Beatriz, antes da pandemia

Sandra Barão Nobre - Acordo Fotográfico - Beatriz antes da pandemia - 1

Foi há dois meses.

Os primeiros casos de Covid-19 em Portugal tinham sido confirmados havia uma semana, mas a minha vida — a vida de quase todos, presumo — prosseguia sem interrupções. Naquele início de tarde saí de casa rumo a Lisboa onde passaria dois dias por razões profissionais. Levei a câmara fotográfica comigo porque estava determinada a cumprir a promessa feita: voltar a fotografar e a escrever regularmente para o Acordo Fotográfico. Era um Domingo 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, e este pareceu-me um bom pretexto para abordar uma leitora. Foi assim que conheci a Beatriz, num dos cafés do terminal de autocarros do Campo 24 de Agosto, no Porto. Lia “Lição de Tango”, um romance da autora italiana Sveva Casati Modignani.

Gosto muito de ler. E a minha mãe também. Acabamos por estar sempre a partilhar livros e foi este que havia agora para ler lá em casa. Sempre houve livros em minha casa, que vão rodando entre mim, a minha mãe e a minha tia. A minha tia lê, recomenda e nós vamos atrás. E tenho uma família de escritores, a minha tia escreve, o meu tio-avô também e a minha avó deu aulas de português. Portanto, se não gostasse de ler até parecia mal”, diz rindo-se.

A Beatriz trabalha no Porto, mas vive em Coimbra. As suas deslocações entre as duas cidades são muito frequentes e vê nos livros e na leitura uma forma de companhia: “Gosto muito! A leitura tem um papel muito importante na minha vida, ao ponto de não conseguir ir para a cama sem ler nem que sejam 10 minutos, ou pegar nos livros para ocupar qualquer tempinho livre. Se quiser ter alguma companhia, leio um livro. Este, da Sveva, é uma daquelas leituras mais fáceis, que consigo ler em todo o lado, não é um livro muito pesado e posso andar com ele sempre atrás.

Quanto a leituras feitas que acarinhe particularmente, a Beatriz nem vacila e responde logo: “Há um livro que se chama “Frágil” (de Jodi Picoult, Civilização Editora, 2009), que é sobre uma menina que tem uma doença em que os ossos se partem com muita facilidade (osteogénese imperfeita). É engraçado… Li-o há muito tempo, uns quinze anos?, e lembro-me como se fosse ontem. Recomendo-o muitas vezes porque me marcou, pela facilidade de leitura e pela aprendizagem que fiz na altura, perceber que às vezes mais vale desistir do que estar cá só porque sim, não sei se me faço entender… A protagonista do romance estava muito mal, mas os pais estavam sempre a tentar mais uma coisa, mais uma coisa… Até ao dia em que ela foi passear sozinha e caiu num lago gelado e afogou-se. E acabou assim a vida dela, como se não tivesse sido nada… Não sei… Eu gostei muito e a história ainda me acompanha nos dias de hoje.

Foi há dois meses.

Mas parece que foi noutra vida. E o Acordo Fotográfico fica de novo suspenso, sem saber quando poderei voltar a interagir com leitores que não conheço, num qualquer lugar público. Sem saber se terei vontade para os abordar de máscara. Sem saber se conseguirei resgatar este prazer que, por agora, o vírus parece ter-me roubado.

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