fina e meiga, as mãos miúdas, o cabelo negro comprido que quando solto lhe roçava a curva das nádegas, os pés pequeníssimos e a pernas torneadas pelos quilómetros que a profissão a obriga a percorrer. 

Para além dela, um grupo de meia dúzia de mulheres com os filhos às costas caminhou connosco com o único intuito de nos vender alguma coisa mal parássemos para comer ou antes de chegarmos à casa da família onde passaríamos a noite. Ágeis como gazelas, percorreram sem dificuldade os caminhos mais íngremes e escorregadios e foi graças à sua ajuda que não me estatelei um par de vezes. Estas mulheres, que tingem de azul escuro os panos que tecem com cânhamo e confeccionam com eles as suas próprias roupas, trazem quase todas as mãos pintadas de índigo até aos pulsos e eu cheguei a agarrar-me com tanta força e por tanto tempo às mãos de uma delas, que também as minhas pele se tingiu. Na sua companhia, a caminhada de muitas horas ganhou outro encanto. Quiseram saber das nossas vidas, fizeram inúmeras perguntas, pasmavam com as nossa respostas. Jurei ver no rosto de algumas pena por me saberem só, sem marido nem filhos. Mas outras houve que vieram depois dizer-me, entre risinhos, que eu é que tinha razão, que estava bem assim, porque os homens e os filhos só davam trabalho e faziam envelhecer. 

A família Hmong que nos recebeu nesse fim de dia em sua casa mal falava inglês. Os nossos diálogos reduziram-se ao mais básico: pedir água, perguntar pela casa de banho, comentar a beleza da paisagem, elogiar a comida que nos serviram. A casa, lá bem no alto, tinha na frente um alpendre que fazia as vezes de miradouro. De ali avistava-se grande parte do vale feito de arrozais em socalcos por onde tínhamos caminhado todo o dia. A senhora trazia ao colo um bebé recém-nascido que não largou um minuto. Olhava-o embevecida, como se adorasse um Deus menino. Dir-se-ia que era o seu primeiro filho, mas era o quinto. Quem tratou de nós — eu, a Nilza, um jovem britânico e a sua namorada filipina — foi o primogénito, um rapaz de catorze anos que confeccionou num forno a lenha a melhor refeição vegetariana que comi na minha vida. 

Ali, nas montanhas do Vietname, como em qualquer outra zona rural do mundo, os dias vivem-se ao ritmo da luz solar, por isso, pouco depois de ter escurecido retirámo-nos para o sótão onde dormimos em colchões espalhados pelo chão. Há anos que não me deitava tão cedo, mas o corpo agradeceu. E quando todos os sons humanos  cessaram — o choro do bebé, as gargalhadas das famílias vizinhas, as loiças a chocalhar na cozinha — os sons da natureza impuseram-se de tal forma que pareciam amplificados por colunas de som gigantescas. Não sei que criaturas são capazes de cantos tão ensurdecedores. Só sei que os achei fascinantes e que de todas as vezes que acordei por causa dessa sinfonia exótica, dei por mim a sorrir no escuro. Era maravilhoso! 

Na manhã seguinte, depois de um pequeno almoço de chá com leite e panquecas com banana e mel, calcei a muito custo as botas, os pés forrados com pensos rápidos. Começámos a caminhar antes das sete da manhã e o percurso, de regresso à vila de Sa Pa, terminaria só após o almoço. Esses quilómetros acabaram por me custar um par de unhas, que caíram, e ainda hoje me recomponho das mazelas que me ficaram nas outras… Feitas as despedidas da Mou e do casal que nos acompanhou, regressámos ao hotel onde as mochilas grandes tinham ficado, tomámos um banho retemperador e, de havaiana nos pés doridos, saímos para explorar a vila. Na verdade não há muito para ver: um par de ruas principais onde se alinham hotéis, restaurantes, cafés e lojas, um largo com uma igreja pequena que vi sempre fechada e um pequeno mercado que se visita em poucos minutos.

Ao nos aventurarmos por uma zona mais residencial, de onde se tinha uma vista espetacular sobre o vale e as montanhas, passei pela entrada de uma casa onde um grupo de crianças brincava com triciclos e outros dois miúdos, mais velhos, se entretinham com um livro de banda desenhada. Fiz-me entender o suficiente para que percebessem que queria fotografá-los, mas a excitação que o meu pedido causou quase me fez desistir. É que um deles, o que se vê na foto a fazer uma careta, tomado pela euforia passou com o triciclo por cima de um dos meus pés, já de si muito mal tratados. A dor foi tanta que me vieram as lágrimas ao olhos. Fiz a foto a muito custo e depois ainda tive de erguer a câmara no ar o mais que pude para evitar que aquele bando de pirralhos irrequietos ma tirasse das mãos na ânsia de ver a imagem. Levantei a voz, fiz cara de má, mostrei-lhes a fotografia na fração de segundos em que a histeria amainou e, agradecendo à pressa, voltei costas e fui-me embora a mancar. 

Mais fotos aqui.
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